Descrição de chapéu América Latina

Segundo turno no Peru deve opor outsider à política tradicional

Pedro Castillo defende Estado na economia e pauta social conservadora

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Buenos Aires

Na corrida presidencial mais fragmentada da história do Peru, o líder de esquerda azarão Pedro Castillo, 51, que subiu nas pesquisas a toda velocidade na última semana e manteve a dianteira na apuração desde a noite de domingo (11), deve confirmar sua vaga na próxima fase.

Com 90,9% dos votos apurados, o cenário mais provável é que ele dispute o segundo turno, em junho, com um adversário de direita: a ex-congressista Keiko Fujimori, 45, ou o economista Hernando de Soto, 79. Seu opositor pode ser ainda o candidato de ultradireita Rafael López Aliaga, chamado de "Bolsonaro peruano" devido ao vínculo com a Igreja Católica —ele é da Opus Dei— e à pauta conservadora nos costumes.

O candidato à Presidência do Peru Pedro Castillo durante evento de fechamento de campanha em Lima
O candidato à Presidência do Peru Pedro Castillo durante evento de fechamento de campanha em Lima - Gian Masko - 8.abr.21/AFP

Até as 22h desta segunda (12), Castillo liderava com 18,96%, seguido por Keiko (13,26%), De Soto (11,83%) e Aliaga (11,81%). Com uma distância pequena, ficavam para trás a esquerdista Veronika Mendoza, a ex-promessa dos últimos anos Julio Guzmán, o populista Yohny Lescano, o ex-jogador do Alianza Lima George Forsyth e até um ex-presidente, Ollanta Humala (2011-2016).

Apesar da pandemia, 72% dos eleitores foram às urnas —o voto é obrigatório no Peru. Nas eleições de 2016, esse número somou 81,8%. Castillo, 51, é uma surpresa para muitos. Durante a transmissão dos primeiros resultados, a CNN em espanhol sequer tinha uma foto dele para exibir. Castillo se mostrou ao mundo de modo pitoresco, indo votar montado em um cavalo, em Cajamarca, na região andina.

Sindicalista e professor do ensino médio, ele ficou conhecido nacionalmente ao liderar greves de docentes, a mais famosa delas em 2017. "Queria agradecer aos povos esquecidos de meu país, cumprimentar os homens e as mulheres que estão nos cantos do país, cumprimentar os que estão além das fronteiras da pátria, onde o Estado não chega. Hoje o povo peruano acaba de tirar a venda dos olhos", disse, ao saber dos primeiros resultados que o colocavam na dianteira.

Candidato da aliança Perú Libre, ele defende maiores salários aos empregados do setor da educação. Tem um discurso anticorrupção e propõe dissolver o Tribunal Constitucional e a Constituição de 1993 —segundo ele, os responsáveis por permitir práticas irregulares.

Algumas de suas promessas de campanha são consideradas bastante autoritárias. Castillo planeja, por exemplo, regulamentar os meios de comunicação e acabar com "a televisão que só propague lixo". E prometeu reduzir o funcionalismo público, que considera corrupto.

O candidato é contra o aborto, o matrimônio igualitário e a eutanásia.

Na economia, promete mais intervenção do Estado e a nacionalização de petrolíferas e da produção de energia. Castillo afirma que sua nova Constituição implementará uma "justa divisão de bens" no Peru.

Menos surpreendente é a candidatura de Keiko Fujimori, 45, que concorre à Presidência pela terceira vez. Nos últimos tempos, a ex-congressista armou uma carreira política própria —depois de muitos anos conhecida como "a filha de Fujimori", em referência ao ex-líder autocrata Alberto Fujimori (1990-2000).

"Se Keiko ganha ou Keiko perde, hoje será mais por seus méritos ou erros. Sua trajetória política já é longa o suficiente para que responda por seus acertos ou equívocos", diz o analista Alberto Vergara.

Bacharel em administração de empresas pela Universidade de Boston, Keiko é casada com um americano e tem duas filhas. Durante o último mandato, liderou o Força Popular, partido fujimorista, em suas tentativas de derrubar Pedro Pablo Kuczynski —para quem havia perdido em 2016 por uma diferença de pouco mais de 50 mil votos. A perspectiva de que ela chegasse ao poder naquele ano levou multidões às ruas em protestos contra um possível retorno do fujimorismo. Assim, a esquerda decidiu, de última hora, apoiar PPK (como Kuczynski é conhecido), e ele acabou vencendo o pleito.

Em 2018, Keiko foi presa, acusada de lavagem de dinheiro e de recebimento de caixa dois da empreiteira brasileira Odebrecht. No ano seguinte, obteve um habeas corpus, mas o processo ainda não foi concluído.

Embolado com Keiko, Hernando de Soto seria uma opção para a direita mais conservadora, já que defende uma pauta tradicional nos costumes e liberal na economia. De Soto cresceu fora do Peru, quando sua família fugiu do regime militar imposto por Manuel Odría (1948-1956), e estudou na Suíça. Economista, trabalhou junto a órgãos internacionais em estratégias para combater a fome em regiões mais pobres.

O ultradireitista López Aliaga, por sua vez, chamou a atenção durante a campanha principalmente por aspectos pitorescos de sua personalidade —ele afirma, por exemplo, usar um cinto com agulhas para suprimir seu desejo sexual e se aproximar a Deus.

Segundo analistas, a eleição deste ano reflete a situação de desmonte dos partidos peruanos, o aumento da desconfiança em relação à política provocada por seguidos escândalos de corrupção e os efeitos da pandemia do coronavírus. O Peru é um dos países da América do Sul mais afetados pela Covid, com 1,6 milhão de casos e quase 55 mil mortes desde o início da crise —e agora vê uma nova alta de casos.

Apesar do agravamento da pandemia, o pleito foi mantido em sua data prevista em resposta também à instabilidade do governo peruano. O presidente interino Francisco Sagasti é o quarto do atual mandato, que começou com a eleição de PPK em 2016. Ele renunciou antes de passar por um processo de impeachment sob acusação de envolvimento com propinas.

Seu sucessor, Martín Vizcarra, foi afastado em novembro de 2020 depois de enfrentar dois processos de impeachment, também sob a acusação de recebimento de propina, o que o enquadraria na categoria de "incapacidade moral", impedindo a continuidade no cargo.

Na sequência, assumiu, por apenas seis dias, o congressista Manuel Merino de Lama, que renunciou depois dos episódios de violência que vieram na esteira da crise institucional.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.