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Fábio Marton

Como anda você, colega petista?

A polarização tem dois lados, mas o PT não é um deles

Como anda você, colega petista? Como? Não é do PT? Não gosta do PT? Então é com você mesmo que estou falando. Exceto se for um entusiasta absoluto do governo Bolsonaro e nunca tiver expresso qualquer crítica. Se você é do PT, aliás, tem uma chance de não ser petista.

Eu sou petista, você é petista, a Folha é petista, o Estadão é petista, a Veja é petista. A jornalista Vera Magalhães é a mais nova petista. Não importa o quanto você tenha críticas ao PT, que você tenha votado nulo ou quem sabe no próprio e se arrependido, à la Alexandre Frota. “Petista”, para o bolsonarista, não é quem é do PT. Ao bolsonarista, o PT é um fantasma, é a entidade sobrenatural do mal absoluto. E “petista” é quem foi possuído por ela. É quem se opõe a Bolsonaro e não acha que ele “sangrou por nós”. Gritar “e o PT?!”, de dar com o dedão no pé da mesa, não vai convencê-los.

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O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de lançamento do programa de taxa fixa no crédito imobiliário da Caixa, no Palácio do Planalto, em Brasília - Pedro Ladeira - 20.fev.20/Folhapress

Anda na moda falar em polarização. Um dos polos, naturalmente, é o bolsonarismo. E todo mundo, ao ouvir a palavra, condicionado que fomos como o cachorro de Pavlov, imediatamente imagina o PT na outra ponta. Mas, se você olhar na ponta, tem um espelho.

O PT tem se oposto às pautas do governo consistentemente, principalmente as econômicas, e condenado os desvarios. Mas será o PT uma força mais “radical” nisso? Quando Bolsonaro cometeu seu atroz comentário contra a jornalista Patrícia Campos Melo, desta Folha, a revista Isto É, que, à beira das eleições, publicou uma capa comparando Haddad ao Cavalo de Troia, soltou explicitamente em sua capa aquela palavrinha que começa com "i" que andava entalada na garganta de muita gente da oposição. O jurista Miguel Reale Jr., coautor do processo contra Dilma Rousseff, afirmou à Veja que, “sem dúvida, isso se enquadra como crime de responsabilidade” (isto é, punível com impeachment —e só com impeachment). A deputada Sâmia Bonfim, do PSOL, também já falou abertamente em impeachment.

Mas o que Lula, a única coisa com qual todos os filiados ao partido parecem concordar, disse? “Lamentavelmente, me parece que a democracia não chegou às pessoas, que a educação e o respeito não chegaram à cabeça de Bolsonaro. Penso que está na hora de aprender. Educação faz bem para todo mundo”, afirmou no dia 18 de fevereiro.

Segundo o inimigo público nº 1 do bolsonarismo, o presidente é um menino maroto que deveria aprender. Eletrizante, não? Polarizador. Certamente há de abrir um abismo na sociedade brasileira e levar a uma “convulsão social” que nos deixaria à beira do golpe militar.

Sem sarcasmo; vamos a mais exemplos. No escândalo imediatamente posterior, a jornalista Vera Magalhães revelou Bolsonaro divulgando um vídeo de extremo culto à personalidade, convocando a manifestações contra o Congresso e o STF, levando à própria Folha a também usar a palavra com "i" num editorial. E quanto ao PT? O deputado Ernio Verri, líder do partido na Câmara, se pronunciou à Veja: “Ainda não enxerguei isso [o impeachment] com o que se passa hoje, mas pode avançar dependendo da reunião com os seis partidos de oposição. É muito cedo para fazer essa análise”.

Essa reticência, esse “segura aí”, é a chave para entender por que o PT não é o polo oposto. Quando as primeiras grandes manifestações contra Bolsonaro estouraram, em 15 de abril de 2019, Lula, da cadeia, afirmou: “Esse cara ganhou as eleições, a gente goste ou não goste”. E bloqueou a pauta do impeachment, matando no nascimento um movimento que era uma ameaça ao governo Bolsonaro. Tem mantido essa posição até hoje.

Por isso mesmo, a maior parte das ofensivas de Bolsonaro não tem sido contra o PT, mas contra a imprensa e o “viés ideológico”, aos ambientalistas etc. O PT é o recurso fantasmagórico que aparece em declarações como a de 15 de fevereiro, quando o presidente acusou o PT da morte do miliciano Adriano – poderia ter sido o Leonardo Di Caprio.

Há, sejamos justos, petistas individuais discordando de Lula. Haddad e Dilma deram manifestações mais firmes. O deputado Paulo Pimenta mencionou a possibilidade. Mas, neste momento, o “extremo” oposto ao bolsonarismo é quem quer barrar a escalada autoritária para ontem, esteja à esquerda, ao centro ou a centro-direita. Quem representa o perigo de haver consequências para suas ações.

Fábio Marton

Jornalista e escritor

TENDÊNCIAS / DEBATES

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