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Daniela Rorato

A busca por uma identidade inclusiva para o Brasil

Que o empoderamento das pessoas com deficiência estimule um processo de evolução social mais justo

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Daniela Rorato

Empreendedora social, mãe de Guto, idealizadora do projeto #Mãelitante e ativista dos direitos das pessoas com deficiência e da mãe cuidadora

Esta quinta-feira (3) é o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência. A data, criada pelas Nações Unidas desde 1992, sugere uma reflexão coletiva, já que a palavra empatia está tão popularizada.

Renova a esperança ver o crescimento de importantes causas como a antirracista e em defesa das pessoas LGBTI+. Isto nem de longe quer dizer que acabou o racismo ou preconceito —apenas que a luta está avançando. E, pelo que vemos no termômetro virótico das redes sociais, a voz está reverberando e, finalmente, ganhando força. Dá muita alegria ver a quebra de paradigmas através da representação da diversidade na publicidade.

Contudo, as discussões em torno do capacitismo e em defesa dos direitos das pessoas com deficiência ainda não entraram no grande debate social. O segmento ainda luta por pertencimento.

O Brasil ainda não despertou para uma identidade inclusiva coletiva. As políticas públicas se sustentam no viés assistencialista, enquanto os quase 46 milhões de brasileiros com deficiência (IBGE 2010) impactam, cada um deles, pelo menos mais duas pessoas. Este censo não incluiu as pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Basta multiplicar para chegar a um número aproximado da população interessada na temática inclusão, acessibilidade e equidade de direitos.

É um imenso e invisível recorte de pessoas. Isto ficou evidente na pandemia, onde falava-se massivamente em “grupos de risco e idosos” sem mencionar as pessoas com deficiência. A Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) e a OMS (Organização Mundial da Saúde) apresentaram as considerações adicionais para pessoas com deficiência apenas dois meses após o surto de Covid-19.

Falta representação também na publicidade ou no cinema. É pouca a integração ao ambiente de trabalho e falta acessibilidade, em todas as dimensões: arquitetônica, instrumental, metodológica, comunicacional e, principalmente, atitudinal. Esta última, a mais importante, é quando nos esforçamos para derrubar as barreiras do preconceito. Talvez seja o ponto de partida para a sociedade civil.

A comunicação digital é outro desafio. Conteúdos não são acessíveis. Apesar de todas as redes sociais lançarem ferramentas assistivas para que os usuários tornem seus conteúdos acessíveis, elas ainda são pouquíssimo utilizadas.

Muitos querem ser influenciadores digitais e formar opinião, mas não existe a preocupação em produzir conteúdo para todos. Na maioria das vezes, nem milhões de seguidores —ou milhões em dinheiro— promovem a empatia suficiente e o esforço humano para descrever uma imagem com uma simples tag #PraCegoVer.

É hora de refletir em como pessoas com deficiência auditiva ou visual têm acesso aos conteúdos e ofertar minimamente uma legenda e, quem sabe, até uma “generosa” janela de libras.

A deficiência chegou na minha vida com meu filho Augusto, que tem 24 anos. Eu só me dei conta quando senti na pele. “Empatia que fala, né?”. Guto tem deficiência intelectual e autismo. Sou “mãelitante” (neologismo que criei para me definir) e gostaria de ressalvar que não estou aqui para ocupar o lugar de fala do Guto. Ele não aprendeu a escrever ou falar, então, eu vim lutar com ele. Acredito que em algumas causas deve caber a voz de todos.

Aprendi que todos somos especiais, e que a deficiência é uma característica. Não deveria existir tabu para características pessoais nem tampouco resumir as pessoas a isso. Antes de tudo, somos pessoas.

Hoje, desejo que o empoderamento das pessoas com deficiência seja estímulo para um processo de evolução social mais justo. Que sejam protagonistas de si mesmas, sem estereótipos de superação ou de etérea inspiração. E que em sua diversidade possam, apenas, ser.

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