Descrição de chapéu Coronavírus

Judeus ultraortodoxos e briga política formam caldo da volta da Covid-19 a Nova York

Restrições irritaram religiosos, que queimaram máscaras em protesto violento na área de Borough Park

Lúcia Guimarães
Nova York

Era evitável e era previsível. Nova York, primeiro epicentro da pandemia de coronavírus nos EUA, cidade que perdeu mais de 23 mil residentes na região metropolitana desde março e começou a reabrir no final de maio, agora sofre um retrocesso, com vários focos de contaminação por Covid-19.

Nas últimas semanas, ao menos 20 áreas foram identificadas como locais de aumento de infecções, e na terça (6) o governador Andrew Cuomo determinou o fechamento de centenas de escolas públicas e particulares, além de comércio não essencial em zonas com alta de casos, como o Brooklyn e o Queens.

Ainda que muito longe das cifras no período de pico, em abril, quando o número de novos casos diários chegou a 12.274, esse índice voltou a ultrapassar mil infecções por dia no fim de setembro. Nesta quinta (8), atingiu 1.835 contaminações, maior número desde 21 de maio, segundo o New York Times.

Família de judeus ortodoxos observa manifestação contra restrições impostas em Nova York para evitar disseminação da Covid-19
Família de judeus ortodoxos observa manifestação contra restrições impostas em Nova York para evitar disseminação da Covid-19 - Spencer Platt/Getty Images/AFP

Cuomo também limitou a concentração de pessoas em templos religiosos, irritando as comunidades ultraortodoxa e hassídica, porque destacou que templos, escolas e centros judaicos estavam ignorando precauções sobre aglomerações e uso de máscaras.

Nova York tem a maior população judaica fora de Israel, calculada em 1,1 milhão de pessoas. São 500 mil ultraortodoxos, incluindo os hassídicos, uma vertente mais conservadora e com vida mais segregada.

O que pegou a cidade de surpresa foi a reação violenta no sul do Brooklyn, primeiro quando ultraortodoxos promoveram uma queima de máscaras em protesto contra as novas restrições, na terça. Na noite seguinte, um conhecido jornalista de um site judaico local, Jacob Kornbluth, escapou de um linchamento incitado por um ativista da área de Borough Park que considera o aumento de casos uma invenção.

Na quinta (8), o prefeito Bill de Blasio considerou inadmissível a violência e disse que a situação tem que ser resolvida imediatamente. Ele foi criticado, porém, por não ser mais enérgico com a comunidade.

O democrata é um ferrenho aliado dos ultraortodoxos, não porque seja religioso, mas em parte porque, desde o primeiro mandato, conta com o grupo em sua briga política para não perder o controle do maior sistema de escolas públicas do país para o governo do estado.

Essa aliança se reflete na lentidão da prefeitura em investigar a falta de currículo secular obrigatório, de disciplinas como matemática e geografia, nas yeshivas, as escolas religiosas judaicas.

Nesta sexta (9), Cuomo foi ainda mais crítico: disse que os novos focos da pandemia são predominantemente um problema ultraortodoxo e nada têm a ver com liberdade religiosa em geral.

A cidade entrou em quarentena com atraso no meio de março, quando o vírus já havia invadido essa região, não por meio de voos da China, mas com o grande influxo de viajantes da Europa.

Após um começo criticado na gestão da pandemia, Cuomo se tornou o mais visível líder regional no combate à Covid-19, coordenando esforços com governadores de estados vizinhos, onde moram muitos dos que trabalham e frequentam Nova York, e dando entrevistas coletivas em que fazia apelos por ajuda do governo federal e criticava a relutância do presidente Donald Trump em ajudar um estado democrata.

A volta do coronavírus a Nova York pode ser explicada por múltiplos fatores que distinguem a metrópole mais densa do país de outras grandes cidades. Há dependência maior de transporte de massa. Há uma população de 400 mil pessoas em conjuntos habitacionais mal conservados e com ventilação precária.

E o que faz de Nova York ser apreciada, a diversidade étnica e de línguas, é um obstáculo à prevenção de saúde. “Vamos parar de governar Nova York como se fosse uma cidade de língua inglesa”, reclamou nesta semana Eric Adams, administrador regional do Brooklyn, a região que concentra o maior número de novas infecções por causa da vasta população de judeus ortodoxos, ultraortodoxos e hassídicos.

Adams lembra que quase metade dos 2,5 milhões de moradores do bairro não falam inglês em casa. Não adianta exibir comunicação monoglota ou colocar o prefeito fazendo apelos em espanhol macarrônico.

No caso dos judeus ultraortodoxos e dos hassídicos, as famílias tendem a não se informar por mídias de massa —é comum não terem TV ou rádio. A autoridade civil é substituída pela autoridade religiosa.

Interesses políticos conflitantes ajudam a dificultar soluções sanitárias. Cuomo não se dá bem com De Blasio. Ambos são democratas, trabalharam com o casal Bill e Hillary Clinton, mas a animosidade começou já no primeiro mandato do prefeito, em 2014.

Embora o antagonismo entre prefeitos de Nova York e governadores do estado seja comum, Cuomo, desde que De Blasio assumiu, pega mais pesado ao usar seu poder executivo para interferir na cidade, em questões como transportes e educação.

Recentemente, os dois se desentenderam sobre as restrições imediatas para enfrentar a volta do vírus, e Cuomo deixou claro que ele decidiria o que fechar e quando.

Tanto o governador quanto De Blasio sabem, por experiência recente —em 2018, Nova York se tornou o maior foco da volta do sarampo—, da importância de negociar com líderes judaicos, os que têm poder de promover a implementação de medidas sanitárias.

À época, a falta de vacinação entre crianças ultraortodoxas piorou o quadro.

Há um exército de rastreadores de contatos de infectados por coronavírus em Nova York. Eles trabalham em turnos consecutivos online, começando por quem recebeu o diagnóstico de Covid-19 e expandindo as mensagens e os telefonemas a quem foi exposto ao contaminado.

Nesta semana, durante uma reunião com supervisores, a queixa era comum: não é possível continuar o monitoramento da comunidade ultraortodoxa. Um rastreador, sob condição de anonimato, disse à Folha que, ao ouvir seu sotaque hispânico, desligam ou dizem que estão ocupados. E contou que a cidade está acelerando o recrutamento de rastreadores que falam ídiche.

Nas novas áreas de quarentena, pequenos comerciantes que sobreviveram ao começo da pandemia estão indignados por pagarem o preço pela negligência de uma minoria. Restaurantes que tinham acabado de reabrir com restrições para refeições em ambientes fechados voltarão a depender de entregas.

Mas salões de beleza, barbeiros, lojas de roupa e outros negócios não essenciais já gastaram toda a ajuda de emergência que chegou no primeiro semestre e temem um inverno de penúria pela frente.

Em agosto, a organização Parceria pela Cidade de Nova York, um influente grupo da iniciativa privada, publicou um estudo que estima o fechamento de um terço dos 230 mil pequenos negócios de Nova York na recessão provocada pela pandemia. Com o repique do vírus, o inverno se anuncia ainda mais rigoroso.

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