Descrição de chapéu China

Em aniversário da Revolução Chinesa, Hong Kong prende 60, e chefe-executiva celebra 'retorno da paz'

Para ativistas, não há o que comemorar; estimativa aponta mais de 10 mil presos em protestos desde 2019

Hong Kong | AFP e Reuters

A polícia de choque de Hong Kong prendeu pelo menos 60 pessoas nesta quinta-feira (1º) por violação da norma que proíbe protestos de rua. Os atos estão vetados como forma de contenção do coronavírus, mas os detidos são, principalmente, críticos ao regime de Pequim, manifestantes pró-democracia e outros considerados suspeitos pelas autoridades honconguesas.

Estima-se que Hong Kong tenha mobilizado cerca de 6.000 agentes para patrulhar as ruas e impedir que multidões se reunissem no dia que celebra o 71º aniversário da Revolução Comunista Chinesa.

Na mesma data no ano passado, houve confrontos violentos entre manifestantes e policiais. Desta vez, as autoridades proibiram qualquer tipo de manifestação devido à pandemia de coronavírus, mas a lei de segurança nacional aprovada por Pequim também tem sido usada para reprimir grupos que defendem a autonomia de Hong Kong.

Policiais dispersam manifestantes em Hong Kong durante atos contra Pequim em feriado chinês - May James - 1º.out.20/AFP

A maior parte dos detidos marchava contra a imposição da nova legislação, promulgada em junho com o intuito de combater qualquer coisa que o regime de Xi Jinping considere subversão, secessão, terrorismo e conluio com forças estrangeiras. As sentenças podem chegar a prisão perpétua.

Outros manifestantes exigiam o retorno de 12 honcongueses presos por autoridades chinesas no mar, em agosto, quando tentavam chegar a Taiwan, território que a China considera uma província rebelde. Todos são considerados suspeitos de participar dos protestos que mobilizaram milhares de pessoas no ano passado em Hong Kong.

"É o dia nacional da China, mas este é o dia da morte de Hong Kong", disse Jay, uma mulher vestida de preto, à agência de notícias Reuters. O traje era uma forma de protesto. "O povo de Hong Kong está sob muita pressão, mas temos que tentar e continuar lutando pela liberdade."

Às centenas, policiais caminharam pelas ruas abordando e mandando embora todos os que fossem considerados suspeitos.

Entre os que foram obrigados a sair estavam um adolescente tocando canções de protesto em um instrumento de sopro, um homem vestido de preto e segurando um balão amarelo —cores associadas ao movimento pró-democracia— e uma mulher segurando um exemplar do tablóide Apple Daily, cujo dono, o bilionário Jimmy Lay, foi preso em agosto e é considerado um dos críticos mais ferrenhos de Pequim.

Enquanto os milhares de policiais reprimiam os honcongueses nas ruas, a chefe-executiva Carrie Lam participava de uma cerimônia de hasteamento da bandeira com altos funcionários de Hong Kong e da China continental.

No centro de exposições, monitorado por helicópteros e cercado por policiais e barreiras de segurança, Lam comemorou o que ela chamou de "retorno à paz".

“Nos últimos meses, um fato inegável para todos é que nossa sociedade está em paz novamente”, declarou Lam em seu discurso. “A segurança nacional do nosso país foi protegida em Hong Kong e os nossos cidadãos podem voltar a exercer direitos e liberdades de acordo com as leis.”

A chefe-executiva de Hong Kong, Carrie Lam (ao centro), durante cerimônia de comemoração do feriado chinês em Hong Kong - Lam Yik - 1º.out.20/Reuters

O que a chefe-executiva ignorou em seu pronunciamento foi que a legislação imposta por Pequim tem sido alvo de duras críticas e sanções por parte da comunidade internacional.

Ex-colônia britânica, Hong Kong voltou ao controle da China em 1997 sob um modelo conhecido como "um país, dois sistemas", segundo o qual o território teria autonomia em relação ao governo central chinês.

Para grande parte dos honcongueses não havia o que comemorar nesta quinta-feira. Quatro membros da Liga dos Social-democratas, liderados pelo ativista veterano Leung Kwok-hung, marcharam segurando uma faixa com os dizeres "Não há comemoração do dia nacional, apenas luto nacional".

Quatro pessoas é o número máximo permitido em reuniões públicas, de acordo com as regras adotadas sob justificativa de conter a propagação do coronavírus.

A Covid-19 também foi a razão alegada para adiar as eleições legislativas em Hong Kong, inicialmente marcadas para o mês passado. Ativistas pró-democracia veem o reagendamento do pleito para setembro de 2021 como mais um resultado da interferência de Pequim.

"Hoje, na China, aqueles que querem a liberdade são reprimidos e aqueles que a reprimem estão no poder", disse o ativista Lee Cheuk-yan a repórteres.

Joshua Wong, um dos principais nomes do movimento pró-democracia, estava entre os que foram obrigados a se dispersar. Na semana passada, o ativista foi preso por "reunião ilegal" e por cobrir o rosto durante um protesto organizado em outubro de 2019. Wong foi liberado após pagamento de fiança.

"Hoje não é um dia de festa, é hora de o mundo tomar consciência da maneira com que o Partido Comunista silencia as vozes de Hong Kong", disse.

Estima-se que mais de 10 mil pessoas foram presas por participarem de manifestações nos últimos 16 meses. No início de setembro, durante um protesto contra o adiamento das eleições, mais de 300 pessoas foram presas em um único dia.

Para apoiadores do regime central, entretanto, o feriado desta quinta foi uma oportunidade de estimular o patriotismo. Na cerimônia oficial, Lam elogiou o sucesso da China em conter o coronavírus e louvou a recuperação econômica do país.

Segundo a chefe-executiva, a China se apresentou ao mundo como um "raro ponto brilhante" e "mostrou mais uma vez a mudança do foco econômico global do Ocidente para o Oriente".

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