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Castillo assume liderança em eleição no Peru, e Keiko fala em fraude

Com 95,96% das urnas apuradas, diferença entre professor esquerdista e filha de Fujimori é de 91 mil votos

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Buenos Aires

Com 95,96% da apuração oficial concluída nesta segunda-feira (7) no Peru, o candidato esquerdista Pedro Castillo, 51, ampliou ligeiramente sua liderança na corrida presidencial —depois de ultrapassar a direitista Keiko Fujimori, 46, ele somava 50,27% dos votos, contra 49,73% da adversária.

A pequena diferença, que equivale a cerca de 91 mil votos, reflete a polarização da cena política peruana enquanto o país escolhe a quinta pessoa a ocupar a Presidência desde 2018.

E, diante da disputa acirrada, Keiko convocou jornalistas no fim da noite para acusar a existência de fraude e dizer que há uma "clara intenção de boicotar a vontade popular". "Estamos recebendo notícias de irregularidades e por isso pedimos a ajuda de vocês, eleitores e apoiadores", disse ela.

Homem deposita cédula em centro de votação em Lima, no Peru - Mariana Bazo - 6.jun.21/Xinhua

A candidata mostrou em um telão vídeos feitos com celular que comprovariam suas acusações e disse que havia "indícios de fraude" em uma das mesas. Algumas imagens mostravam atas (espécie de resumo da votação em determinada seção) que todos os votos teriam sido depositados em Castillo e nenhum nela.

Keiko pediu ainda a seus apoiadores que apresentassem novas supostas provas nas redes sociais.

No Twitter, o partido de Castillo rechaçou as acusações, "lembrando que o Perú Libre jamais recorreu a fraude eleitoral, ao contrário, sempre foi vítima dela, e, apesar de tudo, soubemos enfrentar e vencer".

Os primeiros relatórios da Onpe, órgão eleitoral responsável pela contagem oficial dos votos, apontavam vantagem de Keiko —eles continham os votos das áreas urbanas. Com 42% dos votos apurados, a filha do autocrata Alberto Fujimori, que liderou o país entre 1990 e 2000, saiu na frente com quase seis pontos de vantagem.

Os números provocaram explosões de júbilo em bairros ricos de Lima, onde as pessoas iam às janelas aos gritos de "Viva o Peru!" e "Keiko venceu!". O eleitorado mais conservador teme que o país "caia no comunismo" se Castillo for eleito presidente.

A candidata, por sua vez, reagiu com moderação e pediu prudência a seus eleitores devido à pequena margem de diferença. "Aqui não há vencedor nem perdedor. O que se deve buscar é a unidade de todos os peruanos", disse.

À medida em que o percentual restante, que leva mais tempo para ser analisado por vir das áreas rurais do Peru e dos cidadãos que votam no exterior, foi computado, Castillo diminuiu a diferença até superar a adversária.

Depois da virada, em seu Twitter, o esquerdista se dirigiu a seus apoiadores afirmando que ainda faltam votos do interior do país e do exterior. "Por isso, devemos estar muito atentos para defender a vontade popular até contar o último voto", escreveu.

A pesquisa de boca de urna do Instituto Ipsos, divulgada logo após o fechamento das urnas no domingo, também dava vitória à direitista —50,3% dos votos contra 49,7% de Castillo. Mais tarde, porém, uma contagem rápida feita pelo mesmo instituto revelou um resultado inverso, com 50,2% para o professor de escolas rurais e 49,8% para a ex-congressista.

Gritos de vitória também se multiplicaram após a divulgação do resultado favorável ao esquerdista em Tacabamba, cidade andina mais próxima da aldeia empobrecida onde Castillo nasceu e foi criado. Uma multidão de apoiadores se reuniu na praça principal, violando o toque de recolher imposto para contenção da pandemia de coronavírus.

"Peço ao nosso povo que defenda todos os votos", escreveu Castillo no Twitter quando a previsão inicial sugeria que ele perderia. “Convido o povo peruano de todos os cantos do país a ir às ruas em paz para estar vigilante na defesa da democracia.”

