Descrição de chapéu Eleições EUA 2020

Minha eleição: 'Traiçoeira, votação dos EUA obriga a manter barbas de molho'

2004 me mostrou como o jogo pode ser sujo na mais importante democracia do mundo

São Paulo

“Ohio election still too close to call. Ohio election still too close to call.”

A frase, alertando que a eleição norte-americana permanecia indefinida no estado-chave de Ohio, seria ouvida dezenas de vezes durante uma madrugada não dormida de 3 de novembro de 2004.

George W. Bush buscava a reeleição contra o democrata John Kerry quatro anos após o trauma de 2000, quando o republicano havia vencido Al Gore após dias de disputas encardidas na Justiça.

Com o placar em todos os outros estados já definido, Ohio daria o veredicto só no fim da manhã do dia seguinte à votação.

Os então candidatos John Kerry (à esq.) e George W. Bush se cumprimentam em debate da campanha presidencial - Jim Bourg - 13.out.2004/Reuters

Em vários jornais, inclusive no Brasil, muitas manchetes daquele 3 de outubro de 2004 apontavam para a vitória de John Kerry a partir das pesquisas de boca de urna da véspera —e de uma verdadeira torcida no campo democrata que turvou a visão de parte da mídia.

Na Folha, após acalorada discussão com a Redação em São Paulo, optou-se por destacar em manchete a participação do público no pleito: “EUA têm recorde de eleitores e filas".

Na capa do caderno Mundo, ficamos com a informação possível naquela altura: “Indefinição em estados-chave mantém a disputa acirrada”.

Ao contrário da aposta de muitos em Kerry, Bush se reelegeria numa vitória completa: amparado por uma onda conservadora, o republicano venceu no voto popular, no Colégio Eleitoral, na Câmara dos Deputados e no Senado.

Daquela noite mal dormida em Washington, ainda guardo duas lembranças cotidianas.

Em minha senha de letras e números de um email até hoje permanece a palavra Ohio. No escritório em casa há um pequeno quadro emoldurado por um amigo inglês, então correspondente da BBC no Brasil, com as manchetes da Folha, com seu título um tanto anódino, e a do jornal concorrente paulista: "Boca de urna aposta em Kerry”.

No meio da colagem, a logomarca do Cosi, lanchonete ao lado de meu apartamento na capital americana, em Dupont Circle, onde costumava tomar chá gelado com Steve Kingstone, meu amigo da BBC, que também havia trabalhado em Washington antes.

Para meu espanto, Steve acabaria, anos depois, como assessor de imprensa da rainha Elizabeth, com despachos semanais com a alteza no Palácio de Buckingham.

Capa do caderno especial de eleições nos EUA, publicado pela Folha em 3 de novembro de 2004
Capa do caderno especial de eleições nos EUA, publicado pela Folha em 3 de novembro de 2004 - Acervo Folha/Reprodução

Foi nesse mesmo Cosi que costumava frequentar com Steve que assisti pela TV, diante de um café aguado após a noite sem dormir, ao discurso de John Kerry assumindo a derrota para Bush. Na minha vizinhança liberal, o baixo astral era geral.

Muito se fala sobre as fake news e as táticas heterodoxas de Donald Trump. Mas a eleição de 2004 abriu meus olhos para duas coisas: como o jogo pode ser sujo na mais importante democracia do mundo; e como o sistema eleitoral norte-americano é traiçoeiro.

Naquela campanha, a máquina republicana de Bush conseguiu reduzir o senador por Massachusetts John Kerry, um herói condecorado por comandar bravamente um barco no delta do rio Mekong, na Guerra do Vietnã, a um sujeito indeciso e acovardado diante de desafios.

Bush, que refugiou-se durante o conflito do Vietnã na Guarda Nacional no Texas, estado em que seu pai, George Bush, mexia muitos pauzinhos, acabou assumindo o papel de grande líder militar na guerra contra o Iraque.

No ano anterior, fantasiado de piloto, Bush havia aterrissado para fotos no deck de um porta-aviões para dizer que a missão no Iraque, até hoje mergulhado em caos, havia sido cumprida.

Bush posaria de herói até o fim, deixando Kerry acabrunhado em seu canto por muito tempo, até ser resgatado por Barack Obama, anos depois, para servir como secretário de Estado norte-americano.

Sobre o segundo aspecto, é preciso ter em mente que, além do intrincado sistema de Colégio Eleitoral, em que o partido do vencedor leva todos os votos dos delegados em 48 estados, a eleição norte-americana é sempre numa terça-feira, dia útil e não abonado aos trabalhadores pelas empresas.

Isso tende a reduzir a disposição dos mais pobres, negros e hispânicos, geralmente simpatizantes dos democratas, a enfrentar as imensas filas geradas por cédulas de votação complexas e obscuras, sobretudo em estados governados pelos republicanos.

Apesar de essa questão estar sendo relativamente contornada neste ano da Covid-19 por conta da votação antecipada pelo correio, seria prudente aos progressistas manterem tanto a energia na reta final quanto as barbas de molho.

Como Kerry em 2004 e Hillary Clinton em 2016 mostraram, “American election still too close to call”.​

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