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Fernanda Chaves

Março por Marielle

São três anos sem respostas, que maculam a legitimidade das instituições

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Fernanda Chaves

Jornalista, é ex-assessora de Marielle Franco e sobrevivente do atentado que matou a vereadora e seu motorista, Anderson Gomes, em 14 de março de 2018

Neste domingo (14), falar de três anos sem Marielle Franco é ressentir uma dor que, apesar de bruta e profunda, não foi capaz de imobilizar aquilo que era uma de suas principais virtudes: a disposição para ir além. E essa não é uma percepção de uma sobrevivente daquela cena de horror, mas um sentimento que revolve as entranhas de milhões de mulheres do Brasil e do mundo.

Sim, lembrar Marielle nessa inacreditável marca de três anos sem que saibamos os mandantes de seu assassinato e sem o julgamento daqueles que são acusados de metralhar o carro em que estávamos é, sobretudo, indignar-se.


Mas é também lembrar o significado político desse atentado. Buscar compreender o que seus algozes almejavam. Essa é uma reflexão que passa necessariamente pelo perfil de Marielle. Mulher, negra, lésbica, nascida e criada na favela da Maré e mãe jovem, foi exceção em diversos quesitos: meritocrático, por fazer parte da miúda fatia de 1% de mulheres saídas da favela que chegam ao mestrado; e democrático, por ter sido eleita vereadora em 2016 com mais de 46 mil votos, representando a esperança de significativa parcela da sociedade numa vida melhor. Era isso que queriam atingir?

Mari foi uma mulher vibrante. De sorriso largo e abraço apertado. Sorte a nossa de tê-la tido por perto. Azar dos canalhas que aviltam os direitos humanos, os que são doentes de preconceito, aqueles que agridem a nós, mulheres, os racistas, os misóginos. Os que defendem o lucro acima da vida, como agora observamos muito claramente durante a pandemia.

O brutal assassinato de Marielle jogou luz no submundo do crime do Rio, com reflexos no país todo. Não é casual que o cidadão que ocupa a cadeira de presidente da República esteja se esforçando para facilitar o acesso a armas e munições. É desse descontrole que nascem as melhores oportunidades para os criminosos que se utilizam das forças de segurança pública para articularem seus esquemas, não raro em conluio com grupos políticos.

Mas só isso não bastaria. É preciso toda uma enorme estrutura que permita aos bandidos uma espécie de aceitação social —e aqui no Brasil isso vem do nosso passado de violência nunca resolvido. Massacres e torturas contra negros e índios, séculos de violência institucionalizada, levam o senso comum a naturalizar agressões, sobretudo contra grupos marginalizados.

Por tudo isso eu acredito que de alguma forma o mês de março deveria, por inteiro, ser dedicado à Marielle Franco —pelas efemérides que traz. Pelo dia 8, Dia Internacional da Mulher, pelo dia de seu assassinato, o 14 —que, graças a uma ação do PSOL, está em vias de se tornar o Dia Nacional em Defesa das Defensoras e Defensores de Direitos Humanos, tal e qual já vigora no Rio de Janeiro graças a um projeto de lei aprovado pela deputada estadual Renata Souza (PSOL-RJ).

E temos ainda o dia 24 de março, quando se celebra o Dia Nacional pelo Direito à Memória, Verdade e Justiça, instituído a partir de uma lei da deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP) e inspirado na iniciativa das Nações Unidas. E é disso que se trata, basicamente. De lembrar, resgatar, manter viva a memória de ações e períodos obscuros para que graves violações de direitos humanos não voltem a ter lugar no país.

São três anos sem repostas. Não sabemos quem mandou matar nem por quê. Esse é um crime que desnuda a vulnerabilidade da nossa democracia e expõe a frágil proteção oferecida aos defensores de direitos humanos. Seu não esclarecimento só faz contribuir para a sensação de impunidade e ainda macula a legitimidade das instituições garantidoras de justiça e segurança pública do país. Em nome da democracia precisamos, ainda, responder: "Quem mandou matar Marielle?".

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