Descrição de chapéu DeltaFolha Coronavírus

Mais da metade da população vive em países com ritmo acelerado ou nível alto de Covid-19

Ásia e Europa enfrentam maior aceleração de novas infecções confirmadas; Brasil se destaca pelo volume de novos óbitos

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

A pandemia de Covid-19 já completou um ano e há vacinas disponíveis, mas a aceleração da doença ainda é alta em boa parte do planeta: 60,2% da população vive em países com ritmo acelerado de crescimento de casos ou estável em patamares altos.

Em todos os continentes há nações nesses estágios agudos da pandemia, mostra levantamento feito pela Folha com base nos dados da Universidade Johns Hopkins.

Ásia e Europa são as áreas que enfrentam as piores situações neste momento, ambas com mais de 55% da população em países com níveis acelerados ou estabilizados em patamares altos de novos casos.

Etíopes aguardam para encher cilindros de oxigênio para tratamento de familiares contaminados com Covid-19, na capital Adis Abeba
Etíopes aguardam para encher cilindros de oxigênio para tratamento de familiares contaminados com Covid-19, na capital Adis Abeba - Amanuel Sileshi - 19.mar.21/AFP

Para classificar os países, foi utilizada a metodologia do monitor de aceleração da Covid-19, da Folha, desenvolvida por pesquisadores da USP, que considera o número de novos casos nos últimos 30 dias, dando mais peso para o período mais recente.

Sob esse critério, 41,5% das pessoas vivem em países que estão no estágio acelerado, ou seja, com crescimento agudo de novos casos. Nesse patamar estão, por exemplo, Índia, Bangladesh, Alemanha, França e Argentina.

Esses cinco países passaram a adotar nos últimos dias medidas adicionais para restringir a circulação de pessoas.

A quantidade de pessoas que estão em países classificados como em estágio acelerado de contaminação no mundo é hoje três vezes maior do que o registrado há seis semanas.

Agora, outros 18,7% das pessoas estão em locais no patamar chamado de estável (crescimento estabilizado, mas em nível alto). É o caso do Brasil, que não vê mais um crescimento forte de novos casos, mas estacionou numa média móvel na casa dos 63 mil por dia, um dos maiores do mundo. Em termos de novos óbitos, é o país com mais mortes.

A proporção da população mundial nesse estágio estável é semelhante ao verificado há seis semanas (21% à época).

Somente 35,8% da população estão hoje em locais classificados como desacelerados (com queda no ritmo de novos casos por um longo período). São os casos de Estados Unidos, Espanha e México —ainda assim, epidemiologistas mostram preocupação com a possibilidade de novos surtos nesses países.

Há um mês e meio, eram 70% nesse estágio menos grave da pandemia. Os dados consideram atualização até a última quinta-feira (8) da Universidade Johns Hopkins. Outros 4% da população estão no estágio considerado inicial (com poucos casos).

Um agravante para a Europa continental, mesmo com alguns dos maiores PIBs do mundo, é que a região não tem conseguido avançar na vacinação como Reino Unido ou Estados Unidos (em parte por não terem sido agressivos como estes dois países nas negociações com as empresas farmacêuticas).

Enquanto britânicos e americanos já têm 47% e 33% da população total com ao menos uma dose, franceses e alemães estão apenas em 14%. O Brasil está em 9% —dados compilados na sexta (9) pelo grupo Our World in Data, ligado à Universidade Oxford.

A Europa também sofre com o espalhamento rápido da variante surgida na Inglaterra, mais contagiosa que na primeira etapa da pandemia.

Autoridades da OMS (Organização Mundial da Saúde) vêm fazendo alertas para a piora da situação global. Em entrevista coletiva na última terça (6), a epidemiologista Maria Van Kerkhove, que lidera a equipe técnica da organização, destacou que há crescimento de novos casos no mundo nas últimas seis semanas, após um período de queda.

Ela citou como preocupante a situação em países grandes, na Europa (como França, Turquia, Itália e Ucrânia), nas Américas (Brasil, Canadá, Colômbia e Estados Unidos) e no Sudeste Asiático.

