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Marco Feliciano

Razão e sensibilidade

Abstinência sexual é política pública ética e humanista

Marco Feliciano
Como não deixaria de ser em uma sociedade onde até propaganda de sabonete é erotizada, causou agitação nas hostes ditas “progressistas” a proposta do governo Jair Bolsonaro de adotar —como um dos vários programas de educação sexual— a conscientização de jovens sobre as consequências de uma vida
sexual precoce, indicando a abstinência como uma das soluções possíveis. 
 
Em uma ação reativa e preconceituosa —e, portanto, desprovida de qualquer sentido lógico—, a esquerda e a imprensa engajada se levantam liminarmente contra uma política pública de forte viés humanista e de alto conteúdo ético, que certamente seria louvada dentro de qualquer ambiente minimamente racional e erudito.
 
O deputado federal Marco Feliciano (sem partido-SP) em audiência pública em Brasília - Vinicius Loures - 10.mai.19/Câmara dos Deputados

De fato, como questionar que o governo de um país com alta taxa de meninas grávidas na adolescência, como é o caso do Brasil (56,4 por mil), tente influenciar positivamente seus jovens a terem ética em seus relacionamentos afetivos? Ou será que ensinar valores milenares como prudência, temperança, sensatez, afetividade, planejamento, alteridade e empatia é pecado? 

É pecado apresentar a jovens uma visão de mundo distinta do hedonismo militante que prega o prazer irresponsável, diariamente metralhado em suas mentes na programação da TV Globo? É pecado dar aos jovens deste país uma alternativa à coisificação de suas existências, pugnando que os mesmos valorizem o afeto, a razão e a sensibilidade em seus relacionamentos sexuais?

Pecado, essa é a palavra-chave para desvendarmos o mistério dessa reação toda. Afinal, em verdade, a reação não é à política pública em si —inatacável por qualquer um que de fato advogue a causa da dignidade da pessoa humana—, mas sim à fonte supostamente religiosa que os cruzados do marxismo cultural e seus satélites doutrinários veem no programa. Para essa gente, qualquer produto que venha das mãos do governo Bolsonaro (por eles tido como obscurantista), é, a priori, ruim, o que faz dela refém da própria intolerância que acusa ver nos outros. De fato, o pluralismo democrático defendido pela esquerda acaba onde começam as ideias contrárias à sua visão de mundo, mesmo que para isso tenham que ignorar no sentido estrito da palavra.

Ignoram que nem todos pensam como eles, e que da mesma forma que existe política pública baseada em métodos contraceptivos destinada à parcela dos jovens que deseja ter um estilo de vida hedonista, deve igualmente haver política pública para a parcela da população jovem que pretende esperar o momento mais adequado para iniciar ou reiniciar sua vida sexual. 

E não se diga que não existem jovens interessados nesse tema: as redes sociais do movimento “Eu Escolhi Esperar” (www.euescolhiesperar.com) somam mais de 5 milhões de seguidores.

Ignoram que há estudos científicos aptos a lastrear tal programa. O estudo de C. Cabezón e outros pesquisadores associados, realizado em 2005 e intitulado “Adolescent pregnancy prevention: An abstinence-centered randomized controlled intervention in a Chilean public high school”, publicado na edição de número 36 do Journal of Adolescent Health, analisou mais de mil adolescentes do ensino médio em Santiago do Chile por quatro anos, tempo em que foram submetidos a dois programas de educação sexual distintos. O resultado foi que a taxa de gravidez na adolescência das jovens que tiveram educação sexual “baseada em contracepção” foi de 5%, e no grupo daquelas que foram orientadas pelo “programa de abstinência”, baseado na responsabilidade e na educação afetiva, foi de apenas 1%.

Ignoram, enfim, que aquilo que ditam como obra do obscurantismo conservador está escrito em “Ética a Nicômaco”, peça fundamental do pensamento humano, de autoria de Aristóteles e que prega a virtude moral e a autocontenção adquirida pelo hábito (práxis) —a qual tem a função de educar as paixões e disposições sensíveis do ser humano— para proporcionar-lhe um caráter que deseja o bem e obedece à razão; ou seja, a felicidade.

A ignorância é a mãe da intolerância. Contra elas temos a arma da razão. Razão que nos faz lembrar que não somos meros animais que se acasalam. Somos homens e mulheres, somos seres transcendentes. Temos sentimentos. Despertamos afeto. Sentimos amor. Por isso tudo, somos eternamente responsáveis. Temos razão e sensibilidade.

Marco Feliciano

Deputado federal (sem partido-SP), vice-líder do governo no Congresso, presidente da Comissão de Desenvolvimento Urbano e pastor evangélico

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