Belarus tira da fronteira cerca de 2.000 imigrantes e repatria 400

Também na quinta, cerca de 430 iraquianos embarcaram em Minsk para um voo de volta a Bagdá, o primeiro do tipo desde agosto.

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Bruzgi (Belarus) e Bruxelas | Reuters

A ditadura da Belarus começou a esvaziar nesta quinta (18) os dois principais acampamentos de migrantes presos em uma 'terra de ninguém' na fronteira do país com a Polônia, numa crise humanitária e diplomática que já dura dois meses.

Segundo o regime belarusso e agências de notícias, os imigrantes, a maioria vindos do Iraque, estão sendo levados a armazéns na região.

Os números são imprecisos, já que o acesso às zonas de fronteira entre Belarus e União Europeia estão bloqueados, mas há estimativas de que 10 mil estrangeiros estejam em território belarusso, com intenção de entrar na UE pelas divisas com a Lituânia, a Letônia e Polônia.

Migrantes se reúnem em torno de fogueira em um acampamento na fronteira da Belarus com a Polônia - Kacper Pempel - 18.nov.21/Reuters

Também na quinta, cerca de 430 iraquianos embarcaram em Minsk para um voo de volta a Bagdá, o primeiro do tipo desde agosto.

As sinalizações da ditadura de Lukachenko vêm após intensa pressão do Ocidente. A UE tenta interromper o que diz ser uma política do regime belarusso para empurrar migrantes em direção aos países do bloco.

A manobra seria uma forma de vingança por sanções aplicadas à Belarus após a repressão do regime a manifestantes que foram às ruas protestar contra a reeleição do ditador no ano passado em um pleito considerado fraudado.

À Reuters, um curdo iraquiano de 30 anos, que não quis ter o nome identificado, relatou que tentou cruzar a fronteira com a Polônia pelo menos oito vezes junto com a esposa. Pronto para embarcar rumo a seu país natal, disse que só estava viajando a pedido da mulher. "Ela não quer voltar comigo para a fronteira porque viu muitos horrores lá."

A companhia aérea nacional belarussa Belavia, segundo informações do regime, deixou de permitir que cidadãos de países como Afeganistão, Iraque, Líbano, Líbia, Síria e Iêmen embarquem em voos em Tashkent, no Uzbequistão, com destino a Minsk. Já o Líbano instruiu as companhias aéreas a permitir que apenas passageiros com vistos ou autorização de residência viajem para Belarus.

A Belarus propôs nesta quinta-feira (18) um plano para atenuar a crise migratória com a União Europeia. A estratégia do regime do ditador Aleksandr Lukachenko levaria a UE a receber 2.000 imigrantes, enquanto Minsk enviaria outros 5.000 de volta para os países de origem.

Segundo um porta-voz do regime, após conversa por telefone com o ditador belarusso, a primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, concordou em levar a proposta de criação de um corredor humanitário para discussão na UE. O governo alemão nega.

​O ministro do Interior da Alemanha, Horst Seehofer, afirmou que o país não aceitará imigrantes vindos da fronteira entre Belarus e Polônia. "Não vamos ceder à pressão", disse durante uma entrevista coletiva em Varsóvia após conversa com seu homólogo polonês.

Nesta sexta (19), o bloco europeu afirmou desconhecer a proposta.

Também nesta quinta, um migrante africano cuja identidade era desconhecida foi enterrado em um cemitério na Polônia, perto da fronteira com a Belarus —trata-se do segundo funeral de um migrante no local nesta semana.

A situação na fronteira gera preocupação da comunidade internacional em razão das frágeis condições humanitárias. ONGs locais calculam que ao menos oito pessoas morreram na fronteira nos últimos meses. Um casal de imigrantes disse ao Centro Polonês de Ajuda Internacional que seu bebê de um ano havia morrido na floresta.

Enquanto alguns migrantes voltam ao Iraque, centenas tentam cruzar a fronteira para adentrar o território da UE. A Polônia disse que o número de tentativas de cruzar sua fronteira com a Belarus subiu para 501 nesta quarta-feira (17), sendo que 200 imigrantes foram detidos após romper as barreiras. Em outro episódio, dezenas de pessoas atiraram pedras, ferindo três soldados e um policial.

O G7, grupo das economias mais ricas do mundo, criticou a Belarus por "orquestrar a migração irregular por meio das fronteiras" e pediu que Minsk suspenda o que chamou de uma "campanha agressiva". "Esses atos insensíveis estão colocando a vida das pessoas em risco", disse o grupo em comunicado divulgado nesta quinta.

Em uma sinalização incomum, o presidente russo, Vladimir Putin, aliado de Lukachenko, pediu nesta quinta que o regime inicie diálogos com a oposição democrática.

Durante discurso em Moscou, o líder do Kremlin disse estar perfeitamente ciente dos problemas domésticos do país. "Mas a Rússia certamente continuará sua abordagem de fortalecer os laços e aprofundar o processo de integração com a Belarus", afirmou.

Não ficou claro com quais figuras da oposição Putin estava encorajando Lukachenko a falar. Franak Viacorka, conselheiro de Svetlana Tikhanovskaia, principal candidata de oposição nas eleições do último ano, disse que a conversa poderia acontecer, desde que pré-requisitos sejam cumpridos. "Todos os presos políticos devem ser libertados como uma pré-condição, e a violência deve acabar."

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