Documentário retrata príncipe como protagonista no assassinato de Khashoggi

Filme esmiuça crime cometido contra jornalista dentro de consulado em Istambul

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

Todo mundo deveria assistir ao documentário “The Dissident” (O dissidente), que esmiuça o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi dentro do consulado da Arábia Saudita em Istambul, em 2018, e a ofensiva da monarquia do Golfo para calar opositores.

O documentário é imperdível não apenas por ser excelente, mas porque o governo absolutista da Arábia Saudita fez de tudo para que ninguém conseguisse vê-lo. O longa foi exibido pela primeira vez no festival de Sundance, em janeiro de 2020. Foi aclamado e satisfez as altas expectativas que tinha gerado —o diretor, Bryan Fogel, tem um Oscar de melhor documentário no currículo, por “Ícaro”, sobre doping na Rússia.

Mesmo assim, foi só em setembro daquele ano que o filme encontrou uma distribuidora —a independente Briarcliff Entertainment. Muitas das grandes plataformas, porém, temiam comprar uma briga com o país dono da segunda maior reserva de petróleo do mundo. O longa acabou estreando em circuito comercial restrito só em 25 de dezembro, mas agora finalmente está disponível nas plataformas iTunes e Amazon americanas.

Em foto de 2014, o jornalista saudita Jamal Khashoggi, assassinado em 2018, participa de coletiva de imprensa.
Em foto de 2014, o jornalista saudita Jamal Khashoggi, assassinado em 2018, participa de entrevista coletiva - Mohammed Al-Shaikh/AFP

O pânico da monarquia saudita é justificado. Mo hammed bin Salman (MbS), o príncipe herdeiro e governante de facto do país, sai do filme comprometido até a medula no assassinato de Khashoggi.

O documentário de 1 hora e 59 minutos reconstitui o crime nos detalhes. Com ajuda do governo turco, a equipe obteve imagens de câmeras de segurança que captaram o momento em que Khashoggi chega ao consulado com sua noiva, a turca Hatice Cengiz. Ele tinha ido buscar documentos para se casar com ela. As cenas mostram Hatice esperando por Khashoggi, na frente do prédio. Ele nunca mais saiu de lá.

O mais apavorante são as conversas que antecederam o assassinato e os apelos desesperados de Khashoggi. O diretor obteve 34 páginas de transcrições de tudo o que foi falado na sala em que Khashoggi foi sufocado e, depois, desmembrado com uma serra. Nas transcrições, os funcionários do governo saudita discutem como esquartejar o corpo para facilitar o transporte (um deles era especialista em autópsias). O filme mostra que alguns entraram na Turquia com passaporte diplomático e muitos eram ligados a Saud al-Qahtani, o braço direito de MbS.

Seguindo autoridades turcas, o filme mostra um forno na residência oficial do cônsul saudita, onde o corpo de Khashoggi teria sido incinerado. No dia do assassinato, segundo o documentário, o cônsul havia encomendado 32 quilos de carne, para que o cheiro do churrasco disfarçasse o odor do cadáver queimado.

Mas o documentário mostra também a transformação de Khashoggi. Depois de décadas como o grande insider, o jornalista com maior acesso à monarquia saudita, ele começou a sentir o cerco de MbS. O príncipe regente não gostava do tom assertivo de alguns dos textos de Khashoggi e, depois de o jornalista criticar o então presidente Donald Trump, ele o proibiu de escrever. Diante da censura, Khashoggi resolveu emigrar para os Estados Unidos e fazer jornalismo independente. Tornou-se colunista do Washington Post e crítico contumaz do governo.

Khashoggi aprovava a iniciativa de abertura econômica empreendida por MbS. Mas, ao mesmo tempo, o filho do rei Salman foi concentrando poder e perseguindo inimigos. MbS prendeu centenas de críticos ao regime. Com a desculpa de acabar com a corrupção, aprisionou alguns dos empresários mais ricos do reino (muitos deles eram seus rivais) dentro do Ritz Carlton por meses, e exigiu devolução de bilhões que, segundo ele, eram provenientes de negociatas.

O Ocidente também havia comprado a ideia do jovem líder saudita reformista. Colunistas como Thomas Friedman, do New York Times, se desmancharam em elogios a MbS. Em novembro de 2017, Friedman escreveu uma coluna intitulada “A primavera árabe da Arábia Saudita, finalmente”.

O governo saudita pressionou muito para que Khashoggi voltasse para a Arábia Saudita. Afinal, ele era uma bomba relógio, um jornalista de posse de vários segredos da monarquia. Mas ele não voltou e se tornou um dissidente.

O saudita foi punido pela dissidência. Sua mulher teve de se divorciar dele, e os filhos nunca mais falaram com o jornalista. Khashoggi passou a ser alvo dos “exércitos de moscas” sauditas —fábricas de trolls financiadas pelo governo que ficam moldando a opinião pública do povo saudita pelo Twitter. Mais de 40% da população saudita usa o Twitter, a maior porcentagem no mundo.

Os trolls embarcaram em uma operação de destruição da reputação do jornalista.

Enquanto estava nos EUA, Khashoggi começou a cooperar com um youtuber e blogueiro crítico ao regime, Omar Abdulaziz, que tem milhões de seguidores. O documentário usa como fio condutor Abdulaziz —que também sofreu retaliações do governo saudita, teve dois irmãos presos, um deles torturado, e vários amigos detidos.

O filme peca um pouco ao dar destaque excessivo ao ativista e youtuber Omar Abdulaziz e tentar fazer uma equivalência do trabalho dele e de Khashoggi.

O documentário tem ritmo de thriller e nem parece ter duas horas. Tramas paralelas ajudam a manter a atenção. Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo, tinha relacionamento próximo com MbS, mas rompeu com o príncipe após o crime. Bezos é também dono do Washington Post, onde Khashoggi trabalhava quando foi assassinado. Em retaliação, teve seu celular hackeado por meio de um arquivo enviado pelo próprio MbS por WhatsApp. Logo depois, fotos e conversas de Bezos com uma amante foram vazadas para um tabloide.

O filme revela não apenas a truculência do governo saudita e sua certeza de impunidade. Depois de negar saber o paradeiro de Khashoggi e se eximir de responsabilidade, o reino finalmente admitiu o assassinato —embora nunca tenha assumido que MbS foi o mandante do crime. Em um julgamento secreto, cinco pessoas foram condenadas e três presas pelo crime —até hoje, não foram revelados os nomes.

A repercussão negativa do caso levou ao fiasco da reunião apelidada de Davos no deserto, em 2018. O fórum era uma tentativa de MbS de alardear as reformas da Arábia saudita e atrair investidores. Diante do noticiário sobre o assassinato, muitos empresários e chefes de Estado boicotaram o evento. Mas, um ano depois, investidores e chefes de Estado relevaram o crime e compareceram em massa ao encontro —entre eles o premiê indiano, Narendra Modi, o genro de Trump, Jared Kushner, e o secretário do Tesouro, Steve Mnuchin.

Mesmo depois de a CIA ter brifado senadores americanos e a Presidência sobre o assassinato, com a conclusão de que foi o príncipe regente que deu as ordens para a execução.

O presidente Jair Bolsonaro também compareceu ao evento em Riad, capital do reino. Na ocasião, ele se reuniu com MbS e disse que se sentiu “quase irmão” do príncipe.

The Dissident

  • Onde iTunes e Amazon americanas
  • Elenco Omar Abdulaziz, Fahrettin Altun, John O. Brennan e outros
  • Produção EUA
  • Direção Bryan Fogel
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.