Morre aos 90 anos Carlos Menem, presidente da Argentina de 1989 a 1999

Com apoio popular, peronista pavimentou caminho à maior crise econômica de história do país

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Buenos Aires

Morreu neste domingo (14), aos 90 anos, o presidente da Argentina Carlos Saúl Menem, líder que pavimentou o caminho para a maior crise econômica e social que a Argentina já conheceu. Ele estava internado havia meses por problemas respiratórios e cardíacos e faleceu em uma clínica de Buenos Aires, segundo a imprensa argentina.

O atual líder argentino, Alberto Fernández, decretou luto nacional de três dias. Como é tradição com todos os presidentes, o corpo de Menem será velado na sede do Congresso. O corpo chegou ao Congresso às 20h deste domingo, quando caía uma tempestade sobre Buenos Aires.

O cortejo, que saiu atrasado da clínica em que ex-mandatário faleceu, foi recebido do lado de fora do palácio legislativo por dezenas de apoiadores que levavam bandeiras da Argentina. Muitos gritavam: "Te amo presidente" e "Menem, nunca o esqueceremos".

O caixão foi recebido, de acordo com o protocolo, pela presidente do Senado e vice-presidente do país, Cristina Kirchner. Estavam presentes a ex-mulher de Menem, Zulema, sua filha, Zulemita, e alguns de seus netos. Instalado no salão dos Passos Perdidos, onde é o costume velar os presidentes da Argentina, o caixão foi coberto por uma bandeira do país.

Ele ficará exposto para a visitação pública até as 13h da segunda-feira (15).Em um primeiro momento, foi aventada a possibilidade de levar o féretro a La Rioja, onde o presidente nasceu e província da qual foi governador. Devido às restrições da pandemia, porém, acabou sendo decidido que, após o velório no Congresso, Menem seria enterrado em Buenos Aires, no cemitério islâmico.

O peronista, que permaneceu dez anos no poder, surfou em apoio popular no momento em que a maioria dos argentinos estava fascinada pela política de câmbio fixo —US$ 1 equivalia a 1 peso—, adotada para pôr fim à hiperinflação. Na prática, no entanto, a estratégia gerou um ilusório intervalo de estabilidade.

A crise já havia consumido o mandato de seu antecessor, Raúl Alfonsín, que acabou renunciando em julho de 1989, seis meses antes do previsto. Naquele ano, a inflação saltou de 460% em abril a 764% em maio.

O suposto milagre operado pelo câmbio fixo deu a Menem, já como presidente, força suficiente para negociar com Alfonsín, líder da União Cívica Radical, tradicional adversária do peronismo, uma mudança que lhe permitiu tentar a reeleição, até então vetada pela Constituição.

Carlos Menem durante julgamento de corrupção em tribunal de Buenos Aires em 2015
Carlos Menem durante julgamento de corrupção em tribunal de Buenos Aires em 2015 - 2.mar.15/AFP/CIJ

O segundo mandato oferecia as condições para romper as amarras do câmbio fixo que, se por um lado, controlava a inflação —o governo não podia emitir um único peso a mais do que gerava com suas receitas—, por outro destruía o tecido econômico, especialmente o industrial. Era mais barato importar casacos de pele da Alemanha do que produzi-los localmente, embora o setor tivesse tradição no país.

A população, porém, desconfiada de sua própria moeda, não queria nem ouvir falar em liberar o câmbio.

Quando Menem deixou a Casa Rosada, em 1999, a recessão já havia se instalado e ganharia força nos anos seguintes. O caminho iniciado pelo peronista terminaria em uma fogueira política e social que obrigaria o sucessor Fernando de la Rúa a fugir de helicóptero, abandonando o poder.

A impopularidade de medidas econômicas como a do “corralito” —sequestro de poupanças e contas de milhões de argentinos— e da maxidesvalorização do peso levaram a grandes protestos de rua, nos quais
confrontos entre forças de segurança e manifestantes causaram a morte de 39 pessoas.

Advogado de família libanesa, nascido em Anillaco, na província de La Rioja, em 10 de julho de 1930, Menem marcou a política argentina ao rasgar a cartilha do heterogêneo movimento peronista, nacionalista e estatizante, para adotar políticas ultraliberais. Elegeu-se prometendo um “salariazo”, ou seja, salários gigantes, e governou entregando privatizações em massa.

Seu período na Presidência foi marcado por denúncias de corrupção —uma delas, o escândalo de exportação de armas ao Equador e à Croácia, entre 1991 e 1996, que teria gerado transferências de cerca de US$ 10 milhões (R$ 53,7 milhões, na cotação atual) para contas na Suíça, acabou levando-o brevemente à prisão domiciliar, em 2001.

Em 2013, devido ao episódio, foi condenado a sete anos de prisão. O mesmo aconteceu dois anos mais tarde, quando voltou a ser condenado em outro caso, de suborno a autoridades com dinheiro público. Também foi condenado por superfaturamento de obras e por vender a um preço muito menor do que valia o tradicional prédio da Sociedade Rural, em Palermo, durante seu governo.

Ao todo, as penas somavam nove anos de detenção, mas ele não chegou a cumpri-las, uma vez que o cargo de senador lhe dava imunidade parlamentar. As alianças com a maioria peronista do Congresso, nos últimos anos, garantiram que não perdesse o foro especial.

Suas relações com os militares foram tortuosas. Governador de La Rioja até o golpe militar de 1976, mantinha boa relação com o bispo Enrique Angelelli, um dos raros líderes religiosos progressistas da Argentina e perseguido pelos militares. Após o golpe, Menem foi preso e ficou cinco anos na cadeia.

