Década viu as redes sociais passarem de esperança a assombração

Com domínio da internet móvel e dispositivos inteligentes, vieram alertas sobre privacidade e uso de dados pessoais

São Paulo

O mundo hiperconectado permitiu à tecnologia ser o que foi na última década. A internet, que ao mesmo tempo liberta e pode escravizar, viabilizou a inclusão digital, mas também criou a cena de zumbis de cabeça baixa grudada nas telinhas do celular e o dedo frenético passando sobre elas.

Foi em 2019, 50 anos depois da criação da internet, que o status “online” chegou de fato a mais da metade da população mundial, segundo dados da ONU. E foi também nesta década que ela deixou de estar casada com um computador e passou a acompanhar os smartphones e as “coisas”: TVs, caixas de som, lâmpadas, relógios. No Brasil, 70% dos domicílios têm algum acesso à internet no país graças às conexões móveis.

A mudança potencializa o crescimento de uma miríade de serviços online, como as redes sociais. Algumas ficaram pelo caminho, como o Orkut em 2014. Outras nasceram e se tornaram tão onipresentes que têm assustado (Facebook, dono do Instagram e WhatsApp, na liderança).

O CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, presta depoimento ao Comitê de Serviços Financeiros da Câmara dos EUA, em Washington
O CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, presta depoimento ao Comitê de Serviços Financeiros da Câmara dos EUA, em Washington - 23.out.2019/Erin Scott/Reuters

A história começa com otimismo, depois da Primavera Árabe, quando as redes foram a principal ferramenta de mobilização em uma onda de protestos no Oriente Médio entre dezembro de 2010 e 2012. Mas em capítulos mais recentes despertam preocupação.

“Será que essas empresas se tornaram poderosas demais?” é a pergunta ainda sem resposta. Investigações antitruste do governo americano, iniciadas em 2019, tentam achar uma conclusão. Mas o entendimento é de que sim, elas passaram do limite.

Se é para falar de falhas, aliás, os últimos anos trouxeram muitas. O Google Glass foi um trambolho esquisito e caríssimo que não vingou. Com o lançamento do iPad, em 2010, os tablets pareciam que iriam decolar, mas ficaram limitados a um público específico.

E a falha das redes sociais? Hoje, estão principalmente no que toca privacidade e democracia. Para chegar a elas, é necessário entender o que provavelmente foi a maior mudança da era: a computação em nuvem.

Além de um lugar para armazenar arquivos e fotos do celular, a nuvem permite que empresas guardem e processem dados em grandes amontoados de computadores espalhados pelo mundo. Quem não tinha verba para servidores passou a ter uma mina de ouro a preços pagáveis.

Assim, a capacidade sempre crescente de trabalhar com informação leva a outro termo clichê ouvido/lido/visto/apregoado por todos os lados: os dados (“big data”), considerados o novo petróleo. Não à toa Jeff Bezos, dono da Amazon, tornou-se a pessoa mais rica do mundo.

Com internet, celulares, dispositivos inteligentes e redes sociais em tudo quanto é canto, a produção de dados pessoais disparou.

As empresas têm nossos contatos, dados de nascimento, localização em tempo real (pode escolher, do Waze/GPS à febre de caçar Pokémon), desejos de compra (a década do e-commerce), conversas privadas (oi, WhatsApp) e fotos, muitas fotos (quantas selfies há no seu smartphone?).

E aí, com mais poder de processamento, torna-se possível analisar e tirar conclusões em tempo real. Esse cenário faz com que esta seja entendida como a era da vigilância.

Em 2013, o de já estava sob os holofotes após Edward Snowden denunciar a inteligência americana. Em 2016, o estopim foi o escândalo da Cambridge Analytica, que usou dados do Facebook para exibir campanhas publicitárias a favor de Trump nas eleições americanas. Isso levou a um debate de regulação do uso de dados que ainda tem muito a evoluir.

Ainda no contexto da privacidade, o ambiente online viu crescer o espaço de guerra. Em 2013, a Coreia do Norte lançou ataques a instituições financeiras da vizinha ao sul como forma de coerção. Em 2019, os EUA derrubaram sistemas de mísseis do Irã em resposta a um drone abatido.

Principalmente na segunda metade da década, ataques tornaram-se mais frequentes. E os criminosos, normalmente, fazem suas cobranças em criptomoedas, como Bitcoins.

O cenário conturbado leva também a uma espécie de guerra fria entre EUA e China. Enquanto empresas chinesas ganham força no cenário mundial, caso de Huawei (telefonia), Alibaba (serviços na internet) e ByteDance (da rede social TikTok), os dois países levantam muros para tentar bloquear as tecnologias do adversário.

Uma das principais armas virtuais, no entanto, parte de algo muito mais antigo do que ataques hackers ou sanções comerciais: a mentira.

A desinformação, que se tornou central no debate público, alastrou-se principalmente depois de 2016, com o crescimento das redes sociais. Naquele ano, notícias falsas (fake news) foram usadas para influenciar a eleição americana da qual Trump saiu vencedor.

As fake news encontram um ambiente particularmente prolífico no WhatsApp —seria ele o marco dos marcos da década? Por ali, todo tipo de conteúdo trafega (dos nudes aos vídeos de gatinhos), mas especialmente as fake news e boatos se espalham.

Elas encontram terreno mais fértil numa sociedade polarizada e são catalisadas por outro elemento-chave da década: os algoritmos.

Nada da gigante Alphabet (dona do Google) funciona sem isso. Esses códigos, que estão em tudo, ditam o que as pessoas veem ou não.

Todo um cenário permite que teorias da conspiração (e seres humanos) se popularizem rapidamente. Nas redes sociais (elas de novo), pessoas comuns tornaram-se celebridades instantâneas e viraram influenciadores digitais. Muitas vezes na forma de memes, uma nova forma de se comunicar.

Com a exposição cada vez maior ao mundo online e tanta nova celebridade para invejar, outra face perversa das redes surgiu, principalmente entre adolescentes e jovens: a potencialização dos problemas e doenças psicológicas, como ansiedade e depressão.

Dupla assiste pelo smartphone ao discurso do democrata Joe Biden, presidente eleito dos EUA, na Praça Black Lives Matter, próxima da Casa Branca, em Washington, enquanto os votos das eleições americanas são contados
Dupla assiste pelo smartphone ao discurso do democrata Joe Biden, presidente eleito dos EUA, na Praça Black Lives Matter, próxima da Casa Branca, em Washington, enquanto os votos das eleições americanas são contados - Hannah McKay/Reuters

O vício nas redes, porém, tem um concorrente à altura: jogos online e games. Trata-se de uma indústria mais rentável que a do cinema (incluindo Netflix) e música juntas. Em jogos esportivos, por exemplo, os e-atletas faturam milhões.

Destaque ainda para o “GTA 5” (o mundo aguarda o 6 para 2021). Em 2013, nas primeiras 24h no ar, bateu recorde ao arrecadar US$ 800 milhões. Trata-se do maior valor da história para um lançamento de qualquer game, álbum de música, filme ou outro produto de entretenimento mundial.

Todas as mudanças passadas continuarão a ocorrer em escala difícil de prever, uma vez que futuro promete mais internet nas coisas e mais capacidade de processamento— com o 5G e a computação quântica.

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