Descrição de chapéu oriente médio

Hamas dispara foguetes, e Israel revida após novos conflitos em Jerusalém

Grupo islâmico diz que resposta israelense deixou ao menos 20 mortos, incluindo 9 crianças

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BAURU (SP)

Em meio à escalada de violência após seguidos confrontos entre manifestantes palestinos e forças de segurança israelenses, o Hamas lançou nesta segunda (10) dezenas de foguetes da Faixa de Gaza em direção a Israel, que revidou com ataques aéreos.

As Forças Armadas israelenses afirmam ter contabilizado 45 disparos. Não há relatos de feridos, mas, ainda assim, foi ordenada a evacuação temporária de regiões da Cidade Antiga, do Muro das Lamentações e de prédios oficiais como o do Knesset, o Parlamento israelense.

Do outro lado, o Ministério da Saúde da Faixa de Gaza, controlado pelo grupo islâmico, afirmou que ao menos 20 palestinos morreram, incluindo nove crianças.

Considerado uma facção terrorista por Israel, EUA e União Europeia, o Hamas apoia os palestinos em Jerusalém e havia dado um ultimato para que os israelenses recuassem de suas posições na Esplanada das Mesquitas e no bairro Sheikh Jarrah —os dois principais pontos de conflito dos últimos dias.

Foguetes disparados de Gaza, região controlada pelo Hamas, em direção a Israel - Mahmud Hams - 10.mai.21/AFP

O porta-voz das Forças Armadas de Israel, Hidai Zilberman, evitou assumir a responsabilidade por todas as mortes, sugerindo que elas ocorreram devido a fogo amigo do Hamas. Zilberman disse que os ataques israelenses provocaram a morte apenas de três membros do grupo.

"Nos próximos dias, o Hamas sentirá o longo braço do Exército. Não vai demorar alguns minutos, vai demorar alguns dias”, disse Zilberman. O porta-voz disse também que "todas as opções estão na mesa", incluindo um conflito mais amplo, com operação terrestre, bem como ações para matar líderes do grupo. "Temos um endereço claro: o Hamas, que pagará um preço caro. Vamos responder com veemência.”

No começo da tarde, uma árvore pegou fogo na Esplanada das Mesquitas, mas as chamas foram controladas antes que o incêndio atingisse a mesquita de Al-Aqsa, o terceiro lugar mais sagrado para o islamismo. Durante a noite desta segunda, quando os judeus comemoraram o Dia de Jerusalém, novos confrontos voltaram a ser registrados no local.

Diante do agravamento da crise, o governo dos EUA, que mais cedo havia pedido calma a israelenses e palestinos, divulgou um alerta para que funcionários dos postos diplomáticos americanos em Jerusalém não saiam de casa até pelo menos o próximo domingo (16).

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Nesta segunda, o Conselho de Segurança da ONU se reuniu para avaliar a situação, mas não chegou a uma decisão conjunta. Segundo relatos de diplomatas à agência AFP e ao jornal Times of Israel, os EUA se opuseram a uma declaração pública por considerar o momento inoportuno.

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, por sua vez, pediu que os dois lados diminuam a tensão na região e afirmou que o Hamas deve parar imediatamente de lançar foguetes em direção a Israel.

Uma proposta de resolução, liderada pela Noruega com China e Tunísia, exige "que Israel interrompa as atividades de colonização, demolição e expulsão" de palestinos, "incluindo em Jerusalém Oriental". Além disso, o documento expressa a "profunda preocupação" com os incidentes e solicita às partes que evitem "medidas unilaterais que exacerbem as tensões e minem a viabilidade da solução de dois Estados".

A série de conflitos em Jerusalém já dura quatro dias e deixou centenas de feridos. Só nesta segunda, de acordo com a ONG Crescente Vermelho Palestino, ao menos 330 palestinos ficaram feridos ao serem atingidos por balas de borracha e granadas de atordoamento —250 dos quais foram hospitalizados. Segundo a polícia, 21 agentes também se feriram, com pedras lançadas pelos palestinos.

Nabil Abu Rudeineh, porta-voz do presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), Mahmoud Abbas, acusou as "forças de ocupação israelenses" de conduzirem um "ataque brutal" em Al-Aqsa. Abbas denunciou há semanas o "incitamento ao ódio" de grupos israelenses de extrema direita e instou a comunidade internacional a "proteger" os palestinos em Jerusalém Oriental.

