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O mito na caverna

Atos do 7/9 confirmam isolamento progressivo de Bolsonaro rumo à inviabilidade

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Jair Bolsonaro para cerimônia de hasteamento da bandeira, em Brasília - Pedro Ladeira/Folhapress

Os protestos do Dia da Independência mostraram um Jair Bolsonaro cada vez mais atrelado a seu cordão de fanáticos e isolado da institucionalidade e da maioria da população. O mito, como é chamado por bajuladores, enfurna-se na caverna da inviabilidade política.

Nenhum chefe de Poder nem governador perfilou-se ao lado do presidente da República na sua jornada de epifania golpista. As concentrações de manifestantes foram expressivas, embora muito longe de excepcionais. A nota positiva foi seu caráter pacífico.

Ainda que dez vezes mais pessoas houvessem comparecido, a intentona autoritária do chefe do governo estaria embalada numa minoria farfalhante que se desgarrou das aspirações democráticas de 3 em cada 4 brasileiros.

Nos discursos, Jair Bolsonaro ameaçou o Supremo Tribunal Federal e o seu presidente, Luiz Fux, de um golpe caso não se submetam aos caprichos do projeto de ditador. Exortou à desobediência de ordens do ministro Alexandre de Moraes. As novas afrontas não podem passar incólumes pela Câmara dos Deputados e pela Procuradoria-Geral da República.

A utilização de recursos públicos caríssimos, como aeronaves e aparato de segurança, em atos de óbvia e única motivação político-partidária tem tudo para alimentar ações na Justiça que poderão redundar na inabilitação do presidente para candidatar-se ao segundo mandato em 2022.

Bolsonaro também fez insinuação tosca sobre promover uma reunião do Conselho da República, entidade que opina em situações de instabilidade institucional e de segurança, mas foi ignorado por autoridades integrantes do órgão, que pelo visto não darão azo a mais esse esbirro subversivo.

Na véspera, o mandatário havia assinado medida provisória proibindo plataformas da internet de retirar do ar conteúdos que violem as suas regras de uso. A abstrusa intervenção, que deveria ser devolvida pelo presidente do Congresso Nacional por choque vertical com a Constituição, destinou-se tão somente a inflamar os atos.

O mandatário, como se nota, tornou-se prisioneiro da lógica da agitação pela agitação. Precisa criar um factoide por minuto a fim de manter mobilizado seu círculo de idólatras. Não é justo, no entanto, que carreie nesse vórtice as energias institucionais de uma nação assolada por uma epidemia mortal, pela carestia e pelo desemprego.

O melhor modo de enfrentar a ameaça com o menor dano possível ao futuro do país é tomar a via oposta à que trilha Bolsonaro, que fala muito, mas trabalha pouco. A reação deveria fugir do ruído e funcionar nas atitudes, nas investigações, nos processos e na responsabilização pela profusão de desmandos do presidente da República.

O Estado democrático de Direito dispõe de remédios eficazes contra a tirania. Que sejam administrados em dose neutralizante ao corpo estranho que tenta açambarcar a República.

editoriais@grupofolha.com.br

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