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Em Mianmar, poetas recorrem aos versos para manter resistência contra golpe militar

Forças Armadas já prenderam mais de 30 poetas desde tomada de poder, e pelo menos quatro foram mortos

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Hannah Beech
The New York Times

Depois de o primeiro e o segundo poetas serem mortos, o terceiro poeta escreveu um poema.

"Eles atiram em cabeças / Mas não sabem / que a revolução vive no coração."

Quando o terceiro poeta foi assassinado, o quarto poeta escreveu um poema.

"Não deixe seu sangue correr gelado / fortifique seu sangue para encarar esta luta."

Quando o quarto poeta foi morto, seu corpo consumido pelo fogo no dia 14 de maio, ninguém escreveu versos. Por enquanto, pelo menos.

Milhares de pessoas protestam contra regime militar em Rangoon, maior cidade de Mianmar
Milhares de pessoas protestam contra regime militar em Rangoon, maior cidade de Mianmar - The New York Times

A poesia continua viva em Mianmar, onde armas nada convencionais estão sendo usadas para combater as Forças Armadas, que já mataram mais de 800 pessoas desde que promoveram um golpe militar, em 1º de fevereiro. Para alguns ativistas democráticos, não há como diferenciar sua política da poesia.

Cientes do poder das palavras bem escolhidas, os generais de Mianmar já prenderam mais de 30 poetas desde o golpe, segundo a União Nacional de Poetas. Ao menos quatro poetas foram mortos. Todos viviam na cidade de Monywa, na planície central de Mianmar, que emergiu como centro de resistência ao golpe.

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“O sentimento antiautoritário sempre fez parte da carne e do sangue dos poetas”, diz U Yee Mon, que além de poeta é ministro da Defesa de um governo democrático fora do poder e que está desafiando a junta militar a partir de um reduto nas selvas. “As pessoas que brandem armas têm medo das mãos que seguram uma caneta.”

A resistência aos militares mianmarenses, que dominam o país desde sua independência do Reino Unido, inspira pessoas de todos os setores da sociedade. Estudantes e participantes de concursos de beleza já participaram de protestos; médicos e engenheiros, também. Poetas também vêm tomando parte. Suas estrofes rimadas viram gritos de guerra do movimento de protesto.

Os primeiros poetas abatidos pelas forças de segurança após o golpe militar foram Ko Chan Thar Swe e Ma Myint Myint Zin. Um foi baleado na cabeça, e o outro levou um tiro no peito durante uma manifestação de protesto em Monywa no início de março.

Chan Thar Swe abandonara um mosteiro budista mais de 12 anos atrás para escrever poesia. Foi uma iniciativa que chocou sua família, que apreciava o prestígio de ter um clérigo como um de seus membros, conforme contou sua irmã, Ma Khin Sandar Win. Seus poemas, que ele assinava com o pseudônimo K Za Win, eram cheios de vigor que não condizia com seus antecedentes monásticos.

Em 2015, seu ativismo político em defesa da terra, educação e causas ambientais o levou à prisão. A mesma coisa aconteceu com dezenas de outros poetas. Chan Thar Swe continuou a compor poemas em sua cela; os versos enchiam sua cabeça. Os presos eram autorizados a ter livros, mas não canetas, de modo que ele memorizou os versos. O rigor ajudou a enxugar sua poesia, em que não há nada de supérfluo. Chan Thar Swe escreveu “Revolução” cinco dias depois do golpe militar.

"Noites escuras / Demoram demais a passar."

O poema termina em clima de esperança.

"Vai amanhecer / Pois é dever daqueles que ousam / conquistar as trevas e abrir a porta à luz."

No dia 4 de março, sua irmã foi convocada pela polícia a comparecer ao necrotério de Monywa. Ali, contou Khin Sandar Win, ela identificou o corpo de seu irmão. Um buraco de bala perfurara sua têmpora esquerda. E um corte comprido descia por seu torso.

A família especulou que a incisão pudesse indicar que seus órgãos internos haviam sido removidos. Trata-se de uma profanação verificada com frequência crescente entre os mortos pelos militares em Mianmar. Mas o corpo de Chan Thar Swe foi cremado antes de seus familiares poderem descobrir mais.

Hoje sua mãe passa os dias olhando fotos dele, seu filho mais velho, no Facebook. As fotos e as cinzas dele são tudo que restou do filho. “Meu irmão não nos sustentava financeiramente, já que era poeta, mas nos protegia quando era preciso”, comentou Khin Sandar Win.

No funeral de Chan Thar Swe, outro poeta, Ko Khet Thi, recitou versos que ele escrevera para as pessoas executadas pelas forças de segurança, muitas delas com uma única bala na cabeça e algumas quando nem sequer estavam protestando. "Eles começaram a queimar os poetas / quando a fumaça dos livros incendiados / não pôde mais sufocar os pulmões carregados de revolta."

Semanas após o funeral, Khet Thi, antigo engenheiro, foi detido. Mais tarde, segundo sua família, apareceu morto. Também seu cadáver apresentava uma incisão inexplicada descendo pelo torso.

“Também eu tenho medo de ser detido e morto, mas vou continuar a lutar”, declarou Ko Kyi Zaw Aye, também outro poeta de Monywa. Ele era amigo de ambos, Chan Thar Swe e Khet Thi.

A poesia política em Mianmar remete aos tempos em que os reinos birmaneses empregavam trovadores para mobilizar os soldados antes de batalhas. Quando a população se revoltou contra a opressão do Império Britânico, poetas se colocaram na dianteira do movimento pela independência.

O lirismo do idioma mianmarense, com suas sílabas rimadas e as imagens vívidas embutidas nas frases coloquiais, ajudou a fazer da poesia um gênero artístico nacional poderoso. Também ajudou a camuflar o sentido real das palavras dos poetas —uma ferramenta importante para quem enfrentava a censura de administradores coloniais ou generais do Exército. A dissensão e a poesia continuaram entrelaçadas.

U Sein Win era partidário ferrenho da Liga Nacional pela Democracia em Monywa. Ele pintava e esculpia em madeira. Escrevia poemas e peças de teatro. Quando falava, suas mãos dançavam, acompanhando suas palavras. Seus cabelos longos emolduravam seu rosto.

Na manhã de 14 de maio, um agressor jogou um balde de gasolina sobre Sein Win, 60, e acendeu um fósforo, segundo a filha do poeta, Ma Thin Thin Nwe. Seus traços faciais derreteram. Sein Win morreu naquela noite. Desde o golpe militar, mais de uma dúzia de políticos democráticos, ativistas e pessoas comuns já morreram em ataques inexplicados semelhantes.

No funeral de Chan Thar Swe, Khet Thi, semanas antes de também ser assassinado, previu o poder destrutivo do fogo e falou do renascimento que o segue.

"Eles começaram a queimar os poetas / mas as cinzas fertilizam o chão."

Tradução de Clara Allain

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