Descrição de chapéu Folha por Folha

América Latina, capital: Chacarita

Vírus reforçou laços de jornalistas da região, e ainda conheci melhor meu bairro

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AMÉRICA LATINA

Buenos Aires

Como se pode ser correspondente internacional, responsável por uma área que engloba mais de 20 países, quando sua cidade está em quarentena estrita? Ainda que a Argentina, onde moro, considere o jornalista como "trabalhador essencial", mesmo assim minha mobilidade ficou restrita a esse território.

As redes viraram meu aeroporto improvisado. Por meio delas, entrevistei epidemiologistas no México, escritores em Cuba, políticos no Chile, moradores de uma ilha isolada pela pandemia na Venezuela, além de acompanhar, por "streaming", sessões do parlamento do Peru e cúpulas de presidentes da região.

É a mesma coisa? Claro que não. Nada substitui o olhar local. Mas, o que ajudou nesse período excepcional foram os amigos e colegas que vamos colecionando pela região nas coberturas. Gerou-se, entre jornalistas que cobrem o mesmo espaço pela região, uma conexão ainda mais intensa do que antes. Com os companheiros de ofício, houve trocas de contatos para chegar a autoridades, a médicos, a personagens específicos. Foram tempos de intensa camaradagem jornalística.

No front interno, jogou a capacidade de lidar com o medo do novo. Era preciso ir, usando máscaras, luvas, álcool gel e muita sorte, às favelas e bairros humildes de Buenos Aires, onde a peste se alastrou rapidamente. E sentir o impacto do vírus na pobreza e na informalidade, males que há séculos afetam essa região com tantas injustiças sociais.

A lenta e incerta flexibilização de várias dessas medidas, ao longo dos meses, retomou algo da vida de antes. Já passou a ser possível viajar, mas não de modo tão natural como antes. A excitação de uma cobertura num lugar diferente veio cheia de paranóias. Numa fila de imigração na Bolívia, me vi repetindo, nervosa, a várias pessoas que se aglomeravam: "senhores, mantenham distância". Cheguei até a dar conselhos a um presidente eleito: "mas, senhor Luis Arce, o senhor está no grupo de risco, não devia estar cercado de tantos apoiadores sem máscara".

As datas das viagens dependiam de mudanças de medidas de última hora, de greves, de fechamentos repentinos de aeroportos. Passamos a sair sem data certa para retornar. Ou tendo de usar meios alternativos, como o trajeto que fiz de La Paz a Arica, no norte do Chile.

Com uma colega espanhola, chegamos praticamente caminhando a um posto de fronteira a mais de 5 mil metros de altitude, e nos vimos implorando ao oficial aduaneiro chileno: "por favor, deixe-nos entrar, temos de cobrir o plebiscito". Falávamos enquanto mal conseguíamos respirar por causa da altitude.

Nestes meses, também conheci o bairro da Chacarita, em Buenos Aires, muito melhor do que nos últimos anos. As caminhadas me fizeram conhecer meus vizinhos. Descobri praças, parques e cafés que estavam a metros de mim e aos que nunca tinha ido. Durante o dia, era ir ao mercado local, conversar um pouco com o verdureiro, dar várias voltas no legendário cemitério da Chacarita, para me exercitar, e depois retornar. Abrir o computador e "viajar" a Bogotá, Caracas, Assunção ou Havana.

Já chegarão os momentos de reencontros com os colegas de outros países e as coberturas in loco.

Mas, por ora, a capital da América Latina, para mim, é o bairro de Chacarita, e o companheiro de meu escritório, meu gato Astor, que passa as tardes recostado na parte de trás da tela do meu computador.

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