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Cumpro quarentena por conta própria após viagem de Bolsonaro aos EUA, diz repórter

Só comecei a sentir medo do coronavírus há nove dias, e há cinco não saio do apartamento

Washington

Confesso que só comecei a sentir medo do coronavírus há nove dias. E, desde quinta-feira (12), decidi não sair de casa.

Na primeira semana de março, os casos confirmados nos EUA somavam pouco mais de 500 e nenhum deles havia sido registrado em Washington, cidade onde moro.

O clima nas ruas em que circulo parecia normal, com exceção à dificuldade de encontrar álcool em gel nas farmácias e lojas de conveniência.

No sábado (7), porém, recebi o alerta: a CPAC (Conferência de Ação Política Conservadora) avisava que um de seus participantes tinha recebido o diagnóstico de coronavírus.

Uma semana antes, estive no hotel que sediou o evento perto de Washington. Fui acompanhar os discursos de Donald Trump e de Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho de Jair Bolsonaro.

Jair Bolsonaro, Donald Trump e convidados durante jantar em Mar-a-Lago - Jim Watson -7.mar.20/AFP

O ambiente não poderia ser mais propício para a transmissão do vírus. Salão enorme, sem janela, cheio de pessoas que viajaram de diversos países para o encontro da direita conservadora americana.
Fiquei preocupada, mas não apresentava sintomas.

Troquei Washington por Miami e emendei outra cobertura sem saber que essa também seria palco para mais contato —e debate— sobre a pandemia.

Estava escalada para acompanhar a quarta viagem de Bolsonaro aos EUA, de sábado a terça (10), e o primeiro compromisso era um jantar com Trump em Mar-a-Lago, o resort do presidente americano na Flórida.

Mas o Planalto excluiu a Folha do grupo de jornalistas que faria a cobertura do encontro, e fui a única repórter brasileira a ficar de fora.

O secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten, é o chefe da equipe que fez a lista sem a Folha e estava no jantar entre os dois chefes de Estado.

Não se sentou à mesa dos presidentes, mas tirou fotos ao lado de Trump. De volta ao Brasil, Wajngarten recebeu o diagnóstico de coronavírus e causou alarde entre autoridades brasileiras e americanas.

A notícia, divulgada na quinta, também preocupou jornalistas que fizeram a cobertura da viagem de Bolsonaro, e então decidi por minha conta que seria melhor cumprir a quarentena.

Impedida de ir a Mar-a-Lago, não tive contato com Wajngarten na noite do jantar, mas isso não impediu que eu cruzasse com ele nos demais dias de viagem.

Além disso, conversei e cumprimentei outros ministros e integrantes da comitiva. Um deles era o indicado à embaixada do Brasil nos EUA, Nestor Forster, que recebeu o diagnóstico positivo para o vírus na sexta (13).

Ao contrário de Wajngarten, o diplomata se sentou em frente a Trump e Bolsonaro durante o jantar e teve contato mais próximo com o presidente americano.

Os dois líderes estavam minimizando a pandemia até então. Trump fez pouco caso quando soaram os primeiros alarmes do vírus.

Bolsonaro chegou a dizer que a imprensa superdimensionava o cenário. Um dos principais replicadores da narrativa de Bolsonaro, Wajngarten ainda tentou rebater no Twitter quando a Folha divulgou que ele faria o teste para o coronavírus.

Após a confirmação de que o secretário estava infectado, a Presidência emitiu nota afirmando que adotara medidas para preservar a saúde de Bolsonaro e da comitiva, assim como a dos servidores do Planalto.

Os jornalistas que acompanharam a viagem de Bolsonaro à Flórida —e tiveram contato direto com Wajngarten— não foram contatados ou orientados sobre o que deveria ser feito.

A cobertura desse tipo de viagem é sempre exaustiva, mas, além do cansaço, não tinha nenhum outro sintoma para que as regras dos EUA me permitissem fazer um teste por decisão própria quando voltei a Washington.

Na maioria dos casos, o departamento de saúde americano tem liberado testar quem apresenta sintomas e tenha passado por longa exposição a um paciente com o vírus diagnosticado.

Por enquanto, preencho só o segundo requisito, e os relatos são de que está muito difícil fazer o exame no país.

Não estou no grupo de risco, não apresento sintomas, mas o período de incubação pode ser de até 14 dias.

Washington mudou em uma semana. Prateleiras de mercados estão vazias, fazer compras online tem sido cada vez mais difícil, com escassez de produtos e datas de entrega, e a prefeita Muriel Bowser decretou estado de emergência na cidade.

Hoje é o quinto dia em que não saio do meu apartamento. Os casos registrados em Washington pularam para 16.

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