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Putin publica ultimato para negociar crise na Ucrânia com a Otan

Com tropas na fronteira, Rússia joga com termos inaceitáveis para extrair concessões

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São Paulo

A Rússia publicou nesta sexta (17) um ultimato aos Estados Unidos e seus parceiros na aliança militar Otan, detalhando suas condições para reduzir a tensão na crise centrada na Ucrânia.

As demandas eram conhecidas, mas colocadas no site do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, com um pedido para que negociações comecem em Genebra neste sábado (18), ganharam um tom que mistura dramaticidade e farsa.

Soldado ucraniano em trincheira sob a neve na linha de frente em Avdiivka, na região de Donetsk
Soldado ucraniano em trincheira sob a neve na linha de frente em Avdiivka, na região de Donetsk - Oleksandr Klimenko/Reuters

Drama porque, com cerca de 100 mil soldados próximos das fronteiras ucranianas, a Rússia tem deixado o Ocidente em alarme acerca do risco de uma invasão que o presidente Vladimir Putin diz não ter intenção de conduzir. Ele aponta a crescente atividade militar ocidental e fornecimento de armas a Kiev como razão de suas ações.

O risco de algo dar errado numa situação dessas sempre é enorme, ainda mais com o clima hostil nas áreas ocupadas por rebeldes pró-Rússia no leste do país. Nesta sexta, um soldado de Kiev foi morto numa escaramuça fronteiriça com separatistas, se unindo às talvez 14 mil vítimas da guerra civil ora em ponto morto por lá.

A parte farsesca da história é a certeza de que nem Moscou acredita nas exigências que apresentou à diplomacia americana nesta semana. Em resumo, Putin quer que a Aliança do Tratado do Atlântico Norte retire propostas feitas em 2008 para o ingresso no clube de Ucrânia e Geórgia —e, aliás, de qualquer outro ex-Estado soviético cujo território sirva de tampão entre forças ocidentais e russas.

Essa é a prioridade estratégica que Putin quer alcançar, ponto reforçado com suas guerras na própria Geórgia, em 2008, e na Ucrânia, em 2014.

A Otan já rejeitou os termos, mas pode ceder na prática, e parece ser nisso que o russo aposta. Outra condição é inaceitável para os ocidentais: retirar todo armamento de Estados que entraram na aliança depois de maio de 1997.

Ou seja, justamente aqueles ex-comunistas e ex-soviéticos que aderiram ao Ocidente num momento de fraqueza estratégica russa, no caos que se seguiu à extinção do regime em Moscou em 1991. Entre eles, a agressiva Polônia e os três vitais Estados bálticos, que fazem fronteira direta com a Rússia e passaram boa parte do século 20 ocupados pelo Kremlin.

Não há chance de isso ocorrer. Já um item pode ser consensual, caso haja negociação: o compromisso de não instalar mísseis com capacidade nuclear de alcance intermediário na Europa, aqueles que eram banidos por um tratado abandonado pelos EUA em 2019.

Na prática, pouco muda: a Rússia tem os seus instalados no encrave de Kaliningrado e na Crimeia, segundo relatos, e a Otan pode posicioná-los distante de fronteiras ou contar com armas de mais longo alcance.

A questão do "quantos minutos leva para atingir Moscou" tem um efeito mais psicológico do que efetivo, no fim. O que importa, do ponto de vista russo, é evitar que Kiev, Tbilisi e outras capitais tenham comandos da Otan e tropas nos respectivos países, pois isso sim é percebido como ameaça estratégica.

Com os europeus algo atordoados, sobram os EUA. A Casa Branca, segundo informações anônimas repassadas à imprensa americana, obviamente não gostou do tom porque esperava discutir os termos russos na semana que vem. Já adiantou que há coisas inaceitáveis, claro, mas que se houver uma redução na tensão será mais fácil conversar.

Oficialmente, a porta-voz do presidente Joe Biden, Jen Psaki, manteve o tom duro e disse que a Rússia poderia "esperar um preço alto a pagar" caso invadisse a Ucrânia. O vice-chanceler russo, Dmitri Riabkov, afirmou a repórteres que não havia uma data-limite para conversas, mas que elas poderiam "acontecer amanhã" (sábado).

O que vem a seguir ainda é incerto. O diretor do Centro Carnegie de Moscou, Dmitri Tremin, postou no Twitter que o Kremlin divulgou os termos porque sabe que eles são inalcançáveis. Pessimista, ele crê que Putin pode tentar resolver a situação à força.

Como isso ocorreria é incerto. Em 2014, os russos anexaram a Crimeia logo após Kiev ver o governo pró-Moscou derrubado. Com isso, ajudaram a impedir a adesão ucraniana às estruturas ocidentais, Otan à frente, que não aceitam países com disputas territoriais ativas.

Além disso, na Crimeia fica a sede da Frota do Mar Negro, principal força de projeção russa rumo ao Mediterrâneo. A base, em Sebastopol, era alugada por décadas —mas poderia correr o risco de estar em um país da Otan, algo também indesejável para o Kremlin.

Já o apoio aos rebeldes pró-Rússia no leste não foi tão decisivo, até porque o custo de mais uma anexação talvez fosse impagável —e a área conhecida como Donbass era menos coesa em termos étnicos russos do que a península absorvida.

Com seus homens, tanques e mísseis, Putin mistura elementos de truco a seu xadrez. Como no carteado, está subindo a aposta a cada rodada, blefe ou não. Ele já havia inclusive feito o movimento militar em abril, só para recuar ao ver Kiev afastada de um ensaio de retomada do Donbass. Há um preço para isso, também.

Uma sinalização mais objetiva veio do regulador do sistema de transmissão energética da Alemanha. O órgão disse que é possível que o gasoduto Nord Stream 2, que liga o país à Rússia, só seja autorizado a operar em junho de 2022.

Os preços do gás natural subiram com a notícia. A Rússia fornece 40% do produto consumido na Europa, e o novo duto, finalizado em setembro, permite reduzir e muito o trânsito dele por ramais que passam pela Ucrânia —deixando bilhões de dólares em pedágio.

Tanto Berlim como Moscou dizem que as questões na mesa são técnicas, mas o impacto no xadrez em curso no Leste Europeu é evidente: os alemães podem refrear, por ora, um instrumento de pressão de Putin. O problema é que eles bancaram o projeto, e a situação não deve se prolongar indefinidamente.

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