'Nas fases mais difíceis, eu trocava meu vale-refeição por um livro', conta leitora

Após Receita Federal dizer que pessoas pobres não consomem livros, leitores da Folha relatam como fazem para ter acesso à literatura

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São Paulo

Na última quinta-feira (8), após a Receita Federal defender a tributação de livros não-didáticos, com o argumento de que pessoas mais pobres não consumiriam publicações do tipo, pedimos aos leitores da Folha que nos contassem o que fazem para ter acesso à literatura.

Os relatos vieram de pessoas de várias partes do Brasil, de idades e realidades distintas. Desde as que encontraram alento nas bibliotecas e sebos até aquelas que literalmente venderam o almoço para comprar o livro dos filhos. Todas, porém, com um ponto em comum: a paixão incontestável pela leitura. Confira abaixo alguns destaques.

O encontro com a literatura mudou completamente a minha vida, uma vez que os livros contaram-me que eu poderia sonhar todos os sonhos sendo uma jovem negra da periferia. E, sempre economizando, lendo online ou recebendo de presente, é que eu tive e tenho acesso aos livros.

Apesar do menor poder de consumo: sou uma leitora!

Quando a escritora Chimamanda Adichie afirma que “escrever é rejeitar o silêncio”, então acredito que ler seja o nosso grito por grandes transformações! É injusta essa taxação que dificulta nosso acesso aos livros, impede a aproximação de novos leitores e afasta os que já leem, como eu.

Denise Maiara dos Santos Seabra, 21, Guarulhos (SP)

Muito triste essa afirmação da Receita Federal, "livro é coisa de rico". Aprendi a ler e escrever pelo esforço de uma "analfabeta", minha avó, que aprendeu "mal e mal" a ler e escrever sozinha.

Ganhei um livro, o "Patinho Feio", e minha querida avó disse que se eu aprendesse a ler eu ganharia um chocolate. Levou menos de uma semana. Família pobre, mas na qual o estudo sempre foi muito valorizado. É algo que ninguém te tira.

Tenho uma filha, hoje com 24 anos, e sempre a incentivei a ler. Nas fases mais difíceis eu trocava meu vale-refeição por um livro para ela. O livro é importante, o luxo, não. Muitas mães fogem dos shoppings, eu sempre fugi dos sebos (risos).

Até hoje ela fixa em nossa geladeira uma lista com nomes de livros e fala: “mãe, se alguém perguntar o que quero de Natal e aniversário, cite um desses livros”.

No condomínio onde moro, instalamos uma "geloteca", doei uma geladeira grande em que colocamos vários livros para os moradores.

Ler é um passaporte para o conhecimento e abre a mente para um futuro. Infelizmente moramos num país onde o estudo e leitura não são prioridade.

Marisol Leiro Vidal, 57, São Paulo (SP)

"O livro pesa menos que a enxada". Esse é o argumento supremo que os pais do interior da Bahia, sem acesso ao conhecimento formal, utilizam para encorajar os filhos a continuar os estudos formais e tirar o diploma que eles não tiveram acesso em sua época.

Ler é a válvula de escape que permite à criança e ao adolescente pobre conhecer mundos que são distantes demais da sua realidade.

Através deles fui desafiada com as divagações de Sofia (Jostein Gaarder), sofri junto com a Tereza Batista (Jorge Amado), percebi que o sofrimento de Mariam (Khaled Hosseini) se assemelha ao sofrimento de muitas das minhas vizinhas, e quando tudo ao meu redor pesava demais, fugia para Hogwarts (J. K. Rowling).

Tudo isso só foi possível porque tive acesso a uma biblioteca maravilhosa. Como a maioria dos pais, os meus não podiam se dar ao luxo de me oferecer livros em detrimento da alimentação. A fome de livros foi suprida pela Escola Fundação Bradesco. A maioria dos meus colegas da época conseguiram avançar os degraus do conhecimento, alcançaram o ensino superior e hoje são diplomados (os primeiros de suas famílias, assim como eu).

Os livros gratuitos foram as únicas ferramentas disponíveis para fugir das dificuldades diárias de falta de acesso à cultura, esporte, lazer, internet de qualidade, e tantas outras privações que a classe pobre é submetida diariamente. As políticas públicas deveriam ser orientadas para diminuir esse abismo social e possibilitar que todos tenham acesso ao conhecimento. Tributar as ferramentas capazes de mudar a realidade das gerações é um crime contra elas. É um recado claro de que nossos governantes estão comprometidos com as classes que podem ter tudo o que querem facilmente: inclusive livros.

Naira Ramos Silva, 31, natural de Irecê (BA)

Quando eu era criança acreditava que livros eram somente para pessoas de poderes aquisitivos altos —meu acesso se dava somente na escola pública. Cresci e notei que livro é caro, as livrarias são de um nível em que o pobre às vezes sente vergonha de entrar por achar que não vai ter dinheiro para levar o seu. Porém, livro é para todos, ele te dá asas para viajar, imaginar, conhecer outras culturas.

Nós, pobres, nem que seja um livro a cada dois meses, compramos, sim, pois só ele nos alimenta nesse país que, além de nos matar de fome, querem matar nossos sonhos e a única forma que encontramos para manter viva a esperança através dos livros.

Sou mãe de uma menina de seis anos em início de alfabetização em escola pública. Ela tem sua pequena estante de livros, pois já a ensinei que eles são tão importantes e essenciais como o arroz e feijão. Livro alimenta a alma, sacia o coração, aquece o corpo, engrandece o saber, amplia o vocabulário e traz conhecimento.

