Descrição de chapéu
Roberto Muylaert

Gerar empregos

Como foi possível tanta gente chegar a essa situação de penúria?

Roberto Muylaert

Jornalista, foi presidente da Aner (Associação Nacional dos Editores de Revistas) e da Fundação Bienal de São Paulo

O governo federal está com um pepino na mão pós-pandemia, após aliviar a pobreza absoluta de 75 milhões de brasileiros com o auxílio emergencial.

O ministro Paulo Guedes (Economia) está virando keynesiano, anda preocupado com a fórmula mágica para amparar o povo novamente. O problema é que dar mais dinheiro a fundo perdido, como já foi feito, arrebenta o teto de gastos.

O jornalista Roberto Muylaert - Marcus Leoni - 12.mar.19/Folhapress

Se analisarmos como se forma a geração de renda no Brasil, começamos a perceber que algo está errado há muito tempo quando uma ajuda do governo, como a que foi feita agora, coloca quase 40% da população do país a se alimentar novamente.

O Bolsa Família começou com Lula, o primeiro presidente do Brasil que havia passado fome, criando o programa a fundo perdido —coisa que FHC teria iniciado, mas dentro do conceito de ensinar a pescar em vez de dar o peixe. Essa concepção é válida quase sempre, mas, quando o povo do Nordeste está comendo calango, é preciso distribuir dinheiro vivo mesmo.

A aprovação de 83% da sociedade brasileira, quando Lula terminou o segundo mandato, baseava-se no fato de haver um presidente que se esforçava em dar uma vida melhor aos brasileiros mais pobres. Questão de política e compaixão.

O ex-metalúrgico tinha em suas mãos o maior privilégio que um político sério poderia desejar: a oportunidade de melhorar de maneira substancial a condição de vida de seu povo. Foi então que Lula deixou-se seduzir pela possibilidade de enriquecer o pessoal de seu partido, a partir de assaltos sistemáticos a companhias estatais e demais entidades do governo que tivessem dinheiro, de forma a reunir o maior volume de recursos da história da corrupção mundial.

Tudo isso a ponto de a Odebrecht, a maior empreiteira das Américas, criar um departamento só para controlar o enorme fluxo de dinheiro que saía dessa empresa para os acertos entre os maiorais: Emílio Odebrecht, como provedor, e Lula, como fiador da quadrilha no governo.

O volume de recursos desviados foi de tal ordem que por pouco não quebra a principal empresa do país, a Petrobras. Nessa mixórdia entre pessoas e empresas desonestas, foram condenadas ambas: se muita gente pegou cadeia, a pena para as empresas foi a da inadimplência até a incapacidade de continuar funcionando. Se hoje o Brasil quisesse construir uma hidrelétrica das grandes, teria que recorrer aos chineses, pois, aqui, a terra arrasada da Lava Jato levou nossas grandes empreiteiras de roldão, com toda a sua capacidade técnica de projeto e construção desenvolvida aqui mesmo.

O pessoal da Lava Jato mereceu total simpatia, por sua ação enérgica e efetiva contra meliantes conhecidos da política brasileira e associados, botando muita gente graúda atrás das grades —feito até então inédito no Brasil.

Suas investidas foram mostradas na TV, em centenas de operações de prisão e exibição ao vivo de recebimento de propinas e desvios de recursos, como os inacreditáveis R$ 75 milhões em malas de dinheiro do ex-ministro Geddel Vieira Lima, descobertas em seu apartamento em Salvador.

Passado um tempo, ficou claro que Sergio Moro, como juiz responsável pela Lava Jato, abusava de suas prerrogativas, atuando fora dos padrões rígidos e isentos da Justiça, em busca de holofotes dirigidos à sua própria pessoa. Com isso, colocou todo o processo sob suspeição, dando oportunidade para que réus confessos pudessem se utilizar de um descabido benefício da dúvida. Ponto para os velhacos de sempre da nossa política, a justificar o injustificável. E o subproduto da roubalheira foi a eleição do inefável Jair Bolsonaro.

Em busca de mais holofotes, Moro aceitou o inaceitável: ser ministro da Justiça de Bolsonaro, de onde foi expelido sem honra nem glória, não sem antes vislumbrar uma quimérica e frustrada ida para o Supremo.

O país faz muito bem em tirar esse parcela considerável da população da pobreza absoluta, com Paulo Guedes posando de keynesiano. A pergunta é: como foi possível chegar a essa situação de penúria para tanta gente?

Uma explicação, além da enorme corrupção, é a nossa dependência mental de esperar uma solução do "rei", como se ainda estivéssemos no Império. Na esteira dessa esperança vinda de cima, estão os empregos públicos, a estabilidade total, os proventos maiores que os da média da população e a frouxidão na supervisão do cumprimento das obrigações, já que funcionário público não tem patrão, tem colega. Nada que valorize a iniciativa privada.

Para continuar a tirar boa parte da população da pobreza é preciso uma reforma fiscal. Hoje, o 1% mais rico concentra 30% da renda do país. Nada contra esse grupo privilegiado, mas o tipo de distribuição que chegue aos muito pobres só pode sair das pessoas físicas e jurídicas do topo da pirâmide de rendimentos.

Sem perder seu keynesianismo de circunstância, Paulo Guedes poderia voltar a trabalhar agora em seu pensamento liberal. Afinal, somos uma economia de livre iniciativa; portanto, devemos crescer através do surgimento de milhares de empresas, tirando o pessoal da miséria de uma maneira muito mais digna do que o auxílio emergencial —​ou seja, gerando empregos.

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