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No segundo turno, Peru decide presidente dividido em extremos

Pesquisas apontam empate técnico entre o esquerdista Castillo e a direitista Keiko Fujimori

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Buenos Aires

Depois de um período presidencial (2016-2021) marcado por atropelos institucionais e com quatro titulares no comando, o Peru joga sua sorte numa eleição polarizada e incerta que tem tudo para prorrogar a instabilidade.

Neste domingo (6), num dos piores momentos da pandemia do coronavírus no país, os peruanos vão às urnas para decidir, em um segundo turno, entre o outsider esquerdista Pedro Castillo e a ex-congressista Keiko Fujimori, filha de um autocrata.

"É o pior segundo turno que já tivemos, com a certeza de que elegeremos alguém que não estará preparado para o cargo", diz o analista Alberto Vergara.

Apoiadores de Pedro Castillo acompanham seu último evento de campanha antes do segundo turno
Apoiadores de Pedro Castillo acompanham seu último evento de campanha antes do segundo turno - Liz Tasa - 3.jun.21/Reuters

​Segundo a pesquisa mais recente, realizada pelo instituto Ipsos, há um empate técnico. Castillo aparece com 51,1% dos votos, e Keiko, com 48,9%. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais. É preciso lembrar que ambos passaram ao segundo turno com votação baixa —Castillo com 19% e Keiko com 13%, num cenário fragmentado em que havia, ainda, outros 16 candidatos.

Quando a campanha para o segundo turno teve início, Castillo chegou a abrir mais de 10 pontos percentuais de vantagem sobre sua opositora. Keiko, porém, conseguiu apoios de alguns setores mais de centro e da direita e diminuiu a margem de vantagem do líder.

Os institutos de pesquisa, porém, reforçam que a rejeição, chamada no Peru de "antivoto", pode não permitir que os candidatos tenham somado muito mais eleitores na reta final. Segundo o instituto Datum, 48% dos entrevistados disseram que jamais votariam em Keiko; enquanto 42% afirmaram que nunca escolheriam Castillo.

Para Mike Reid, colunista da revista britânica The Economist, especialista em Peru e autor de "Forgotten Continent", ambos os candidatos, se eleitos, "podem não durar muito, porque estão prometendo coisas que não vão poder entregar".

No caso de Keiko, 46, a promessa é a de um novo momento econômico como o que o país experimentou a partir do boom de commodities, e depois da autocracia que foi o governo de seu pai, Alberto Fujimori (1990-2000), hoje condenado por crimes contra a humanidade e corrupção.

Segundo Reid, isso não seria possível por conta da gravidade da atual crise: a economia peruana foi a que mais sofreu o impacto da pandemia na América do Sul, caindo 11% em 2020, enquanto a pobreza aumentou 10%.

E outra razão é o fato de que "a Keiko de hoje é uma versão ainda menor, mais esvaziada da Keiko de eleições passadas" —em sua terceira tentativa de chegar ao poder, ela não é mais a líder de um partido majoritário no Congresso e responde a processos por corrupção.

No caso de Castillo, a promessa é a de uma espécie de refundação do país, com uma nova Constituição e um Estado intervindo de maneira intensa na economia e na educação. "Ele representa uma demanda por justiça social que é legítima, mas não tem como cumprir a promessa de acabar com as desigualdades do país", afirma Reid.

Castillo, 51, cuja candidatura despontou na última semana antes do primeiro turno, é um professor de esquerda que vem da região de Cajamarca, no norte do país. Nunca ocupou um cargo público e ficou conhecido por liderar, em 2017, uma greve nacional. Ele chefiava, então, o Conare, o sindicato dos professores, que tem ligações com o Movadef —braço político da guerrilha esquerdista Sendero Luminoso.

A guerra entre o Estado peruano e o Sendero Luminoso consumiu a vida de mais de 70 mil pessoas nos anos 1980 e início de 1990 e só foi concluída quando as milícias de camponeses conhecidas como "rondas campesinas" passaram a lutar ao lado do Exército. Castillo se diz um "rondero" e até hoje tem o apoio dos "ronderos" da região, que se dedicam a ajudar comunidades pobres em regiões rurais.

Curiosamente, Alberto Fujimori, quando se lançou candidato, era um completo desconhecido, mas cultivou seu apoio nos rincões rurais do país, aonde os adversários da elite limenha quase não iam. Ainda hoje há nessas regiões certa nostalgia do fujimorismo —pelas visitas que o ex-mandatário fazia e pelo crédito que recebe por ter pacificado a área, pondo fim à guerra contra o Sendero.

Castillo se define como um socialista, e suas promessas são de "refundar a economia de baixo para cima", como afirmou no último debate entre os dois candidatos. Sua plataforma passa por nacionalizar a energia e a indústria de mineração —o Peru é o segundo maior produtor de cobre no mundo.

A adversária dele, por sua vez, tem mais experiência política, embora pese contra ela o fato de ter conhecimento, sem ter tomado providências, sobre os abusos de direitos humanos e a corrupção que levaram à prisão os principais líderes do fujimorismo.

Aos 19, com o divórcio de seus pais, Keiko passou a atuar como primeira-dama. Foi congressista de 2006 a 2011. Depois, tentou ser presidente, em 2011, quando perdeu para Ollanta Humala, e em 2016, quando foi derrotada, com uma diferença muito pequena de votos, por Pedro Pablo Kuczynski, conhecido como PPK.

Na oposição, liderou o Força Popular, partido que conquistou 77 cadeiras no Congresso, unicameral e com 130 assentos. Com esse capital político, pôde pressionar pelo afastamento de PPK e de vários de seus ministros. Depois, foi acusada de corrupção, passou mais de um ano na prisão e ainda responde a processo por ter recebido subornos e caixa 2 durante suas campanhas presidenciais. Entre eles, da empreiteira brasileira Odebrecht.

Tanto Keiko quanto Castillo fizeram promessas de que não apelariam ao autoritarismo e que respeitariam tanto a propriedade privada (no caso dele) quanto as instituições (no dela). Os dois candidatos, porém, se parecem em alguns aspectos. Os dois são conservadores —contra o aborto, a ampliação de direitos da comunidade LGBTQ e o casamento gay.

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O novo Congresso eleito em abril está bastante fragmentado, mas a maior bancada pertence ao partido de Castillo, o Peru Libre, com 37 dos 130 deputados.

Para o analista Fernando Tuesta, "se Keiko ganhar, não haverá ruptura com o atual sistema". "O problema é que o atual sistema não funciona e está deteriorado. No curto prazo, terá a seu favor o empresariado e as Forças Armadas, mas sua relação com o Congresso e sua incapacidade de resolver os problemas do país farão com que a rejeição a ela, que já é alta, aumente".

Por outro lado, Tuesta acha que, em caso de vitória de Castillo, "não haverá comunismo ou chavismo no Peru, como propagandeiam alguns". "Não porque ele não queira, mas porque não será possível sem o apoio majoritário do Congresso e do empresariado. A ele faltam ideias, liderança e apoio. Se chegar ao fim de seu mandato, chegará de modo frágil".

Na sexta-feira (4), ao fim do dia, o atual presidente, Francisco Sagasti, pediu que a população compareça às urnas de acordo com os horários estabelecidos, para evitar aglomerações —a eleição está organizada por faixas horárias de acordo com o número de documento. "Fiz e continuarei fazendo de tudo para garantir que estas eleições sejam democráticas, pacíficas e livres e cumpriremos a promessa até o último dia do meu mandato."

Quem vencer o pleito deste domingo assume a Presidência em 28 de julho, quando o país comemora os 200 anos de sua independência.

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