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Covid pode atrapalhar os planos de Xi Jinping para 3º mandato na China?

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Igor Patrick
Pequim

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O jornal americano The Wall Street Journal publicou uma longa reportagem nesta semana relatando que o premiê do país, Li Keqiang, trabalha nos bastidores para influenciar a escolha de seu sucessor. A ideia é ter um primeiro-ministro que faça frente a Xi Jinping.

Em 2018, Xi conseguiu remover o limite de mandatos da Constituição (até então, um secretário-geral só podia permanecer no cargo por no máximo dois mandatos de cinco anos). Embora a decisão tenha sido aprovada por unanimidade pela Assembleia Nacional do Povo, como é praxe, o movimento não agradou algumas alas do partido.

  • Desde então, Xi trabalha para consolidar seu poder internamente e prepara terreno para um terceiro mandato a partir do final deste ano;
  • Para garantir um processo tranquilo, reforçou a política de "Covid zero" e ativou a máquina de propaganda para alardear o sucesso do governo em proteger as pessoas.
O líder chinês, Xi Jinping, à frente, e o premiê Li Keqiang, no Grande Salão do Povo, em Pequim
O líder chinês, Xi Jinping, à frente, e o premiê Li Keqiang, no Grande Salão do Povo, em Pequim - Leo Ramirez - 8.mar.22/AFP

Funcionou até a chegada da ômicron, variante muito mais contagiosa que as anteriores. Agora, segundo o jornal americano, citando fontes no alto escalão do poder na China, oficiais ligados à Liga da Juventude Comunista, órgão que tem elos com o antecessor de Xi, Hu Jintao, estariam se movimentando para limitar a influência do atual líder.

O Wall Street Journal cita a visita do premiê Li Keqiang a big techs no mês passado como um sinal dessa disputa interna. Essas empresas foram duramente atingidas por regulamentações que limitaram o crescimento e o escopo das atividades de empreendimentos como o gigante do comércio eletrônico Alibaba e a companhia de caronas compartilhadas Didi –dona da 99 no Brasil.

"Fontes no centro do poder disseram que as visitas de Li e sua equipe serviram para sinalizar que a repressão de Xi prejudicou o emprego e o crescimento. Li é a força motriz por trás da mudança", reportou o jornal, citando oficiais do partido.

Em novembro, o Congresso Nacional do Povo decide se mantém ou escolhe uma nova liderança do país, além de selecionar os nomes para o Politburo, para o Comitê Militar Central e para o Comitê Permanente da Assembleia Nacional, três dos principais órgãos decisórios na estrutura burocrática chinesa.

Por que importa: se em 2021 alguém dissesse que a hegemonia de Xi estaria ameaçada a meses da escolha da liderança do país, qualquer sinólogo ou analista da China consideraria a afirmação maluca.

Esse não parece mais ser o caso. Se o caos do lockdown em Xangai se espalhar pelo país, as possibilidades de Xi não consolidar as condições para um terceiro mandato ou mesmo de ser forçado a trabalhar com um Politburo hostil são grandes. As consequências políticas certamente seriam sentidas ao menos pelos próximos cinco anos.

o que também importa

Após cumprir uma sentença de cinco anos pelo "crime de subversão", um ativista taiwanês foi libertado nesta semana de uma prisão chinesa.

Lee Ming-che visitava a China em 2017 quando desapareceu. Conhecido pelo histórico de defesa dos direitos humanos, Lee foi levado para uma prisão na província de Hunan.

Ele relatou ter sido forçado a trabalhar longos turnos na fabricação de itens como bolsas e sapatos. Além disso, em mais de uma ocasião ele teria recebido comida estragada e teve o pedido de visita ao funeral do pai negado.

Nas primeiras declarações após a libertação, o ativista disse ter sido coagido a confessar os crimes dos quais era acusado. Segundo o site Supchina, as razões exatas pelas quais ele foi preso nunca ficaram claras —especula-se que suas conversas sobre democratização de Taiwan com amigos chineses provavelmente tenham sido monitoradas por Pequim.

Em uma breve nota à imprensa, Lee exortou ativistas taiwaneses a serem mais cuidadosos nas interações com contatos chineses. A localização atual dele não foi revelada.

Lee Ming-che, ativista taiwanês pela democracia que estava preso na China havia cinco anos, durante entrevista coletiva em Taipei
Lee Ming-che, ativista taiwanês pela democracia que estava preso na China havia cinco anos, durante entrevista coletiva em Taipei - Sam Yeh - 10.mai.22/AFP

Após pedir que o governo chinês reavalie a sua política de "Covid zero", o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom, foi censurado nas redes sociais da China.

Adhanom disse à imprensa que, "considerando o comportamento do vírus e o que prevemos no futuro", a "abordagem da China não será sustentável". A fala repercutiu na China e se espalhou pela internet.

Desde o início da semana, quem tenta acessar o vídeo recebe uma mensagem dizendo que o link "violou leis e regulamentos nacionais". A busca pela hashtag #Tedros no Weibo, espécie de Twitter chinês, encaminha para uma página sem resultados.

Além da censura digital, a China também reagiu oficialmente às falas do diretor da OMS. O jornal Global Times, ligado ao PC, chamou a declaração de "irresponsável", enquanto o Ministério das Relações Exteriores pediu que Tedros evitasse "comentários levianos".

fique de olho

Pesquisadores da Universidade Fudan de Xangai, estimaram que "viver com o vírus" da Covid-19 pode resultar em 112 milhões de infecções sintomáticas, 2,7 milhões de internações em terapia intensiva e quase 1,6 milhão de mortes entre maio e julho.

O estudo reforça a necessidade de controlar a transmissão e ajuda a respaldar a decisão do Comitê Permanente do Politburo, que na semana passada indicou a continuidade da estratégia de "Covid zero" no médio prazo.

Por que importa: A China tem um dos piores índices de leitos de UTI no mundo: apenas 3,6 a cada 100 mil habitantes –a maioria dos quais concentrada nas grandes cidades. Conviver com o vírus inclui aceitar um número considerável de mortes e caos no sistema hospitalar, algo que, ao menos por hora, a liderança chinesa não parece disposta a pagar para ver.

para ir a fundo

  • Para seu evento internacional mensal, a Observa China recebe neste sábado (14) a pesquisadora Francesca Staiano, diretora do Centro de Estudos da China da Universidade Nacional de La Plata. Ela falará sobre relações sino-latino-americanas. (gratuito, em inglês)
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