Entre as explicações citadas por especialistas como causa desse aumento global está a aparição de diferentes variantes, que tornam a disseminação da doença mais rápida.

A B.1.1.7 (registrada inicialmente no Reino Unido, já amplamente disseminada nos Estados Unidos) pode ser entre 43% e 90% mais transmissível, apontam estudos científicos.

A B.1.351 (da África do Sul) tem potencial de transmissão até 1,5 maior e não é freada pelos anticorpos que ajudam no controle da forma original do vírus, demonstrando que uma infecção prévia não impede a reinfecção.

A P.1, ou variante de Manaus, também apresenta maior transmissibilidade (entre 2,2 e 6 vezes mais). Além de ter se espalhado pelo Brasil, está largamente presente em países da América do Sul.

Além das variantes, especialistas também apontam como causa para o aumento das infecções o relaxamento de medidas de distanciamento social, aplicadas oficialmente nos últimos meses pelos governos ou na prática, pela fadiga da população.

Esse enfraquecimento é visto como preocupante mesmo em locais onde a vacinação avança fortemente, pois há o temor de que as medidas restritivas percam força mais rapidamente do que o efeito dos imunizantes possa estar a contento.

Nos Estados Unidos, por exemplo, mesmo com uma das imunizações mais avançadas do mundo, o número de novos casos vêm apresentando aumento em alguns locais, como Michigan. Estados vêm retirando a exigência de máscaras e liberando comércio.

“É muito cedo para declarar vitória [contra o vírus nos EUA]”, afirmou na semana passada Anthony Faucci, principal autoridade americana no combate ao novo coronavírus. “Temos de seguir por mais tempo com as medidas de proteção.”

“Estamos sendo chamados de ‘disco riscado’, mas precisaremos seguir repetindo a mesma coisa: vacina é apenas uma das respostas”, afirmou Van Kerkhove, da OMS.

Vacinação não é uma boa resposta para situações agudas”, afirmou sua colega Mariângela Simão, diretora-geral-assistente da OMS. “A vacinação leva tempo para imunizar as pessoas.”

Elas citam como medidas necessárias ainda por muito tempo o distanciamento social, a higiene das mãos, o uso de máscaras e o acompanhamento intenso dos infectados e de pessoas que tiveram contato com eles (para colocar esse círculo em quarentena).

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, outra autoridade da OMS demonstrou preocupação com a situação do Reino Unido, ainda que o país tenha um dos níveis mais altos de imunização no mundo e casos em desaceleração.

Isso porque o Reino Unido começou a relaxar as medidas restritivas de seu terceiro lockdown. Na segunda-feira (12), comércio não essencial, academias e pubs ao ar livre poderão reabrir.

Catherine Smallwood, dirigente da OMS na Europa, entende que a queda nos casos entre os britânicos tem mais a ver com o lockdown do que com a vacinação. E o patamar atual de infecções ainda pode ser suficiente para impulsionar um novo surto.

Como funciona o monitor

O monitor da Folha tem como base um modelo estatístico desenvolvido por Renato Vicente, professor do Instituto de Matemática da USP e membro do coletivo Covid Radar, e por Rodrigo Veiga, doutorando em física pela USP.

A situação em cada local avaliado recebe uma classificação. Há cinco possibilidades: inicial, acelerado, estável, desacelerado e reduzido.

A fase inicial é aquela em que surgem os primeiros doentes. O Brasil já não tem nenhuma cidade com mais de 100 mil habitantes nessa situação.

A etapa acelerada é aquela em que há aumento rápido do número de novos casos. Na estável, ainda há número significativo de pessoas sendo infectadas, mas a quantidade de novos casos é constante.

Quando o número de novos casos cai ao longo do tempo de maneira considerável, tem-se a fase de desaceleração. Já na etapa reduzida há poucos casos novos (ou nenhum), levando em consideração o histórico da epidemia naquele lugar.

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior da infografia desta reportagem afirmou​ incorretamente que a média móvel de novos casos de Covid no México era de 32,8 mil. O correto é 3,3 mil. O dado foi corrigido. 

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.