Em nota, seu partido, o Perú Libre, definiu como "enganoso" o segundo levantamento do Ipsos, citando divergências em pesquisas semelhantes no primeiro turno, apesar de os números apontarem ligeira vantagem do candidato. No comunicado, a legenda pede a revisão das atas de votação sob escrutínio de observadores de ambos os partidos envolvidos na disputa presidencial.

A legenda publicou no Twitter que Castillo, que estava em distrito rural no norte do país para votar, viajou a Lima para "garantir a vontade do povo". O candidato, no entanto, cancelou uma entrevista coletiva que estava programada para esta segunda-feira.

Se a vitória de Castillo for concretizada, ele será o primeiro presidente peruano sem vínculos com as elites políticas, econômicas e culturais. Sindicalista e professor do ensino médio, ele ficou conhecido nacionalmente ao liderar greves de docentes, a mais famosa delas em 2017.

Castillo defende maiores salários aos empregados do setor da educação, tem um discurso anticorrupção e propõe dissolver o Tribunal Constitucional e a Constituição de 1993 —segundo ele, os responsáveis por permitir práticas irregulares.

Um sucesso dele representa, também, a terceira derrota de Keiko nas urnas —ela já foi candidata em 2011 e em 2016, perdendo ambas as vezes no segundo turno.

Como consequência, a política, que assumiu há 15 anos a tarefa de reconstruir quase das cinzas o movimento político de direita fundado por seu pai em 1990, teria que ir a julgamento sob risco de acabar na prisão.

Keiko é investigada pelo caso das contribuições ilegais da empreiteira brasileira Odebrecht, um escândalo que afetou também quatro ex-presidentes peruanos, e já passou 16 meses em prisão preventiva por isso.

Se ela inverter o resultado e vencer, abrirá um precedente ao ser a primeira mulher nas Américas a chegar ao poder seguindo os passos de seu pai, cujo mandato foi marcado por uma série de denúncias de violações de direitos humanos.

A disputa acirrada durante a apuração e a proximidade dos números no resultado final, porém, podem levar a dias de incerteza e tensões no país, evidenciando a divisão entre Lima e o interior rural, que impulsionou Castillo.

O vencedor do pleito deve tomar posse em 28 de julho, e o mandatário ou mandatária precisará assumir as rédeas de um país em crise que já teve quatro líderes diferentes desde 2018.

Lá Fora

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Pedro Pablo Kuczynski, conhecido como PPK, renunciou naquele ano acusando a oposição de criar um "clima ingovernável". Seu sucessor, Martín Vizcarra, foi afastado em novembro de 2020 após enfrentar dois processos de impeachment, sob a acusação de recebimento de propina, o que o enquadraria na categoria de "incapacidade moral", impedindo sua continuidade no cargo.

Na sequência, assumiu, por apenas seis dias, o congressista Manuel Merino de Lama, que renunciou depois dos episódios de violência que vieram na esteira da crise institucional. O atual líder do país, Francisco Sagasti, assumiu o governo interinamente e deve permanecer no cargo até a transição para o novo governo.

O Peru também tem a maior taxa de mortalidade do mundo devido à pandemia de coronavírus, com mais de 185 mil mortes em uma população de 33 milhões de habitantes. No ano passado, a crise da saúde obrigou a economia a ficar semiparalisada por mais de cem dias, o que levou a uma recessão e a uma queda do PIB de 11,12%.

Ambos os candidatos prometeram soluções muito diferentes para resgatar o Peru da estagnação econômica. Keiko, se eleita, pretende seguir o modelo de livre mercado para tentar manter a estabilidade no segundo maior produtor de cobre do mundo. Castillo quer, por meio da reforma constitucional, fortalecer o papel do Estado, obter uma parcela maior dos lucros das mineradoras e nacionalizar indústrias essenciais.

Para os analistas políticos, quem quer que seja eleito terá um mandato enfraquecido devido à polarização no Peru, e enfrentará um Congresso fragmentado, sem nenhum partido detendo a maioria, potencialmente atrasando quaisquer reformas importantes.

Com AFP e Reuters

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