Descrição de chapéu Armênia

Armênios desenterram parentes antes de devolver área ao Azerbaijão; veja vídeo

Colonos que chegaram após a guerra dos anos 90 agora são expulsos em acordo de paz

São Paulo

Até os mortos estão deixando as regiões do Azerbaijão desocupadas por forças armênias após a capitulação de Ierevan na guerra de seis semanas com o vizinho, mediada na semana passada pela Rússia.

Homens de gorro observam cova aberta. Família Gabrelyan desenterra o tio em território a ser desocupado para levar o corpo para a Armênia
Família Gabrelyan desenterra o tio em território a ser desocupado para levar o corpo para a Armênia - Reprodução/AFPTV

Imagens de famílias desenterrando caixões de parentes para integrar a caravana de refugiados rumo à Armênia e à região separatista de Nagorno-Karabakh se espalharam pelas redes sociais do Cáucaso e da diáspora do país.

As cenas foram registradas no distrito de Kalbajar, que fica entre Nagorno-Karabakh e a Armênia. No conflito com os azeris entre 1992 e 1994, ele acabou ocupado por forças de Ierevan, assim como outros seis distritos em torno da área armênia ao centro.

O objetivo de Ierevan era facilitar a defesa de seu território histórico e ter fichas para negociar a paz com os azeris.

Ao longo dos anos, isso não ocorreu, e agora o apoio da Turquia a Baku levou a uma ofensiva militar que deixou os armênios numa posição precária.

Além de devolver o território ocupado, vão perder cerca de 30% de Nagorno-Karabakh —incluindo a cidade-símbolo da resistência na região, Shushi, que voltará ser chamada pelo nome azeri de Shusha.

Em Kalbajar, casas também foram incendiadas a partir do domingo, quando começou a desocupação na área, prevista para acabar no dia 25 —a saída de todas as tropas armênias ocorrerá até dezembro.

"Nosso avô decidiu que deveríamos enterrar ele [um tio morto há dois anos] na Armênia", contou o ferreiro Avetik Gabrelyan à agência France Presse. "Nos tiraram tudo. Teremos de recomeçar a vida", disse a canais de TV locais Sami Mamikonyan, outra das 600 moradoras da cidade.

Ela chegou lá nos anos 1990, na onda de imigração estimulada por Ierevan após a vitória no conflito do começo da década, atraída pelas áreas mais férteis para agricultura do que na montanhosa Armênia.

Naquele momento, os personagens de histórias trágicas eram outros. Kalbajar traduz as dificuldades de conflitos sobre terra nos quais ambos os lados alegam direitos históricos sobre a região.

Cerca de 50 mil azeris moravam na região, e praticamente todos foram embora, unindo-se a um contingente hoje de 620 mil pessoas que foram expulsas de seus lares e moram em campos de refugiados e casas de parentes em Baku e outras cidades.

A resolução do conflito agora por mais uma guerra apenas tende a manter a dinâmica de recriminações. Os armênios, por exemplo, consideram Kalbajar um território histórico seu devido à alta incidência de monumentos religiosos, 750 incluindo o magnífico monastério de Davivank, do século 9º.

Só que ao longo do domínio do Império Russo e da União Soviética depois, a demografia foi alterada em favor dos azeris —que lá são chamados pejorativamente de "turcos", já que são um povo com laços étnicos e linguísticos com Ancara.

O conflito em Nagorno-Karabakh é um dos cadáveres insepultos deixados para trás após o fim do império comunista, em 1991, quando foram destampadas pressões nacionalistas em áreas antes subjugadas por Moscou.

Assim, como sempre ocorre neste tipo de guerra, a discussão sobre quem tem a razão se dilui nas brumas do tempo. Nos anos 1990 morreram de 17 mil a 30 mil pessoas na guerra, agora os números incertos falam em talvez 5.000 —só a Armênia divulgou suas mortes militares, 2.317.

Os monumentos são uma preocupação à parte. O bombardeio que precedeu a tomada de Shushi, segunda maior cidade de Nagorno-Karabakh, é um exemplo: ele atingiu diretamente a Catedral do Divino Salvador, ícone da reconquista armênia em Shushi que havia sido transformada em um depósito de armas pelos azeris durante a guerra dos anos 1990.

Há o componente religioso. Os azeris são majoritariamente muçulmanos, ainda que seculares, e os armênios, cristãos. Casos de profanações no conflito dos anos 1990 proliferaram: no encrave azeri de Nakhchevan, no leste da Armênia, as forças do país destruíram um cemitério histórico cristão em Julfa.

O presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, afirmou na segunda (16) que as igrejas em todos os territórios reconquistados serão preservadas e que cristãos de seu país terão acesso livre a elas —nem uma palavra sobre os armênios. Só 3% dos 10 milhões de azeris aderem ao cristianismo.

Em resumo, as sementes para uma nova rodada de ressentimentos estão colocadas. Tal sensação tem pressionado duramente o premiê Nikol Pashinyan, que admite ter escolhido um mal menor com o acordo de paz. Boatos acerca de sua renúncia circulam em Ierevan.

Refugiados de Nagorno-Karabakh esperam por ônibus para Stepanakert, capital regional, em Ierevan
Refugiados de Nagorno-Karabakh esperam por ônibus para Stepanakert, capital regional, em Ierevan - Karen Misanyan/AFP

Enquanto velhos caminhões soviéticos são carregados com móveis e até caixões, na estrada para a Armênia a mão inversa está tomada de veículos blindados e jipes da força de paz russa, responsável pela manutenção do acordo de paz.

Rival histórica da Turquia sobre o domínio da região, a Rússia ficou com a responsabilidade de mediar a crise e manteve uma posição de força —já era a protetora militar da Armênia, mas a tentativa de atrair Baku e as relações frágeis de Vladimir Putin com Pashinyan, eleito em 2018 após derrubar um governo pró-Moscou, pesaram.

Mas os turcos, com a vitória militar, surgem como atores importantes também e insistem em participar da força de paz que terá 1.960 soldados, além dos cerca de 3.000 russos já baseados na Armênia. Eles ficarão em 16 postos espalhados pela região.

Ierevan não aceita isso e, nesta terça (17), a França, que integra o grupo de países que negociava a paz após a guerra de 1992 com os russos e os americanos, questionou o Kremlin acerca do real papel que Ancara terá.

O presidente azeri, Ilham Aliyev, celebra reconquista dos distritos de Fuzuli e Jabrayil
O presidente azeri, Ilham Aliyev, celebra reconquista dos distritos de Fuzuli e Jabrayil - Presidência do Azerbaijão - 16.nov.2020/via AFP
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