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Putin diz querer evitar conflito com Ucrânia, mas pede garantias do Ocidente

Líder russo encara maratona de quatro horas em entrevista coletiva anual e discorre sobre pandemia e valores tradicionais

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Moscou | Reuters

A Rússia quer evitar um conflito com a Ucrânia, disse o presidente Vladimir Putin nesta quinta (23), mas precisa de uma resposta imediata dos EUA e de seus aliados às demandas por garantias de segurança.

A declaração foi dada durante a tradicional entrevista coletiva de fim de ano do líder russo, uma maratona de perguntas a que Putin se submeteu por quase quatro horas, sentado em frente a uma plateia de jornalistas usando máscaras, em um palco no centro de exposições Manezh, perto do Kremlin.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante a entrevista coletiva de fim de ano, em Moscou
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante a entrevista coletiva de fim de ano, em Moscou - Evgeny Sinitsyn/Xinhua

A Ucrânia está no centro das tensões depois de Washington e Kiev acusarem Moscou de planejar um novo ataque contra o país vizinho —a Rússia anexou em 2014 a península ucraniana da Crimeia.

Putin, contudo, rejeita as especulações de que estaria preparando uma invasão para o próximo mês, geradas após posicionar dezenas de milhares de soldados próximos à fronteira da ex-república soviética. "Esta não é a nossa escolha [preferida], não queremos isso", disse o presidente russo.

O líder do Kremlin afirmou ainda ter recebido uma resposta positiva às propostas de segurança que entregou aos EUA neste mês, para neutralizar a crise atual, e se mostrou esperançoso com a perspectiva das negociações com o governo de Joe Biden, que devem começar no início do próximo ano, em Genebra.

Em uma resposta separada, porém, Putin ficou agitado ao lembrar como a Otan, a aliança militar do Ocidente, "enganou descaradamente" a Rússia com ondas sucessivas de expansão desde a Guerra Fria.

"A Otan nos deve garantias —e agora. Apenas colocamos diretamente a questão de que não deveria haver mais movimento da Otan para o leste. A bola está do lado deles, eles deveriam nos responder com algo."

Essas garantias seriam a promessa de não conduzir atividades militares da aliança na Europa Oriental, porque a segurança russa estaria ameaçada pelos laços da Ucrânia com o Ocidente e pela possibilidade de mísseis da Otan serem lançados contra o território russo a partir da Ucrânia.

"O que não está claro aqui? Estamos colocando mísseis perto das fronteiras dos Estados Unidos? Não, são os Estados Unidos que vieram até nós com seus mísseis, eles já estão à nossa porta."

As tensões com Kiev levaram as relações Leste-Oeste ao seu pior momento nas três décadas desde o colapso da União Soviética. Os EUA, a União Europeia e o G7 alertaram Putin que ele enfrentará graves consequências, incluindo duras sanções econômicas, caso ocorra qualquer nova agressão russa.

Putin ainda deixou claro que não via o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, como um parceiro de negociação, acusando-o de agir sob a influência de "forças nacionalistas radicais".

Putin responde a perguntas em entrevista coletiva anual, em Moscou - Natalia Kolesnikova -23.dez.2021/AFP

A chanceler britânica, Liz Truss, condenou a "retórica agressiva e inflamada" do Kremlin em relação à Ucrânia e à Otan, mas ficou satisfeita com a disposição de Moscou em participar das discussões. Em uma nota divulgada após a entrevista, a chefe da diplomacia britânica insistiu que "o reforço da capacidade militar russa em suas fronteiras com a Ucrânia e na Crimeia anexada ilegalmente é inaceitável".

"Qualquer incursão russa seria um grave erro estratégico e será combatida com força", disse ela.

Pandemia e valores russos

Segundo o site The Moscow Times, devido às restrições impostas pela pandemia de Covid, os meios de comunicação não puderam se credenciar para a entrevista coletiva pela primeira vez desde que ela passou a ser realizada, em 2001. Em vez disso, o Kremlin escolheu cerca de 500 jornalistas internacionais e nacionais para participar do evento. Diversos veículos críticos independentes, incluindo o Novaia Gazeta —cujo editor-chefe recebeu o Nobel da Paz neste ano— disseram não ter recebido convite.

Putin também foi questionado sobre outros temas, dentre os quais a crise sanitária, a atuação da imprensa estrangeira em território russo, a cultura do cancelamento e até sua relação com o Papai Noel.

Sobre o primeiro tópico, afirmou que a imunidade coletiva da Rússia está agora em 59,4%, mas é necessário que chegue a 80%, o que, diz ele, deve ser alcançado em meados de 2022. Também defendeu a distribuição rápida de vacinas, para que o mundo não precise conviver com o vírus "todo o tempo".

A Rússia tem só 45% dos adultos totalmente vacinados. O baixo nível de imunização, para Putin, é responsável pela alta cifra de mortes por Covid no país —segundo dados compilados pela Universidade Johns Hopkins, foram registrados 295.296 óbitos, mas há a suspeita de forte subnotificação.

Mesmo admitindo que a Rússia experimenta uma "redução na expectativa de vida" e um "aumento na mortalidade" devido à pandemia, o presidente russo reafirmou a posição contrária à obrigatoriedade da inoculação, dizendo que quem não quer receber a injeção deve ser tratado respeitosamente.

Questionado sobre a repressão à oposição, Putin respondeu que não se trata de amordaçar críticos, mas de interromper as operações de influência estrangeira. "Recordo a vocês o que nossos adversários falaram durante séculos: a Rússia não pode ser derrotada, só pode ser destruída por dentro."

Nesta área, o ano começou com a detenção do principal opositor do Kremlin, Alexei Navalni, que sobreviveu a um envenenamento que, para o ativista, teria sido ordenado pelo governo russo. Posteriormente, o movimento liderado por Navalni foi proibido e acusado de extremismo.

Na entrevista coletiva, Putin o chamou de "vigarista", em referência à condenação em um caso de fraude, considerado forjado pela oposição. "Sempre existiram vigaristas. Não há necessidade de cometer crimes."

Ao discorrer sobre a presença da imprensa estrangeira na Rússia, afirmou não proibir a atuação de organizações de fora do país, mas disse querer saber a origem do financiamento dos veículos.

Putin também repetiu seu conhecido desdém por valores ocidentais e defendeu ideias conservadoras, em resposta a uma pergunta da emissora estatal RT sobre a cultura de cancelamento e a controvérsia em torno dos comentários feitos pela autora de "Harry Potter", JK Rowling, e considerados transfóbicos.

"Sigo a abordagem tradicional: uma mulher é uma mulher, um homem é um homem, uma mãe é uma mãe, um pai é um pai", disse ele, acrescentando que esperava que os russos tivessem defesas suficientes contra o "obscurantismo" da fluidez de gêneros. O líder russo também comparou a cultura de cancelamento ao coronavírus, afirmando que "novas variantes aparecem com frequência".

Assim, para ele, seguir os valores tradicionais seria o "antídoto" proposto pela Rússia.

Em um tom mais leve, Putin agradeceu à versão russa do Papai Noel, que distribui presentes na véspera de Ano-Novo, por ajudá-lo a se tornar presidente. "Agradeço por poder falar com você na minha capacidade [como presidente], mas sou ainda mais grato ao povo russo que confiou em mim para esta função", disse ele, quase 22 anos após a sua chegada ao Kremlin, em 31 de dezembro de 1999.

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