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Europa assiste impotente a Putin levar a crise da Ucrânia à mesa de Biden

Com ação americana duvidosa, cresce a possibilidade de Kiev ser servida no altar da acomodação

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São Paulo

O atual estágio da crise na Ucrânia, com Vladimir Putin emitindo ultimatos que a Otan não irá cumprir e elevando o risco de um conflito no Leste Europeu, tem um grande ausente: o continente em que uma eventual guerra seria travada.

Não que a Otan, a Aliança do Tratado do Atlântico Norte na sigla inglesa, não tenha se manifestado. Seu secretário-geral, o norueguês Jens Stoltenberg, falou grosso na sexta (10) ao rechaçar os termos colocados pelo Kremlin para acabar com a expansão da aliança militar a leste.

Soldado russo participa de treinamento perto da fronteira da Ucrânia, em Kamadovski
Soldado russo participa de treinamento perto da fronteira da Ucrânia, em Kamadovski - Serguei Pivovarov - 10.dez.2021/Reuters

Mas isso diz pouco, ou nada. Governos europeus, do estridente francês Emmanuel Macron em plena campanha eleitoral à incógnita Olaf Scholz em seus primeiros dias à frente da Alemanha, pouco tiveram de fato a dizer sobre o desenrolar da crise.

O presidente russo é conhecido como um grande jogador tático, aproveitando oportunidades, mais do que um líder com pensamento estratégico claro. Isso se provou em 2014 na própria Ucrânia, quando Putin abocanhou o território historicamente russo da Crimeia e semeou uma guerra civil para impedir que uma Kiev pró-Ocidente se tornasse de fato ocidental.

Leia-se nisso entrar na Otan, mais do que na União Europeia. É um jogo conhecido desde 2008, quando a Rússia aproveitou o voluntarismo do governo da Geórgia, que buscou integrar áreas russas étnicas a seu jugo, e a submeteu a uma derrota militar.

Por mais incerta que seja a estratégia final de Putin, ela respeita uma prerrogativa: restaurar minimamente as fronteiras tampão dos tempos dos czares e da União Soviética para afastar forças adversárias de seu território.

A arma é clara: ameaçar Kiev com o uso da força, mesmo que seja um blefe devido ao alto risco que uma guerra traria. Nas TVs russas, dominadas pelo Kremlin, é mais importante parecer forte do que ser.

O que não significa que a musculatura disponível seja desprezível. Os 100 mil soldados em prontidão no Distrito Militar do Ocidente podem não ser suficientes para conquistar a Ucrânia, mas sim para garantir a segurança das áreas pró-Rússia dominadas por rebeldes de forma autônoma desde 2014 no Donbass, o leste ucraniano.

A União Europeia, atabalhoada com a crise dos refugiados que a Polônia atribuiu a Putin na ditadura amiga da Belarus, mal teve tempo de soltar alguma nota empolada de apoio a Kiev. O líder russo, ciente de sua posição de força, levou o problema para a mesa de Joe Biden, o recalcitrante presidente norte-americano.

Até então, a Ucrânia era tratada no chamado formato Normandia: Moscou, Kiev, Paris e Berlim sentavam à mesa. Disso saíram os acordos de Minsk, por fim rejeitados pelos ucranianos por manter a autonomia dos rebeldes e alijar o país do desejo de ser parte da Otan —os 30 membros do grupo não podem ter questões territoriais sérias pendentes.

Com a cúpula virtual realizada com Biden na terça (7), Putin enterrou esse modelo. Levou o abacaxi para o americano descascar, tirando na prática os europeus da equação —claro, a Casa Branca anuncia consultas extensas com aliados no continente, mas o problema agora é dela.

É uma jogada que explora as divisões e suspeitas dos membros da Otan acerca do comprometimento de Biden. O democrata não é o antecessor, Donald Trump, que basicamente declarou a obsolescência dos mecanismos de diálogo transatlântico durante o seu mandato.

Por toda sua histrionice e falta de visão estratégica, o republicano lancetava um tumor incômodo: a dependência europeia dos Estados Unidos em termos de defesa. Com isso, mais países do bloco militar buscaram se aproximar da meta de gastar 2% do PIB no setor.

Com efeito, a maior parte deles é composta por nações do Leste Europeu, ciosas da história e da visão russa acerca da função geoestratégica da vizinhança. Mas seus esforços são limitados: a Polônia tem forças relativamente capazes, mas os países do Báltico dependem de aviões alheios para patrulhar seu congestionado espaço aéreo.

Mas Biden também é mais Trump do que Trump, em seus movimentos para direcionar os esforços americanos para a contenda da Guerra Fria 2.0 contra a China, deixando a Europa insegura acerca de seus desígnios.

Além disso, há uma coleção de disputas internas no bloco, de gregos e franceses contra turcos, para começar.

Para ficar nos gigantes europeus, Macron tentará a reeleição em 2022, logo pode se esperar algum barulho público. Mas forças expedicionárias francesas em Kharkiv, isso seria uma novidade. Já Scholz pode apertar o pescoço energético de Putin atrapalhando o início da operação do gasoduto Nord Stream 2, mas o fato é que a obra é um projeto de décadas do interesse de Berlim.

O Reino Unido de Boris Johnson, por toda sua bravata do "Global Britain" e a excursão de seu novo porta-aviões, tem tantos problemas internos que parece improvável algo mais assertivo do que frases de efeito sobre o vilão predileto em Moscou.

Com o ultimato de Putin tomando forma de uma profecia autorrealizável, na qual o Kremlin diz que tentou negociar e o Ocidente rejeita facas no pescoço, sobrará à Europa uma posição de subordinação ao que for decidido em Washington.

Até aqui, as cartas foram dadas por Moscou, levando à possibilidade de que Kiev seja servida no altar da acomodação europeia.​

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