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A saída de May

Renúncia de conservadora diminui chances de recuos no rompimento com a UE

A primeira-ministra britânica, Theresa May, chora durante discurso no qual anunciou sua renúncia
A primeira-ministra britânica, Theresa May, chora durante discurso no qual anunciou sua renúncia - Tolga Akmen/AFP
 

Não se discute a abnegação de Theresa May em sua missão de viabilizar a saída do Reino Unido da União Europeia, decidida em plebiscito há quase três anos. O discurso em que anunciou sua renúncia, nesta sexta (24), terminou com voz embargada e um choro quase incontido ao admitir o fracasso no que era a razão de existir de seu governo.

A despeito do empenho, faltou à primeira-ministra, com efeito, convicção sobre o que entendia por “brexit é brexit”, a tautológica declaração com a qual ela reiterava compromisso em fazer valer a vontade de 52% dos britânicos.

May chegou ao poder um mês após o sufrágio, em julho de 2016, e desde então oscilou entre promessas de uma ruptura integral com a UE —como quer a ala mais radical do Partido Conservador— e tentativas de suavizar os termos da retirada, temerosa dos impactos na economia do país.

Não por acaso, o acerto costurado por ela com os europeus foi rejeitado três vezes pelo Parlamento. No último intento de salvar o acordo, a governante apresentou uma proposta no início desta semana que abria a possibilidade de uma segunda consulta popular. Com isso, perdeu de vez o esquálido apoio de correligionários.

May transfere o imbróglio ao sucessor, tal como fizera o antecessor dela, David Cameron. Este deu aval ao plebiscito, para afagar parte do eleitorado, mas defendia a permanência no bloco. A surpresa que veio das urnas tornou sua situação insustentável.

A levar em conta os nomes mais cotados para assumir o posto entre os conservadores, cresce a chance de o Reino Unido, desta feita, cumprir o novo prazo estabelecido para o brexit, em 31 de outubro.

Isso não significa, em absoluto, garantia de tempos menos turbulentos para os britânicos. Ainda mais se o próximo premiê for Boris Johnson, o favorito na disputa interna. Ex-prefeito de Londres, ocupou o posto de ministro de Relações Exteriores de May e deixou o gabinete justamente por defender um divórcio sem concessões.

Ele já afirmou que, uma vez no cargo, retira-se da UE com ou sem acordo. Pode soar como um bálsamo a ideia de encerrar um processo tortuoso, que polarizou a sociedade e implodiu um governo.

Entretanto há muito a temer sobre a capacidade de Johnson, dado o temperamento errático, de conduzir o país no caso de uma separação litigiosa. Seria exigido dele um alto grau de articulação política para atenuar os prováveis prejuízos decorrentes de um rompimento sem firmar balizas com o maior parceiro comercial.

O ocaso de May reforça o que parece ser um caminho sem volta do brexit. A trilha do que virá depois, porém, permanece sombria.

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