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Economia argentina é um vulcão a ponto de estalar, diz Javier Milei, líder dos libertários

Candidato a deputado pelo Avanza Libertad, economista critica Mercosul, kirchnerismo e direito ao aborto

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Buenos Aires

Para o economista Javier Milei, a atual crise política argentina terá impacto direto na economia —e não há saída fácil para a situação. O candidato a deputado pela cidade de Buenos Aires é o líder dos libertários, novo grupo político que, nas primárias do último dia 12, obteve bom desempenho, com 13,64% dos votos.

Se repetir a performance, poderá levar a força de ultradireita a eleger de dois a quatro deputados na votação de 14 de novembro. Conhecido pelo perfil radical que exibe em programas de TV, o economista de cabelos desgrenhados foi cantor de rock e goleiro do time portenho Chacarita. Agora na política, apresenta ideias conservadoras, contra o feminismo, o direito ao aborto e a esquerda, por exemplo.

À Folha, por videoconferência, Milei, 50, comentou o convite do deputado federal Eduardo Bolsonaro para um encontro na capital argentina entre as “forças políticas anticomunistas do mundo”.

O economista argentino e candidato a deputado Javier Milei
O economista argentino e candidato a deputado Javier Milei - The News 24

Como o senhor analisa a crise política que surgiu a partir do resultado das eleições primárias? Em todos os lugares do mundo em que os governos disputaram eleições, perderam. Se olharmos por esse ângulo, não é uma surpresa. Mas, se levarmos em conta as especificidades do contexto argentino, tendo sido o país que pior lidou com a pandemia na região, em que a economia caiu o triplo do resto do mundo [9,9%, frente 3,5% na média global], além de estar entre os cinco países com maior quantidade de mortos por milhão de habitantes [a Argentina, na verdade, é o 11º, com 2.511 óbitos/1 milhão, atrás do Brasil, em nono, com 2.766/1 milhão, de acordo com o site de estatísticas Worldometers], mesmo tendo feito a maior quarentena do mundo, é muito clara a razão pela qual o governo perdeu essas eleições.

O que fez com que a crise escalasse foi o fato de o governo ter sido derrotado na província de Buenos Aires, bastião do peronismo e refúgio de Cristina Kirchner, local em que ela construiu a base do poder atual. A derrota ali gerou uma situação complicada do ponto de vista político. Cristina tentou descolar sua imagem de Alberto Fernández. Nesse movimento, colocou em questão a autoridade do presidente.

E qual seria o principal problema do país agora? A grande questão é o que vai acontecer na economia. A Argentina tem um desequilíbrio fiscal alinhado com as grandes crises de sua história. Há uma inflação reprimida, desequilíbrio cambiário, postos de trabalho destruídos. Temos 50% de pobres e 10% de indigentes. Isso significa que a Argentina é um vulcão a ponto de estalar.

O que é necessário para mudar essa situação? A alternativa da ala dura do governo, ou seja, do kirchnerismo liderado por Cristina, é promover maior desequilíbrio fiscal e financiar com emissão monetária. Isso será o equivalente a tentar apagar um incêndio com um exército de lança-chamas liderado por Nero. Ou seja, a erosão será ainda maior. A única possibilidade é fazer um ajuste. Mas para fazer um ajuste que não seja recessivo o governo precisa ter confiança. Este governo já perdeu a confiança e o respeito internacionais. Assim, só poderá fazer um ajuste que seja recessivo. A única maneira de reduzir o custo social de um ajuste é que o custo recaia sobre a casta política, não sobre os indivíduos. Como a atual casta política não vai querer fazer isso, o cenário que temos adiante é muito ruim.

Se o senhor for eleito deputado, o que crê ser possível fazer a partir do Congresso? O que proponho é uma discussão sobre a moral das distintas políticas que hoje movem o governo e o Congresso. Quero desmascarar os políticos delinquentes, imorais e que basicamente usam o poder para se servir dos cidadãos, não servi-los. O que podem ter certeza de que não vou fazer jamais é aumentar impostos, criar novos impostos, nem ir contra a propriedade e a liberdade. Apenas por não fazer essas coisas deixaremos toda a casta política do outro lado, porque eles fazem tudo isso.

