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Paulo Lotufo

Como dói a retirada forçada da frente de luta

Fugimos de um inimigo invisível que atinge células, mas também nossa autoestima

Final da última segunda-feira, dia 16 de março de 2020. A epidemiologista Isabela Bensenor e eu estamos saindo do Hospital Universitário da USP. Com mais de 30 anos de convivência (somos marido e mulher), quando nossos olhares se cruzam conclusões se cristalizam sem que nossas mentes consigam verbalizá-las

Somente para confirmar o que sentíamos, perguntamos um ao outro qual era a sensação vivida naquele momento em que cruzávamos a porta de saída do hospital. Para isso, melhor voltar um pouco atrás no tempo.

 O casal de epidemiologistas da USP Paulo Lotufo e Isabela Bensenor
O casal de epidemiologistas da USP Paulo Lotufo e Isabela Bensenor - Divulgação

O dia 16 de março começou uma semana antes, quando se notava que a situação da Covid-19 evoluiria em São Paulo, no Brasil, no mundo todo. A cada dia chegava a desmarcação de um evento no exterior. Nossas viagens do primeiro semestre, Santiago do Chile, Viena, Boston e até uma para o Rio de Janeiro foram sendo canceladas.

Na quinta-feira (12), a Unicamp decidiu suspender as aulas. Soou estranho na USP durante a manhã de sexta-feira (13). Durante a tarde, a USP assumiu a mesma posição da Unicamp.

Iniciamos então o processo de descer o toldo do nosso circo de ensino e ciência, que produz números tão vistosos aos olhos do mundo dos indicadores acadêmicos de qualidade, dos cursos médicos e das citações bibliográficas.

Difícil foi convencer os demais parceiros científicos de que a situação era grave e que seria a hora de organizar a retirada. A pandemia, como a guerra, testa o pragmatismo das pessoas e atinge nossa onipotência.

Sábado à noite (14), Isabela e eu decidimos que comandaríamos a retirada. Mas ficaríamos no hospital, mesmo com o Centro de Pesquisa fechado, para apoiar a equipe médica na linha de frente. No domingo (15), às 23h, recebemos circular da reitoria da USP com medidas mais rigorosas, uma delas afastando compulsoriamente aqueles com mais de 60 anos. "É o correto", dissemos, um ao outro, Isabela e eu.

Voltamos então à manhã do dia 16 de março. O dia inteiro trabalhamos no fechamento do centro, acertando os ponteiros de vários relógios. Conseguimos notebooks para o nosso pessoal ficar em casa. Em um momento avisamos os outros pesquisadores de que todas as pesquisas estavam suspensas. Um deles informa que está em casa com suspeita do novo coronavírus.

Nossos filhos estão em home office. Enviam mensagens cobrando nossa volta; afinal, o paciente grave no Rio de Janeiro é um médico de 65 anos.

Depois, por e-mail, nos dirigimos aos participantes dos estudos. Reiteramos que a pandemia é a pior que a humanidade sofreu no século; que o contágio é muito rápido; que o Ministério da Saúde está fazendo um bom trabalho; e que não reproduzam nem sigam as recomendações que florescem nas redes sociais.

Ao mesmo tempo, a equipe de clínica médica se acertou com o fechamento do ambulatório e, a divisão do pronto-socorro com duas portas —a da suspeita da Covid-19 e a com as doenças que costumeiramente levam doentes a um hospital. Todos os médicos e enfermeiros aceitam bem a determinação de suspensão de férias e saídas nos próximos 60 dias. Olho para médicos, estudantes e enfermeiros na terapia intensiva. Todos com o olhar resoluto de estarem combatendo o bom combate.

Ao final da tarde, fechamos todo o Centro de Pesquisa. Estamos já fora do hospital quando verbalizamos, então, a sensação que nossos olhares já tinham combinado.

Estaríamos, nós dois, batendo em retirada de uma guerra. Lembramos um pouco de Dunquerque: franceses e ingleses escapando da França para a Inglaterra para fugir do exército alemão. A analogia com a guerra é injusta, sabemos, para quem deu a vida para derrotar o nazi-fascismo. Mas foi o que nos restou naquele momento. Medicina e saúde pública adoram metáforas militares.

De fato, estamos fugindo de um inimigo invisível que atinge nossas células, mas, principalmente, nossa autoestima.

Agora, iniciamos nosso exílio domiciliar.

Paulo Lotufo

Epidemiologista e professor da Faculdade de Medicina da USP

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