Antes mesmo do revide israelense, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, que pode deixar o cargo se a oposição conseguir formar um governo de coalizão, já havia prometido responder aos ataques "com muita força". Ele chegou a convocar uma reunião de emergência e pediu calma a todas as partes envolvidas. O pedido, no entanto, não cessou os enfrentamentos, ainda que o premiê tenha afirmado que a liberdade de culto está sendo mantida para todos os residentes e visitantes de Jerusalém.

O Dia de Jerusalém é o feriado em que Israel celebra a reunificação do país, ocorrida em 1967, após o conflito que ficou conhecido como Guerra dos Seis Dias. A comemoração, porém, toca em tópicos delicados dos conflitos na região, já que parte do território ocupado por Israel naquele ano inclui locais que também são sagrados para muçulmanos e cristãos.

Em um esforço para amenizar a onda de violência, a polícia israelense proibiu grupos judeus de visitarem a praça sagrada que abriga a mesquita de Al-Aqsa, apesar de a área também ser reverenciada pelos judeus como um local dos templos bíblicos.

As autoridades também chegaram a cancelar a tradicional marcha do Dia de Jerusalém, durante a qual milhares de jovens judeus, com bandeiras de Israel, passam pelo Portão de Damasco e pelo bairro Muçulmano.
Mais tarde, no entanto, a polícia de Jerusalém autorizou a retomada das celebrações na Cidade Antiga pouco após os disparos, segundo o jornal Times of Israel.

No mês passado, uma marcha menor, formada por judeus ultranacionalistas que entoaram gritos de "morte aos árabes" e "morte aos terroristas", serviu de gatilho para os confrontos entre israelenses e palestinos em meio ao clima de tensão desde o início do ramadã, mês mais importante para a tradição religiosa dos muçulmanos. Na ocasião, houve mais de 120 feridos e 50 presos.

Quando a violência na Esplanada das Mesquitas diminuiu mais cedo nesta segunda, a polícia israelense começou a permitir a entrada de palestinos com mais de 40 anos. A suspensão da passagem era vista como provocação e também serviu de combustível para os conflitos.

Outro fator que contribuiu para o aumento das tensões foi a decisão em primeira instância que prevê o despejo de famílias palestinas de uma área disputada em Jerusalém. Neste domingo (9), a Suprema Corte de Israel adiou uma audiência sobre o tema, como forma de ganhar tempo e acalmar os ânimos.

A disputa central envolve a retirada de quatro famílias palestinas do bairro de Sheikh Jarrah que, por decisão do tribunal regional de Jerusalém, devem devolver os terrenos a famílias judias —o local abriga um espaço sagrado para os judeus: a tumba de Simeão, o Justo, sumo sacerdote por volta do ano 300 a.C.

Pela lei de Israel, se judeus provarem que suas famílias viviam em Jerusalém Oriental antes de 1948, eles podem pedir a restituição de seus direitos de propriedade.

A regra é contestada pelos palestinos, mas o governo de Israel argumenta que eles estão "tratando uma disputa imobiliária entre partes privadas como uma causa nacionalista, para incitar violência".

Ainda que o tribunal de primeira instância tenha decidido a favor dos colonos judeus, em um movimento legal de última hora os apelantes pediram à corte para buscar a opinião do procurador-geral Avichai Mandelblit, o que abriu caminho para o adiamento da audiência que estava prevista para esta segunda.

Jerusalém está no centro do conflito israelense-palestino. De um lado, Israel reivindica a cidade inteira, incluindo seu setor oriental capturado na guerra de 1967, como sua capital. Os palestinos, do outro, buscam fazer de Jerusalém Oriental a capital de um futuro Estado palestino na Cisjordânia e em Gaza.

No mês passado, a ONG Human Rights Watch (HRW) publicou um relatório em que acusa Israel de cometer crimes de apartheid e perseguição contra árabes e palestinos, o que, no direito internacional, equivale a crimes contra a humanidade.

No documento com mais de 200 páginas, intitulado "Um Limite Ultrapassado: Autoridades Israelenses e os Crimes de Apartheid e Perseguição", a HRW aponta restrições impostas por Israel à movimentação dos palestinos e a apreensão de terras para a construção de assentamentos judaicos em territórios ocupados desde a guerra de 1967 como exemplos dos crimes cometidos. ​

Com Reuters

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