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Silvio Dulinsky

Propósito das empresas é servir à sociedade

Não se engane: só sobreviverá quem se transformar

Silvio Dulinsky

A ONU e o Fórum Econômico Mundial organizaram recentemente, em Nova York, duas conferências complementares para abordar os urgentes desafios de sustentabilidade.

Um grupo de 87 grandes empresas de todo o mundo (dentre elas 3 brasileiras) assumiu compromissos de metas climáticas baseadas em dados científicos alinhados com o Acordo de Paris. Não fazem isso por serem boas samaritanas. Líderes nos seus respectivos setores, essas companhias são conscientes que somente uma pequena fração das empresas que lideravam a economia global há uma geração continuam sendo líderes hoje.

Silvio Dulinsky - Membro do comitê executivo do Fórum Econômico Mundial e formado em administração de empresas (USP, Iese e Universidade Stanford)
O administrador de empresas Silvio Dulinsky, membro do comitê executivo do Fórum Econômico Mundial - Divulgação

Portanto, se quiserem continuar sendo relevantes, devem se transformar continuamente. As empresas que vão comandar a economia da geração “Greta Thunberg” necessitam desenvolver modelos de negócio com um impacto ambiental e social muito mais positivo que a situação deplorável deste final de década (perdida?).

O setor empresarial brasileiro, atuando em um país com enormes desafios sociais e com sua intrínseca dependência de recursos naturais, tem muito a ganhar e a perder nos próximos 20 anos. Não é por falta de hábeis competidores globais que as nossas empresas deixarão de correr o risco de virem a ser meros coadjuvantes na sua própria casa. As empresas mais inovadoras e ousadas do mundo estão abraçando o desafio da sustentabilidade como uma oportunidade estratégica central. Há vários anos que conselhos de administração visionários vêm incorporando este tema nos seus mecanismos de governança corporativa.

No Brasil, temos alguns escassos e honrosos exemplos de empresas com um inabalável compromisso com a sociedade, contudo longe da necessidade e do potencial do nosso país.

Numa sociedade livre, as empresas existem por decisão de pessoas livres para atender uma necessidade concreta. Nesse processo obtêm lucro e remuneram o capital dos seus investidores. Uma sólida saúde financeira é necessária para permitir o seu crescimento e investimentos em inovação. Empresas devem ser rentáveis para ser parte da solução —e não do problema.

Mas não nos enganemos: o propósito das empresas é servir a sociedade. A única maneira de vencer desafios tão complexos e estruturais como minimizar a mudança climática, diminuir a desigualdade social e melhorar a educação e a saúde é continuar transformando as empresas para que sigam sendo o motor de desenvolvimento da sociedade, como têm sido desde princípios do século 19.

Sustentabilidade para as empresas não se trata apenas de melhorar suas práticas ambientais. O verdadeiro desafio estratégico é se adaptar rapidamente às mudanças da sociedade, que demandam um melhor desempenho ambiental e social de parte das grandes corporações. Líderes empresariais não podem se permitir a simplesmente reagir frente aos movimentos dos concorrentes mais inovadores.

Devem liderar o processo de transformação das suas empresas, preparando-as para um futuro cada vez mais desafiador.

Um mundo que em poucas décadas contará com 10 bilhões de pessoas é um sistema muito complexo. Atualmente consumimos em sete meses os recursos que o planeta pode suprir de maneira sustentável por todo um ano. Tensões sociais de toda índole são cada vez mais presentes na vida de todos. 

Frente a esses desafios necessitamos de uma capacidade de inovação e de execução, que somente a colaboração entre o setor público e o privado poderá tornar realidade. Para isso precisamos de líderes empresariais com uma visão ambiciosa que vá além de acumular capital. Empresários que utilizem a sua posição privilegiada para inspirar milhões de trabalhadores fazendo a coisa certa, da maneira certa.

Silvio Dulinsky

Membro do comitê executivo do Fórum Econômico Mundial e formado em administração de empresas (USP, Iese e Universidade Stanford)

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