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Aline Tristão Bernardes, Leonardo Sobral e Mauro Armelin

Manejo florestal: gerando divisas e desenvolvimento

Prática é alternativa econômica ao desmatamento na Amazônia

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Área desmatada e queimada na parte rural de Humaitá, no sul do Amazonas - Sandro Pereira/Código19/Folhapress
Aline Tristão Bernardes Leonardo Sobral Mauro Armelin

A associação que muitas pessoas ainda fazem, de que exploração de madeira tropical requer desmatamento, é um engano que pode nos afastar de uma das principais soluções para a Amazônia. Sim, porque o manejo florestal sustentável é uma poderosa ferramenta econômica que, ao mesmo tempo em que garante a manutenção da floresta, promove oportunidades de emprego e move a economia da região e do Brasil.

Atualmente, das florestas nativas na Amazônia brasileira, 75% —ou cerca de 400 milhões de hectares— são de florestas públicas federais, estaduais ou municipais. Mas, desse total, pouco mais de um milhão de hectares está em regime de concessão florestal; ou seja, sob contratos onerosos com empresários do setor florestal e comunidades que concorreram a licitações públicas. Nessa modalidade de gestão, todas as etapas do manejo são criteriosamente monitoradas, gerando benefícios financeiros e sociais enquanto mantém-se a floresta em pé.

Se, nos próximos dez anos, essas áreas chegassem à marca de 20 milhões de hectares, isso aumentaria o PIB em US$ 1,6 bilhão, e a arrecadação de impostos em US$ 150 milhões, considerando-se somente a cadeia da madeira. Criaria, ainda, 56 mil empregos diretos e mais de 110 mil indiretos —e armazenaria no ecossistema florestal até 6,8 bilhões de tCO2eq (equivalência em dióxido de carbono).

Enquanto o desmatamento implica perda definitiva do capital natural, de serviços ecossistêmicos, de oportunidades de uso da biodiversidade, além de concentração de terra, especulação imobiliária, empobrecimento de comunidades e de trabalhadores, o manejo florestal sustentável é o oposto disso.

Portanto, se há mesmo a intenção de acabar com o desmatamento na Amazônia, o manejo florestal precisa ser considerado como uma das alternativas para esse desafio.

A produção de madeira, sem destruir a floresta, pode até ser o carro-chefe desses planos; mas, nas mesmas áreas, também podem ser extraídos produtos não madeireiros (como frutos, castanhas, plantas medicinais, óleos etc.) e desenvolvidas atividades de turismo e pesquisa. Há, além disso, a prestação de relevantes serviços ambientais, como produção e conservação de água, armazenamento de carbono e biodiversidade, fundamentais para regular o clima.

Hoje, inclusive, a relação entre as florestas da Amazônia e a geração de chuvas nas regiões centrais da América do Sul é muito bem compreendida pela ciência. Sem a Amazônia, a segurança hídrica de grandes cidades, como Rio de Janeiro e São Paulo, pode ser prejudicada. E, pior, pode não haver chuva suficiente para manter o agronegócio brasileiro tão produtivo e lucrativo como é hoje. Em suma, o Brasil só é o celeiro do mundo porque há florestas que regam essas plantações. 

Quando a floresta é destruída, pode até parecer que se ganha terra para a agropecuária, o que, a princípio, geraria benefícios para o Brasil. No entanto, na grande maioria das vezes, as áreas desmatadas terminam abandonadas.

Dos 89 milhões de hectares que já tiveram florestas dizimadas na Amazônia, somente 10% estão sendo utilizados de maneira a gerar retorno econômico. Cerca de 60% das áreas desmatadas estão tão degradadas que nem servem para pastagem.

Isso significa que uma parcela considerável do desmatamento se dá devido à especulação imobiliária, e não para aumentar a produção agrícola. Quem se beneficia dele, em um primeiro momento, não são trabalhadores rurais, produtores e agricultores, mas um grupo que tem na grilagem uma fonte de renda.

Felizmente, cerca de 80% da Amazônia ainda estão em pé. O uso sustentável de apenas 7% dessa área seria suficiente para manter todo o resto. É hora de agir e encontrar um caminho que gere renda e estimule a conservação da floresta. E, por mais clichê que possa parecer, a esperança de que a comoção vire ação é legítima.

Aline Tristão Bernardes

Bióloga e diretora-executiva do FSC Brasil (Forest Stewardship Council)

Leonardo Sobral

Engenheiro florestal e gerente de certificação do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola)

Mauro Armelin

Engenheiro florestal e diretor-executivo da Amigos da Terra - Amazônia Brasileira

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