O que proponho é bloquear os meios pelos quais os políticos recebem dinheiro de modo imoral e ilegal. Por exemplo, por meio das obras de construção públicas. Proporia um modelo de ação da iniciativa privada nessa área, como o chileno, ou uma reforma financeira que acabe com o Banco Central. O eixo seria sempre de índole moral. Vai ser muito importante que os libertários cheguem ao poder porque poderemos expor os políticos diante da sociedade como imorais, ladrões e ratos que são.

O que o senhor acha do atual funcionamento do Mercosul e de ações como as do governo do Uruguai, de buscar um tratado de livre-comércio com a China, por fora do Mercosul? O Mercosul já tem muitos anos e nada mais é do que uma união aduaneira de baixa qualidade que prejudica os cidadãos de todos os países. Deveria ser eliminado. Até aqui, só serviu para empresários aliados a políticos corruptos, não favoreceu as pessoas. É preciso avançar a um modelo como o chileno, permitindo acordos com vários países. Por que priorizar negócios junto com um bloco se podemos negociar com todo o mundo?

O que o senhor conversou com o deputado Eduardo Bolsonaro? Falamos rapidamente por videochamada, ele propôs uma reunião, na Argentina, entre os que estamos alinhados na luta contra o comunismo e o socialismo no mundo. Entre as forças políticas que são contra o Foro de São Paulo e o Grupo de Puebla.

Creio que temos diferenças, mas pensamos em comum em relação aos temas importantes. Para nós, libertários, a luta contra o socialismo é a mãe de todas as batalhas, e as demais podem ser discutidas depois. É bom que haja diferenças entre as forças anticomunistas, pois senão não existimos.

Se o senhor é um liberal, por que é contra a lei do aborto? Sou contra o aborto por questões filosóficas, biológicas e matemáticas. A razão filosófica tem a ver com o liberalismo. O liberalismo é, fundamentalmente, o respeito à vida. Do ponto de vista biológico, a vida começa no momento da fecundação, quando o novo ser já carrega uma herança genética. A partir desse momento, não é legal que a mãe decida sobre a vida do filho. Do ponto de vista matemático, a vida é uma continuidade entre dois pontos, quando se nasce e quando se morre. Qualquer interrupção feita nessa linha contínua por meio da força é um assassinato. O aborto é um assassinato agravado pelo vínculo.

Costumo explicar com uma metáfora. Se eu convido um amigo para viajar a Paris no meu avião, e no meio do Atlântico já não quero que ele esteja no meu avião, posso dizer que vá embora de repente? Posso atirá-lo do avião? Isso não é um assassinato? O aborto é a mesma coisa.

Mas e em casos de estupro, o senhor não acha que o aborto deveria ser legal? Não, porque você não pode reparar um delito com outro delito, a escalada de violência apenas pioraria. Se não existe o primeiro delito, não existe o segundo. A única situação em que creio que o aborto deva ser legal é o risco de morte da mãe. Mas nesse caso cada vez há mais desenvolvimento tecnológico para salvar as duas vidas.

Como o senhor crê que será a parte final da campanha? A atual crise poderá atrair eleitores? O kirchnerismo tem 30% do eleitorado que dificilmente mudará de ideia, que é muito fiel. Mas creio que há outro setor do eleitorado peronista que pode ter ficado ainda mais descontente com o governo devido a essa crise do ministério. Esperamos que parte desses votos possam vir para o Avanza Libertad.


raio-x

Javier Milei, 50
Ex-cantor de rock e ex-goleiro do time portenho Chacarita, formou-se em economica pela economia na Universidade de Belgrano e possui pós-graduação em teoria e economia. É candidato a deputado pela cidade de Buenos Aires pelo Avanza Libertad (libertários)

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