No mesmo dia, EUA reafirmam valores democráticos e trazem esperança de fim da pandemia

Colégio Eleitoral votou sem surpresas, e país realizou aplicação da 1ª vacina contra Covid-19

Peter Baker
Washington | The New York Times

Quando futuros historiadores terminarem de escrever os livros sobre o sofrimento todo de 2020, um ano extenuante marcado por doença, mortes, conflitos raciais, violência de rua, colapso econômico e discórdia política como não era vista nos Estados Unidos havia gerações, talvez se recordem da segunda-feira, 14 de dezembro, como um momento decisivo.

Foi nesse dia que os americanos começaram a enrolar as mangas para cima para receberem uma vacina produzida em tempo recorde para derrotar um vírus que até aquele momento já havia deixado mais de 300 mil mortos. E foi nesse dia que membros do Colégio Eleitoral se reuniram em cada um dos 50 estados americanos para ratificar o final da eleição mais polarizada em mais de um século.

O governador de Nova York, Andrew Cuomo, discursa aos membros do Colégio Eleitoral do estado, em Albany
O governador de Nova York, Andrew Cuomo, discursa aos membros do Colégio Eleitoral do estado, em Albany - Hans Pennink/Pool via Reuters

Nada disso cancela os danos imensos dos últimos 12 meses, tampouco significa que não haverá mais sofrimento e mais protestos ainda por vir. Muitos americanos ainda vão adoecer e morrer nos meses que se passarão até a vacina estar universalmente disponível.

Muitos americanos continuarão indignados com o resultado de uma eleição que gostariam que tivesse ido em sentido contrário. Ainda é um tempo de dificuldades árduas e divisões.

Mas, depois de tantas incertezas e tantas dúvidas, o caminho a seguir parece estar mais claro, pelo menos em relação a dois quesitos importantíssimos.

“É uma convergência cósmica”, comentou Benjamin L. Ginsberg, destacado advogado eleitoral republicano que tem feito críticas aos esforços do presidente Donald Trump para inverter o resultado da eleição que perdeu. “E o bom de as duas coisas terem ocorrido no mesmo dia é que elas podem realmente assinalar uma virada para um país que deseja profundamente uma virada.”

O dia se desenrolou de maneira extraordinária. Os telespectadores acompanharam imagens de profissionais de saúde recebendo injeções que vão salvar suas vidas, justapostas com imagens ao vivo de capitais estaduais de todo o país mostrando os eleitores do Colégio Eleitoral confirmando formalmente a vitória do presidente eleito Joe Biden e da vice-presidente eleita Kamala Harris.

Foi o caráter definitivo das duas coisas que chamou a atenção, após meses de turbulência política, médica e econômica: finalmente os americanos podem esperar com confiança pelo dia em que serão imunizados contra o vírus da Covid-19, mesmo que isso leve alguns meses.

E, agora, a despeito de toda balbúrdia pós-eleitoral vinda da Casa Branca e seus aliados, eles sabem quem será o próximo presidente do país.

“Não consigo honestamente me recordar de dois fatos independentes de importância tão extrema ocorrendo no mesmo dia”, comentou David Oshinsky, professor de medicina do instituto Langone Health, da Universidade de Nova York, e historiador que escreveu um relato —que lhe deu um Prêmio Pulitzer— do desenvolvimento da vacina contra a poliomielite, que eliminou um flagelo do século 20.

Para ele, foi como se fossem combinados a eleição seminal de 1800 entre John Adams e Thomas Jefferson, que criou o precedente das eleições presidenciais, e o dia em que o presidente Dwight D. Eisenhower agradeceu ao Dr. Jonas Salk por desenvolver a vacina contra a pólio.

“Em nosso país amargamente dividido, o dia 14 de dezembro de 2020 deve nos recordar quem somos e o que somos capazes de realizar”, disse Oshinsky.

Para Trump, o decano da negação, que se negou a aceitar os resultados da eleição e também a gravidade da pandemia de coronavírus, a clareza do dia 14 de dezembro não foi inteiramente bem-vinda.

Ele tinha motivos para festejar a chegada da vacina, que converteu em prioridade número um e que certamente ficará na história como uma parte importante de seu legado, apesar de ele também ter minimizado o perigo do vírus e solapado esforços de saúde pública para conter a pandemia com o uso de máscaras e distanciamento social.

“Primeira vacina aplicada”, escreveu ele no Twitter. “Parabéns, EUA! Parabéns, MUNDO!”

Mas ele não se mostrou igualmente disposto a parabenizar Biden ou a aceitar o veredito do Colégio Eleitoral, embora a Constituição outorgue a ele o poder de determinar o próximo presidente por voto majoritário. Trump ficou longe das vistas públicas o dia inteiro, não admitiu sua derrota e continuou a lançar declarações falsas sobre fraude eleitoral supostamente tão ampla que justificaria passar por cima da vontade da população.

De fato, em um gesto interpretado como um esforço para desviar a atenção do público de sua derrota no Colégio Eleitoral, minutos depois de os membros do Colégio Eleitoral da Califórnia, reunidos em Sacramento, terem dado seus votos a Biden, concretizando sua vitória, Trump anunciou abruptamente a saída do secretário de Justiça, William Barr, que suscitou a ira do presidente por refutar suas alegações fantasiosas sobre corrupção eleitoral ampla.

Com esse processo concluído, a recusa de Trump em reconhecer sua derrota passou a ser tão fútil quanto alguém se enfurecer com as condições do tempo.

Pode haver mais ações judiciais sem base que venham a se somar às dezenas que já foram rejeitadas por cortes diversas, chegando à Suprema Corte, e alguns dos aliados de Trump podem fazer objeção quando os votos do Colégio Eleitoral forem contados oficialmente pelo Congresso, em 6 de janeiro, mas nada disso vai mudar o resultado.

Nem todos estão prontos para deixar para trás a turbulência de 2020, ano que foi marcado pela pandemia mais mortífera em um século, pela queda econômica mais cataclísmica desde a Grande Depressão, os piores conflitos raciais desde a era dos direitos civis e o período pós-eleitoral mais divisivo e conflituoso desde pouco após a Guerra Civil americana.

Alguns não têm certeza realmente se tudo isso já foi superado.

“É um bom dia”, comentou Jill Lepore, acadêmica destacada da Universidade Harvard e autora de livros abrangentes sobre a história dos Estados Unidos.

“Mas nos últimos anos a sensação que tivemos em muitos momentos era que o país estava caindo em um poço vazio. Você fica pensando ‘OK, agora já chegamos ao fundo do poço, podemos começar a tentar escalar os lados e subir outra vez’. Mas então percebemos que só havíamos caído sobre uma saliência e voltamos a cair outra vez. Hoje, finalmente, pode ser que alguém tenha nos jogado uma corda. Duas cordas! Mas não é fácil sentir confiança nelas.”

É apenas nesse contexto que atos normalmente tão prosaicos quanto uma enfermeira aplicando uma injeção em alguém e eleitores votando ganham significado tão grande.

Com a América tendo fracassado tão miseravelmente em controlar o vírus, que está em níveis recorde ou quase de novos casos, hospitalizações e mortes, a simples promessa de uma vacina levou equipes de jornalistas de emissoras de TV a seguir os caminhões que começaram a abrir caminho pelo país, entregando as doses milagrosas.

Enquanto Trump permanecia fechado dentro da Casa Branca, Biden emergiu para tentar impelir o país adiante. “É hora de virarmos a página, como fizemos ao longo de toda nossa história”, disse ele. “De nos unirmos. De nos curarmos.”

Por um dia, pelo menos.

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