Rússia fecha espaço aéreo em torno da Crimeia após protesto dos EUA

Com tropas na fronteira da Ucrânia, Moscou alega exercício; embaixador americano volta a Washington

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São Paulo

A Rússia fechou o espaço aéreo em torno da costa da Crimeia por quatro dias para conduzir mais uma rodada de exercícios militares. A medida ocorre um dia depois de os Estados Unidos protestarem pelo fechamento de trechos do mar Negro em torno da península reabsorvida por Vladimir Putin em 2014, após o governo simpático ao Kremlin ser derrubado em Kiev.

Avião de ataque Sukhoi Su-25 da Força Aérea Russa, igual aos utilizados em exercício no mar Negro
Avião de ataque Sukhoi Su-25 da Força Aérea Russa, igual aos utilizados em exercício no mar Negro - Ministério da Defesa da Rússia - 22.out.2015/via Reuters

A restrição de navegação, emitida na sexta, vale por seis meses a partir do sábado (24) para navios militares e governamentais estrangeiros. Como afeta o mar de Azov, um pedaço do mar Negro que banha Crimeia, Rússia e Ucrânia, há o temor de que impeça na prática exportações de Kiev.

Segundo a agência russa Interfax, ao menos 20 navios e aviões de ataque Su-25 da Frota do Mar Negro fizeram manobras já nesta terça (20). Assim, a já elevada temperatura da crise em torno da Ucrânia sobe mais alguns graus. Não serão poucos os planejadores militares ocidentais que verão a sequência de ações russas como um prenúncio de uma ação contra o país vizinho.

Nesta terça, o embaixador americano em Moscou, John Sullivan, voltou a Washington para consultas com seu governo, conforme havia sido sugerido pelo chanceler russo, Serguei Lavrov. O Departamento de Estado ainda fez questão de dizer que ele não foi banido. Agora, os dois países estarão sem embaixadores em solo em meio à grave crise na Ucrânia —o russo Anatoli Antonov foi chamado a Moscou em março.

A tensão é temperada pelo agravamento da condição de saúde na cadeia do líder opositor Alexei Navalni, que está em greve de fome e é apoiado pelos EUA. Nesta terça, a polícia russa prendeu ativistas que pretendiam fazer atos não autorizados em favor de Navalni.

A nova etapa da crise começou há três semanas, quando foram detectados movimentos de tropas e blindados russos em direção às fronteiras com a Ucrânia, na Crimeia e junto ao Donbass, a região do leste do vizinho que é parcialmente ocupada por separatistas pró-Rússia. Eles formaram duas repúblicas autônomas na área e lutam uma guerra civil, ora congelada, que já matou quase 14 mil pessoas.

Segundo o Pentágono, é a maior concentração militar na área desde a crise de sete anos atrás. A União Europeia divulgou, na segunda, que já haveria 100 mil homens na área, número que o Kremlin não nega.

Moscou se diz preocupado com a movimentação de forças ucranianas junto às fronteiras rebeldes. Desde o começo do ano, o enfraquecido presidente Volodimir Zelenski cedeu a pressões de setores da elite política do país e assumiu uma atitude mais agressiva em relação aos separatistas. Isso colocou a Rússia em seu próprio alerta, gerando todo o alarme no Ocidente, com declarações sucessivas de apoio dos EUA e dos membros europeus da Otan, a aliança militar transatlântica criada em 1949 para enfrentar Moscou.

Nesta terça, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, voltou a dizer que seu país não é o responsável pelas tensões. Ele culpou a Europa de "psicose antirrussa em massa", citando a acusação de que Moscou foi responsável por uma explosão em um depósito de munição da República Tcheca em 2014. O governo tcheco disse nesta terça considerar expulsar todos os diplomatas russos no país, e não apenas os 18 previstos —o Kremlin já anunciou que retaliará mandando 20 funcionários de Praga de volta para casa.

Já Zelenski desafiou Putin a encontrá-lo numa reunião na região ocupada, algo bastante improvável de acontecer. No Reino Unido, o chanceler Dominic Raab afirmou que é preciso "deter a Rússia" de qualquer ação contra a Ucrânia, e, na França, o Ministério das Relações Exteriores disse que qualquer movimento russo seria "inaceitável". Na semana passada, os EUA determinaram novas sanções contra os russos, ainda que por outros motivos.

A pressão de Putin tem um objetivo insinuado, que é o de fazer valer termos dos acordos que pararam de forma frágil a guerra no leste ucraniano. Eles reconhecem a soberania de Kiev sobre as áreas rebeldes, mas as mantêm autônomas. O que o russo quer é que a Ucrânia não integre estruturas ocidentais, como a Otan, a quem já pediu um acesso rápido inviável justamente por viver disputas territoriais.

Na concepção geopolítica russa, é preciso manter anteparos estratégicos contra forças adversárias. Belarus, ao norte, e o sul do Cáucaso são outros dois pontos em que Putin asseverou sua vontade no ano passado. Respectivamente, apoiou a ditadura em crise em Minsk e inseriu forças de paz para mediar o conflito entre Armênia e Azerbaijão.

A rigor, contudo, ninguém tem interesse numa guerra que pode sair de controle e envolver países armados com bombas atômicas, caso de Rússia e, do lado da Otan, EUA, Reino Unido e França —embora Paris mantenha suas armas fora do sistema de emprego comum da aliança.

A proibição de voos também ecoa uma notificação a empresas aéreas, emitida na segunda pelos EUA: a de que aviões cujas rotas passem perto da região em conflito exerçam "extrema cautela" e considerem alterar o trajeto. Isso porque há muitos sistemas antiaéreos, dos dois lados, na região.

Em 2014, durante o conflito no Donbass, um Boeing 777 malaio foi derrubado por um míssil de um lançador russo Buk, matando 298 pessoas.

Uma investigação internacional culpou a Rússia de ter emprestado a arma para rebeldes, que cometeram o erro ao atirar. O Kremlin negou e aponta para forças ucranianas como as responsáveis.

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