Invasão da Ucrânia tem semelhanças com guerras recentes, da Bósnia ao Iraque

Crise atual repete elementos de conflitos nos últimos 30 anos

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Guarulhos

Muitas das condenações de líderes Ocidentais à invasão da Ucrânia pela Rússia apontavam para o fato de Vladimir Putin ter "trazido a guerra de volta à Europa" —palavras de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia.

Ainda que as sombras da Guerra Fria talvez sejam um dos principais elementos para entender o pano de fundo da crise, guardadas as devidas proporções e contextos, o atual conflito evoca outros que assombraram o continente nos últimos 30 anos, como as guerras da Bósnia (1992), de Kosovo (1999) e da Geórgia (2008).

Os conflitos, ocorridos após a dissolução da União Soviética e com saldo de mortos total que pode chegar a 1 milhão, têm elementos que em certa medida estão presentes na Ucrânia hoje —disputas étnicas, participação da Otan (aliança militar ocidental), capacidade de organização militar russa e a disposição dos EUA de interferirem (ou não) na situação.

Soldado da Ucrânia fala ao telefone enquanto caminha por um prédio residencial destruído no subúrbio da capital Kiev - Daniel Leal - 25.fev.22/AFP

GUERRA DA BÓSNIA (1992 A 1995)

O conflito civil que deixou mais de 100 mil mortos, está inserido no longo processo de desintegração da Iugoslávia, que aglutinou uma infinidade de nações. O fim da União Soviética foi alavanca decisiva para que os movimentos separatistas regionais ganhassem força.

Depois de Eslovênia, Croácia e Macedônia alcançarem suas independências, foi a vez de Bósnia e Herzegovina, região complexa devido à multiplicidade de etnias. O conflito foi marcado pela tentativa de limpeza étnica da população muçulmana, no maior genocídio em território europeu no pós-guerra.

Tanto a Bósnia quanto a Ucrânia, países descendentes de povos eslavos, são Estados multinacionais, explica Angelo Segrillo, professor de história contemporânea da USP especializado em Rússia. "Isso cria uma riqueza sociocultural, mas também potenciais conflitos étnicos."

O último censo ucraniano diz que mais de 130 nacionalidades e grupos étnicos convivem no país, a maioria ucraniana (77%) e russa (17%). Vladimir Putin diz que a população dos países constitui "um só povo", e duas regiões de maioria russa do leste da Ucrânia, no Donbass, autoproclamaram-se independentes e foram reconhecidas por Moscou.

GUERRA DE KOSOVO (1998 A 1999)

Também parte do imbróglio da ex-república socialista da Iugoslávia, a província de Kosovo, de maioria albanesa e minoria sérvia, tentou proclamar sua independência. A reação iugoslava, sob o comando de Slobodan Milosevic, foi brutal. Mais de 10 mil morreram, e centenas de milhares ficaram desabrigados ou emigraram.

A Otan, no centro do conflito atual, interveio e, sem mandato específico do Conselho de Segurança das Nações Unidas, enviou tropas para a região. O Kosovo só viria a se tornar independente, de fato, em 2008, mas a participação ocidental no conflito teve peso histórico.

A intervenção foi um dos maiores exemplos da predisposição da Otan, que ao mesmo tempo engolfava Polônia, Hungria e República Tcheca, para mexer no xadrez do Leste Europeu. Isso contribuiu para a frustração dos russos, que, de 1991 a 1998, ensaiaram uma proximidade com o Ocidente, explica Pedro Feliú, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP.

"Houve uma tentativa de aproximação, mas os EUA viraram as costas, mesmo que entre lideranças americanas tenha havido divergências sobre a necessidade e o quão estratégico seria a expansão da Otan", diz. "Esse fator abriu espaço para o avanço do ultranacionalismo russo." Vladimir Putin, que chegou à Presidência em 1999, é fruto desse sentimento.

GUERRA DA GEÓRGIA (2008)

A pequena ex-república soviética na região do Cáucaso foi invadida pela Rússia primeiro porque estava há muito no satélite da Otan, e o governo russo quis impedir que o país se somasse à aliança militar; e segundo porque o governo do georgiano Mikheil Saakashvili, aliado do Ocidente, tentou incorporar duas áreas de maioria étnica russa: Abkházia e Ossétia do Sul.

O governo russo respondeu. Morreram cerca de 1.100 pessoas, sendo 400 civis, e aproximadamente 200 mil perderam seus lares no conflito.

Primeiro, a guerra foi um contundente exemplo da disposição russa em contrabalancear o poderio americano na região, destaca Feliú. Além disso, se havia uma Rússia enfraquecida nos conflitos da Bósnia e de Kosovo, aqui o país já vira despontar sua capacidade de organização militar e investira na renovação das Forças Armadas.

GUERRA NA SÍRIA (DESDE 2011)

A guerra civil síria pode não ter relação territorial com a Rússia, mas isso não significa que não tenha tido a participação de Moscou —os russos são um dos principais atores do conflito. A crise, que começou com levantes populares que pediam o fim da ditadura de Bashar al-Assad, perdura até hoje, e o terrorismo, com a participação de grupos como o Estado Islâmico (EI), se somou ao conflito.

O governo de Putin dá suporte à ditadura de Assad —o sírio, aliás, foi um dos poucos que manifestaram apoio à invasão da Ucrânia. O Centro de Documentação de Violações sírio diz que pelo menos 7.300 mortes de civis e combatentes na guerra podem ser atribuídas a forças russas.

Uma das principais desavenças russas na região é com a Turquia, que apoia forças locais contra a ditadura de Assad. A Turquia é membro da Otan e funciona como uma espécie de fronteira de contenção à influência russa no Oriente Médio. "O conflito é emblemático do poderio militar de Putin para ir um pouco além do entorno estratégico do Leste Europeu", diz Feliú.

A oposição turca à influência de Putin fica clara também na Ucrânia. O país condenou a ação militar russa e tem sido instado pela chancelaria ucraniana e pelo presidente Volodimir Zelenski a apoiar o país.

GUERRA DO IRAQUE (2003 a 2011)

Alegando que o Iraque possuía armas de destruição em massa —argumento que cairia por terra anos depois—, os EUA invadiram o país em 2003 e derrubaram o ditador Saddam Hussein. As tropas americanas permaneceram no país e foram retiradas em 2011. Retornaram, porém, em 2014, para combater o Estado Islâmico (EI).

O conflito conversa menos com a Rússia e mais com os EUA, principais atores da Otan. Isso porque é um exemplo do interesse americano em empregar força militar numa crise. Feliú, da USP, lista três elementos que pesaram para o interesse no Iraque: 1) lobby doméstico, especialmente de empresários; 2) interesse estratégico pelas reservas de petróleo e 3) a política externa que prioriza Israel (rival do Iraque).

Além de sanções a empresas e indivíduos russos, da venda de armas para a Ucrânia e do envio de tropas para o entorno estratégico, o governo americano não parece disposto a investir com maior intensidade na defesa ucraniana. Em parte porque o país não é membro da Otan —a própria aliança havia dito que não enviaria tropas justamente por esse motivo no caso de uma invasão.

Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do publicado em versão anterior deste texto, a Iugoslávia não fez parte da União Soviética. A informação foi corrigida.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Leia tudo sobre o tema e siga:

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.