Descrição de chapéu
José Manuel Diogo

Nossa casa, nossa língua

Contar a história, às vezes, é uma arte maior que vivê-la

E ela disse: sabe, Zé? Eu acho que você é o único cara que escreve toda a semana em três continentes usando a mesma língua como se fossem três diferentes. É mesmo?

É. Terça-feira (5) foi o primeiro Dia Mundial da Língua Portuguesa, e eu fiquei pensando nisso. Sério? Onde? Ajude-me aí, menino. Fui à procura e não achei. Parti para a busca e não tinha. Nada de nada. Nulo total. Nem sombra e glória. Népia. Coisa nenhuma. A gente não lê, Rui? Nem que roce na do Camões. Damos um jeito, Caetano?

José Manuel Diogo - Diretor da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira, presidente da Informacion Capital e especialista em media intelligence; é autor de 'As Grandes Agê
José Manuel Diogo, diretor da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira - Divulgação

Nem mano, nem mulungo. Nem paizinho, nem mãezinha. Júlio sem noves fora já não mia nem com Couto. Valeu? Nem vem que não tem. Tu é que sabe, “mêrmão”. Deixa eu te explicar prá tu ficar sabendo. O barroco só é tropical se à água for Lusa. Né, Zé?

Dia da língua foi na terça-feira (5), disse o calendário. E a rádio também falou que somos muitos, duzentos e setenta e pico e tal milhão de caras e meninas, falando Eças e Pessoas, Amados e Coutos, homens e mulheres. Letras grandes, inícios capitais. A língua mais falada do hemisfério Sul, que é para onde a gente “se manda” quando busca a liberdade.

Minha Pátria, minha língua. Veloso, vê-lo, vou. Estou em São Paulo, na piscina rasa do Sesc, num andar alto, olhando a Teatro Municipal se multiplicar em luzes como um traje de coragem sem toiros e penso: "Hoje peguei meu CPF e sou daqui". Olho para o meu camarada de viagem, de milhagem, de vadiagem e penso numa frase —"O mundo é do tamanho do que vejo"— que encontrei pela primeira vez, anos antes, colada na parede do primeiro colégio dos meus filhos, João de Deus, mas sem jesuítas, na longínqua cidade de Coimbra, onde a paixão de Portugal pelos livros se desenhou na biblioteca joanina da universidade milenar.

Agora estou em Luanda, no Quinachiche, às voltas com o futuro do mercado centenário que se recusa a virar centro comercial de generais. Tenho tantas saudades de encontrar Colunas no Girabola como de navegar para longe, buscando memórias em todos os bombordos que fazíamos, mareando em cautelas e caldos de galinha à moda do século 16.

Noutro final de semana parto para a baía (de Luanda, não a de todos os Santos). Encontro o Troufa Real falando da arquitetura que não fez com a graça de um carvão nos dedos de Bordalo ou de óleos na tela de Tarsila. Contar a história, às vezes, é uma arte maior que vivê-la.

Fernão, mentes? Minto. Que se contar só a verdade não vai dar “share” nem audiência. Só quero mesmo que o Rio Vermelho tenha mais graça que a explosão de Mazagão no dia em que o Marquês de Pombal a torpedeou para o Amapá apenas porque podia. Manda quem pode e obedece quem deve. É apenas a viagem...

A língua se inventa mais rápido que os seus falantes. Tem mais memória que elefantes, é mais confiável que cegonhas, mais ágil que palancas, mais eterna que urubus. Foi ela que encontrou a gente e é ela que nos dirá. Até mais, adeus, passar bem.

Foi? Fui. Mas pode se preparar que estou voltando.

José Manuel Diogo

Diretor da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira, presidente da Informacion Capital e especialista em media intelligence; é autor de 'As Grandes Agências Secretas' (ed. Levoir)

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