Milhares vão às ruas em Mianmar desafiando Forças Armadas, que procuram 7 ativistas

Militares acusam manifestantes de ameaçar a estabilidade nacional por comentários em redes sociais

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Rangoon (Mianmar) | Reuters e AFP

No oitavo dia seguido de protestos contra o golpe de Estado em Mianmar, dezenas de milhares de pessoas foram às ruas neste sábado (13) desafiar as Forças Armadas, que avisaram que estão à procura de sete ativistas acusados de ameaçar a estabilidade nacional por seus comentários nas redes sociais.

Entre os procurados está Min Ko Naing, que liderou os protestos reprimidos violentamente em 1988 e apoiou as atuais manifestações e a campanha de desobediência civil.

Manifestantes protestam em Shwebo contra o golpe de Estado que tomou o poder em Mianmar - AFP

Os militares tomaram o poder em 1º de fevereiro e prenderam a chefe do governo e principal líder civil do país, Aung San Suu Kyi, o presidente Win Myint e outras autoridades da Liga Nacional pela Democracia (LND), que havia vencido as eleições.

A crise no país asiático pôs fim à recente transição democrática após reacender a tensão entre o governo civil e as Forças Armadas —que comandaram o país entre 1962 e 2011– e gerou preocupação pela volta à antiga era de repressão.

Segundo informou a junta militar neste sábado, as pessoas devem avisar a polícia se virem um dos sete ativistas procurados e serão punidas se os protegerem.

Os casos estão sendo enquadrados em um artigo do código penal que era frequentemente usado pelas juntas anteriores e que impõe penas de até dois anos de prisão por comentários que possam causar alarme ou "ameaçar a tranquilidade".

Uma das procuradas respondeu aos militares em sua página no Facebook, onde tem mais de 1,6 milhão de seguidores. "Tenho tanto orgulho de ser procurada com Min Ko Naing. Peguem-me se forem capazes", escreveu.

De acordo com a Organização das Nações Unidas, mais de 350 pessoas já foram presas em Mianmar desde a tomada do poder pelos militares.

A jornalista Shwe Yee Win, que cobria a oposição ao golpe, foi levada por soldados na quinta (11), e sua família não teve notícias dela. "Ela não conseguiu nem colocar os sapatos antes de a levarem", disse a mãe dela, Thein Thein, que ficou cuidando do neto de 1 ano.

O governo de Mianmar não respondeu aos pedidos de comentários da agência Reuters.

Para tentar impedir a prisão de ativistas, manifestantes montaram comitês de vigilância cidadã, que desafiam o toque de recolher, válido a partir das 20h, e vão às ruas ao sinal de operações policiais em busca de dissidentes.

Em Rangoon, maior cidade do país, os moradores fizeram uma patrulha na madrugada deste domingo (14, tarde de sábado no Brasil), temendo ataques de autoridades e crimes comuns. Em diferentes bairros, grupos em sua maioria de jovens homens bateram panelas como um aviso de que estavam atrás do que acreditavam ser pessoas suspeitas.

"Os moradores de todas as ruas perto de mim também estão montando grupos para se defender desses encrenqueiros", afirmou à agência de notícias Reuters Myo Thein, que também planejava fazer patrulhas.

"Formamos uma patrulha com mais velhos e homens. O fim das ruas está bloqueado", disse Phoo Phoo, do distrito de Mayangone. "Nós garotas só estamos esperando em frente de nossas casas segurando varas."

Em Pathein (no sul do país), centenas de pessoas marcharam à noite em direção ao hospital público, algumas armadas com varas ou barras de ferro, para tentar defender o responsável médico do hospital, depois que souberam que havia sido preso pelo Exército.

O médico, que se unira ao movimento de desobediência civil lançado nas primeiras horas após o golpe, foi detido enquanto atendia um paciente.

Em Rangoon, médicos, estudantes e funcionários do setor privado marcharam por uma das principais avenidas da cidade, também desobedecendo a proibição de se reunir.

"Retornaremos ao trabalho somente quando o governo civil da 'Mãe Suu' Kyi for restabelecido. Pouco importam as ameaças", declarou à agência AFP o médico Wai Yan Phyo, 24, antes de a multidão se dispersar.

Desde o golpe, a opositora Suu Kyi não foi vista em público. De acordo com membros da LND, ela está em prisão domiciliar, mas se encontra "bem de saúde".

A ativista e vencedora do Nobel da Paz de 1991 continua extremamente popular, apesar dos danos à sua reputação internacional devido à situação da minoria rohingya.

Houve protestos também em outras cidades, com jovens que cantavam rap e dançavam "coreografias anti-golpe".

A maioria dos protestos foi pacífica, mas a tensão era palpável.

As forças de segurança dispersaram brutalmente uma manifestação no sul do país. Várias pessoas ficaram levemente feridas por balas de borracha e pelo menos outras cinco foram detidas.


Cronologia da história política de Mianmar

  • 1948: Ex-colônia britânica, Mianmar se torna um país independente
  • 1962: General Ne Win abole a Constituição de 1947 e instaura um regime militar
  • 1974: Começa a vigorar a primeira Constituição pós-independência
  • 1988: Repressão violenta a protestos contra o regime militar gera críticas internacionais
  • 1990: Liga Nacional pela Democracia (LND), de oposição ao regime, vence primeira eleição multipartidária em 30 anos e é impedida de assumir o poder
  • 1991: Aung San Suu Kyi, da LND, ganha o Nobel da Paz
  • 1997: EUA e UE impõe sanções contra Mianmar por violações de direitos humanos e desrespeito aos resultados das eleições
  • 2008: Assembleia aprova nova Constituição
  • 2011: Thein Sein, general reformado, é eleito presidente e o regime militar é dissolvido
  • 2015: LND conquista maioria nas duas Casas do Parlamento
  • 2016: Htin Kyaw é eleito o primeiro presidente civil desde o golpe de 1962 e Suu Kyi assume como Conselheira de Estado, cargo equivalente ao de primeiro-ministro
  • 2018: Kyaw renuncia e Win Myint assume a Presidência
  • 2020: Em eleições parlamentares, LND recebe 83% dos votos e derrota partido pró-militar
  • 2021: Militares alegam fraude no pleito, prendem lideranças da LND, e assumem o poder com novo golpe de Estado
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