No entanto, ao chegar ao governo, promoveu o perdão para todos os líderes militares do chamado Processo de Reorganização Nacional, o nome fantasia dado à ditadura do período entre 1976 e 1983.

O movimento serviu para pôr fim à anarquia nas Forças Armadas, que promoveram sucessivas rebeliões contra seu antecessor, Raúl Alfonsín, suficientes para ajudar a desestabilizá-lo.

Após o restabelecimento da democracia, Menem retomou a carreira política do ponto em que estava em 1976: voltou a se eleger governador de La Rioja, posto que usou para disputar a liderança do peronismo, o que fez ao derrotar os setores mais ideológicos do movimento.

Mesmo após o caos que se seguiu ao fim da política de câmbio fixo, em 2001, Menem tentou um terceiro mandato, em 2003. Foi o mais votado no primeiro turno, embora com apenas 24% dos votos, sinal claro do desgaste sofrido devido à crise da paridade cambial.

Ficou longe dos 45% necessários para dispensar o segundo turno ou mesmo dos 40% com 10 pontos percentuais de vantagem sobre o segundo colocado, o que também lhe daria o direito a retornar à Casa Rosada sem a necessidade de uma nova votação. Menem deveria disputar o returno com Néstor Kirchner, também peronista, mas muito mais à esquerda, e que obtivera 22% dos votos.

Desistiu, no entanto, com bases nas pesquisas de intenção de voto, que apontavam rejeição a ele na casa dos 70%. Seria humilhação demais para o homem que conseguira ficar dez anos consecutivos na Casa Rosada, proeza nada desprezível em um país tão instável politicamente.

A vida pessoal também foi cheia de ziguezagues. Muçulmano por herança familiar, tornou-se católico porque assim a Constituição argentina, até 1994, exigia de um presidente.

Manteve, entretanto, o casamento com uma muçulmana, Fátima Zulema Yoma, com quem teve uma filha, Zulemita, e um filho, Carlos Saúl Menem Facundo Yoma, morto em acidente de helicóptero em 1995.

Quatro anos antes, Menem e Zulema se separaram, o que fez com que Zulemita assumisse algumas vezes o papel de primeira-dama, até porque a mãe entrou em conflito aberto com o pai.

Considerado um conquistador, Menem casou-se em 2001 com uma ex-miss Universo, a chilena Cecilia Bolocco, 35 anos mais jovem que ele. O casamento durou seis anos, e o casal teve o filho Máximo Menem.

O abandono da eleição de 2003 acabou sendo o ponto de inflexão na carreira do peronista, que passou ao ostracismo no próprio partido. Movimentos populistas como o do qual fazia parte valorizam ao extremo o papel do “jefe”, ocupado desde então por Néstor Kirchner ou sua mulher, Cristina Fernández de Kirchner.

Ainda assim, Menem se elegeu senador em 2005 e seguiu se reelegendo ao final de cada mandato, sempre por La Rioja. Mas seu papel no peronismo em nível nacional limitou-se ao de votar, quase sempre a favor, das propostas elaboradas pelo peronismo kirchnerista, herdeiro do caos que o peronismo menemista provocou na Argentina.

Em 2018, no entanto, diferiu da bancada kirchnerista votando contra a Lei do Aborto, colaborando para que fosse vetada pelo Congresso.


Repercussão

"Com profundo pesar soube da morte de Carlos Saúl Menem. Sempre eleito em democracia, foi governador de La Rioja, presidente da nação e senador nacional. Durante a ditadura, ele foi perseguido e preso. Todo o meu amor vai para Zulema, Zulemita e todos aqueles que o choram hoje."

ALBERTO FERNÁNDEZ, atual presidente da Argentina, em rede social

"Diante da morte do ex-presidente Carlos Saúl Menem, gostaria de expressar minhas condolências à sua família e aos seus companheiros e amigos."

CRISTINA KIRCHNER, atual vice-presidente e ex-presidente da Argentina, em rede social

"Lamento profundamente a morte do ex-presidente Carlos Saúl Menem. Acima de tudo, ele nos deixa uma boa pessoa, de quem vou lembrar com muito carinho. Meus pêsames para a família e amigos dele."

MAURICIO MACRI, ex-presidente da Argentina, em rede social

"Hoje faleceu o presidente Carlos Menem, que marcou os anos 90 na Argentina e era um grande amigo do Chile. Minha solidariedade com sua família e com o povo argentino e que Deus acolha sua alma."

SEBASTIÁN PIÑERA, presidente do Chile

"Registro meu pesar pelo falecimento do Presidente @carlosmenemlr . Durante o meu governo, assinamos acordos históricos, como a criação do Mercosul e o tratado sobre o uso pacífico de energia nuclear. Ações essenciais para a integração e a paz da América do Sul. Meus sentimentos mais sinceros à família e ao povo argentino."

FERNANDO COLLOR, ex-presidente do Brasil, em rede social

"[Carlos Menem] foi estadista com papel marcante no avanço das relações com o Brasil e da integração regional, com base no conceito de integração aberta e na projeção internacional de nossos países. O governo brasileiro transmite ao governo e ao povo da Argentina e aos familiares do ex-Presidente Menem as suas profundas condolências."

MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES, em nota

Este texto foi produzido originalmente por Clóvis Rossi, morto em junho de 2019, e atualizado pela correspondente Sylvia Colombo

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