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Clima de expectativa

EUA e China protagonizam cúpula ambiental em que Brasil é candidato a pária

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Área desmatada no Amazonas - Lalo de Almeida - 20.ago.20/Folhapress

Quando o democrata Barack Obama se elegeu presidente dos EUA para suceder o republicano George W. Bush, em 2008, renovou-se a expectativa de avanço nas negociações sobre a crise do clima na Conferência de Copenhague. Um ano depois, a capital dinamarquesa testemunhou deprimente fracasso.

Só houve progresso seis anos depois, com o Acordo de Paris (2015), que hoje já se sabe ser insuficiente para garantir que a temperatura média da atmosfera não ultrapasse 1,5ºC de aquecimento ante os níveis pré-industriais. O arriscado limiar se aproxima com celeridade —os termômetros já galgaram dois terços disso (1ºC).

A novidade está no ímpeto trazido por outro recém-eleito, Joe Biden, que reúne nesta quinta-feira (22) líderes de 40 nações para tentar revitalizar o processo. A diplomacia americana almeja reconquistar o protagonismo perdido com o negacionista Donald Trump.

Há novo espaço para romper o imobilismo usual. Não porque só os EUA voltam ao proscênio, mas também por Biden ter logrado comunicado conjunto com a China em que as potências se comprometem a elevar a ambição das metas de combate ao aquecimento global.

Mais do que por boas intenções, os EUA se movem acossados pela perda de liderança para chineses em tecnologias verdes. Suas emissões anuais de carbono já não são as maiores, respondendo por 12% do total planetário, contra 24% da China, porém ultrapassam muito a contribuição do país asiático no acumulado histórico e na ponderação por habitante.

O acerto entre os dois maiores poluidores, de todo modo, eleva a pressão sobre os demais países para que façam mais. A União Europeia, que responde por 7,5% das emissões e já ocupou a vanguarda da descarbonização, hoje patina no cumprimento dos seus objetivos.

O Brasil figura entre os dez maiores poluidores, com 3%, atrás da Índia (6,7%) e da Rússia (4%). Nossas emissões são resultantes de desmate, em regra, que engendra perda de biodiversidade e perturba o regime de chuvas.

O governo de Jair Bolsonaro simula inédita preocupação com a matéria, só para americano ver, na tentativa canhestra de arrancar recursos para fazer o oposto do que pratica há dois anos, com carta branca a desmatadores.

O mundo e a opinião pública nacional esperam medidas ambiciosas, concretas e eficientes do Brasil. No entanto Bolsonaro e Ricardo Salles, seu escudeiro ecocida, parecem acreditar que conseguirão enganar a todos, saindo da cúpula sem a pecha de párias na comunidade internacional e bodes expiatórios no altar do clima.

editoriais@grupofolha.com.br

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