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A dívida de Doria

Informações atestam que resultados do tucano nas filas da saúde deixam a desejar

Funcionamento do Corujão da Saúde em hospital particular de São Paulo, em janeiro de 2016
Funcionamento do Corujão da Saúde em hospital particular de São Paulo, em janeiro de 2016 - Ronny Santos - 11.jan.16/Folhapress

Para fazer justiça, cabe de partida destacar que a espera por exames e consultas médicas caiu durante a curta gestão de João Doria (PSDB) na prefeitura paulistana. No final de 2016, a fila por exames de imagens tinha mais de 485 mil pessoas; hoje, não chega a 86 mil.

Alcançou-se a redução com recurso à capacidade ociosa noturna de hospitais privados, por meio do programa Corujão da Saúde. Embora elogiável, esse progresso não significa que o serviço atingiu um bom patamar de qualidade.

O padrão aceitável de desempenho teve sua formulação por parte do próprio Doria, que deixou o cargo de prefeito para concorrer ao de governador. Em mais de uma ocasião, desde a campanha, anunciou que sua meta era não deixar ninguém aguardando mais de 60 dias por consulta ou teste diagnóstico.

Informações recolhidas por esta Folha por meio da Lei de Acesso à Informação atestam que, por essa métrica, os resultados do tucano deixam a desejar. Em fevereiro passado, 80% dos paulistanos que precisavam de um exame ainda tinham de aguardar mais de dois meses para realizá-lo —72% por 61 a 180 dias e 8% por 180 dias ou mais.

No que respeita a consultas com médicos, o caso se mostra desesperador. Inaceitáveis 94% dos pacientes ficam na fila pelo prazo de 61 a 180 dias. E, quando as pessoas aguardam por uma avaliação pré-cirúrgica, apenas 25% terminam atendidas em menos de dois meses.

Mais que isso, há indícios de que o serviço pode ter piorado, de julho para fevereiro, em alguns exames.
Em que pesem os avanços, muito ainda resta por fazer. O cartucho empresarial do Corujão foi despendido, mas a rede pública que está na base do atendimento não sofreu grande transformação.

Não se cumpriu, por exemplo, a promessa de empregar mais 800 médicos (o município informa que há 647 em contratação).

Doria se elegeu prefeito cultivando uma imagem de gestor, mais que de político. Foi mais como político, contudo, que deixou a prefeitura antes da hora, movido pela previsível ambição de governar o Estado. Já como gestor, saiu do cargo em dívida com o que ele mesmo fixara como padrão de qualidade.

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