Descrição de chapéu Financial Times

Com abordagem pragmática, Chile tem campanha de vacinação mais bem-sucedida na América do Sul

País um é dos precursores na corrida global por vacinas em base per capita, atrás apenas de Israel, Reino Unido e EUA

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Financial Times

Atingido por tumultos sociais e um grave surto de coronavírus, o Chile espera começar a se recuperar ao avançar à frente de seus pares sul-americanos na corrida pelas vacinas contra a Covid-19.

Mais de 2,7 milhões de doses foram administradas até agora à população chilena, de 19 milhões —mais que em toda a África. Isso fez do país um dos precursores na corrida global por vacinas em base per capita, atrás apenas de alguns países mais ricos, como Israel, Reino Unido e Estados Unidos.

Embora o governo de centro-direita do presidente Sebastián Piñera tenha sofrido pressão após violentos protestos contra a desigualdade que irromperam em outubro de 2019, sua abordagem pragmática para conseguir vacinas deverá ajudar na recuperação econômica do Chile e na posição política do governo antes da eleição presidencial em novembro.

Uma profissional de saúde aplica a vacina chinesa Coronavac a um professor em um centro de vacinação em Santiago
Profissional de saúde aplica vacina chinesa Coronavac em centro de vacinação de Santiago - Martin Bernetti - 15.fev.2021/AFP

"Esse é um exemplo clássico do que acontece quando você tem boas relações com muitos países", disse Jorge Heine, professor chileno de relações internacionais na Universidade de Boston (EUA), apontando o grande número de acordos de livre comércio que o país tem com vários outros.

"Espero que outros países aprendam alguma coisa com isso e percebam que [é útil] você poder procurar e comprar a melhor possível pelo melhor preço, e não ter tapa-olhos ideológicos", acrescentou ele.

Depois de se gabar dos resultados iniciais positivos quando a crise começou, há um ano, o índice de mortalidade no Chile aumentou até atingir o pico de 170 mortes por semana em junho. Alguns acreditam que isso estimulou o governo tecnocrata —que cultivou uma reputação de administração macroeconômica competente— a voltar seu foco totalmente para a vacinação.

A maioria das vacinas aplicadas no Chile até agora foram adquiridas da Sinovac da China, o principal parceiro comercial do país. Cerca de 4 milhões de doses da Sinovac já chegaram, e outros 6 milhões deverão chegar até meados de março.

David Gallagher, o embaixador chileno em Londres, ajudou a garantir vacinas da AstraZeneca, Pfizer e Johnson & Johnson. Ele atribuiu em grande parte o sucesso do Chile a uma estratégia semelhante à do Reino Unido, mas concebida de forma independente em Santiago por Piñera no início de maio —protegendo-se de riscos ao garantir um "portfólio de vacinas" através de acordos bilaterais que foram "totalmente não marcados por nacionalismo ou ideologia, sem dar importância" a onde as vacinas foram fabricadas.

"Isso fez a diferença", disse o ex-banqueiro de investimentos e professor em Oxford. "Como o Chile assinou muitos acordos comerciais, ninguém tem medo de atender o telefone —se necessário ligando para o CEO de uma companhia farmacêutica— e simplesmente seguir com o negócio."

Assim como conseguir a vantagem inicial na negociação de acordos para vacinas, analistas também elogiaram a antevisão do Chile ao arranjar testes clínicos em troca de entrega antecipada e preços reduzidos das vacinas. Alguns produtores de imunizantes já tinham boas relações com universidades e hospitais chilenos antes do início da pandemia.

Ao todo, o Chile tem compromissos para muito mais vacinas do que precisa para inocular a população inteira. O país definiu como objetivo vacinar 5 milhões até abril e 15 milhões, ou 80% da população, até julho.

Mas Jorge Gallardo, especialista médico no Chile envolvido na aprovação da Sinovac, disse estar preocupado sobre a eficácia do imunizante chinês, em comparação com outros. "Alguma coisa é melhor que nada diante desta grave situação, mas há muita incerteza", advertiu ele.

Apesar dessas preocupações, ele salientou a eficiência do bem organizado sistema de vacinação do Chile, que goza de ampla aceitação entre a população desde seu início, nos anos 1970.

A vacina foi oferecida de graça, e trabalhadores na linha de frente e idosos tiveram prioridade. O governo central também ajudou a organizar o processo, ao contrário de alguns países onde isso foi deixado para autoridades locais ou regionais.

A Sinovac também se mostrou mais fácil de distribuir —especialmente para comunidades mais isoladas no território incomumente alongado e logisticamente complexo do Chile—, pois ela não precisa ser armazenada em temperaturas extremamente baixas como algumas outras vacinas.

A campanha de vacinação deverá ajudar a recuperar o crescimento econômico depois da contração do ano passado. A economia chilena deverá se expandir 5% em 2021, depois de encolher quase 6% em 2020, segundo Ana Madeira, economista do Bank of America. O maior exportador mundial de cobre também será ajudado pelos preços mais altos do metal vermelho em quase uma década.

Para alguns, a maior pergunta é o que a vacinação bem-sucedida poderá significar para a reconciliação social do país, onde as divisões ferveram depois dos protestos que irromperam em 2019.

"É uma ótima oportunidade para curar a alma do Chile", disse Rodolfo Carter, prefeito do populoso e diversificado distrito de La Florida, no sul de Santiago, que montou um centro de vacinação em um estádio de futebol rebatizado Espaço Esperança.

Descrevendo um país que está "profundamente ferido", Carter afirmou que o processo de vacinação é uma oportunidade única de unir um país onde, apesar de ser uma das economias de mais rápido crescimento na América Latina nas últimas décadas, a desigualdade continua alta e grande parte da população se queixa de uma elite desconectada.

"Quando você tem uma pessoa rica sentada a um metro de alguém de uma comunidade pobre esperando pela vacina, a saúde pública pode restaurar a dignidade das pessoas", disse Carter. "Devemos aproveitar esta oportunidade para reconquistar um país onde as pessoas não queimam mais igrejas ou estações de metrô. Mais do que espetar braços, isto tem a ver com tocar os corações."

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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