Elaine Pereira Lima, mãe da Alicia Luiza, 6, São Paulo (SP)

Em casa, o hábito da leitura ainda está longe de ser uma realidade, mas sempre convivi com livros pelo estímulo de minhas professoras de escola pública. Cresci e o livro continuou presente em minha vida, mas a cada ano parece que ele está mais caro.

Com o intuito de driblar isso, passei a frequentar sebos e bibliotecas. Sebos são espaços acolhedores que facilitam a compra com preços mais acessíveis. Mesmo sem dinheiro, ficava lá por horas lendo e procurando novos autores, ainda que não levasse nada para casa.

Mesmo nos sebos parece que tudo encareceu de uns tempos pra cá. Muitos fecharam, então está cada vez mais difícil garimpar exemplares a preços acessíveis.

Moro na zona leste de São Paulo e as bibliotecas com aqueles famigerados acervos ficam distante de casa. Mesmo assim, quando possível, passo por lá. Que dá vontade de ter aquele livro em casa para ler a hora que quiser e emprestar ao amigo que você sabe que irá adorar, dá! Por R$ 50? R$ 70? R$ 100? Complicado...

Victoria Nogueira Rosa de Oliveira, 21, São Paulo (SP)

Passei até o início dos meus 16 anos sem terminar de ler um livro não didático de 200 páginas. O acesso a livros sempre foi difícil na minha vida, sou de origem pobre, meus pais não tinham o hábito da leitura e comprar livros não era visto como um investimento.

Me tornei um leitor em 2020, após ler "Os miseráveis", de Victor Hugo, que eu havia comprado em um shopping de meu bairro. Fui atrás de outros como "O conto de duas cidades" de Charles Dickens e "As viagens de Gulliver", de Jonathan Swift. não me recordo o nome do Autor.

A notícia de que "pobres não lêem" foi um insulto para mim. Em um país em que a taxa de analfabetismo é alta e o governo não entrega uma educação decente, um comentário desse nível é angustiante.

Kalisson Oliveira da Silva, 16, Maceió (AL)

Sou filha de uma mãe solo, negra, que criou sozinha cinco filhos, com muita dificuldade financeira. Tinha dia que só comíamos porque recebíamos ajuda de pessoas próximas.

Minha mãe, que nunca conseguiu concluir os estudos por ter perdido os pais muito cedo e trabalhado muito nova, sempre me incentivou a ler e a estudar. Lembro de uma frase que ela sempre nos disse: “Como pobre, os estudos é tudo que eu posso lhes oferecer.”

Aprendi a ler muito cedo e era apaixonada por autores como Machado de Assis, Clarice Lispector e Pedro Bandeira. Mas minha mãe nunca pôde comprar livros para mim ou comíamos ou eu tinha livros. Eu ficava triste, mas entendia muito bem a nossa realidade.

Na 2ª série, uma professora chamada Lídia Félix admirou-se com minha paixão pelo universo dos livros e, sabendo das nossas dificuldades financeiras, passou a me emprestar os livros paradidáticos de sua filha. Toda semana ela chegava na escola com vários títulos e me mandava escolher, eu ficava muito feliz!... Eu lia muito rápido para acabar logo e começar a ler outro.

Na 7ª série, ganhei uma bolsa em um colégio particular e ia para a biblioteca estudar por horas. Cursei Direito e, embora eu já trabalhasse, os livros continuaram caros. Passei os cinco anos do curso estudando por livros emprestados e pdf.

Hoje sinto que venci. Sou resistência, porque nunca desisti. Mas reconheço que nunca foi fácil e que tive sorte de encontrar pessoas que me apoiaram e me incentivaram a ler e estudar.

Emanuela Maria da Conceição de Lima, 29, Recife (PE)

Quando criança, em Belford Roxo (RJ), a literatura era para mim uma figura hermética. As únicas pessoas que eu conhecia que tinham acesso a ela eram os poucos (três) parentes que conseguiram ingressar em uma universidade no início dos anos 2000. Ler era sinônimo de livrinhos evangélicos de 10 páginas, até que uma prima, que havia começado a cursar Cinema, me emprestou o seu "A fantástica fábrica de chocolate" como uma barganha para me levar ao cinema (coisa que eu nunca tinha feito também) —e me apaixonei perdidamente.

Queria ler, e ler tudo. Mas não havia dinheiro para livros. Não era algo tátil para nós: se não fosse para estudo, não era válido; como gastar com algo que "não dá retorno"?

Mas, como Jó, não desisti.

Meu primeiro livro foi comprado com o dinheiro de latinhas catadas durante o percurso que fazíamos (minha avó, minha mãe e meus irmãos) durante a tarde, que era quando dávamos a volta no bairro para que minha avó mantivesse o diabetes sob controle. Meu primeiro esboço literário veio logo depois.

Ler era minha forma de escapar de um ambiente homofóbico; de sonhar. Meu padrasto (que cursou até a 5ª série e morou dentro de um carro durante um tempo de sua vida) não gostava, dizia que livro era coisa de vagabundo, que valia muito mais trabalhar na obra, que eu morreria de fome se vivesse nessa de ler e escrever.

Neguei a ordem dele: continuei lendo, continuei escrevendo, pegando livros emprestado na biblioteca municipal, com colegas, estimulando o que era minha paixão.

Hoje, a vida não é fácil: estou desempregado, não me formei em nada além do ensino médio e ainda não conquistei a tão sonhada publicação, mas sei que foi a literatura que me permitiu abrir os olhos e enxergar outro futuro para mim e para os meus. É a literatura que me permitiu não morrer, por dentro e por fora, nos piores momentos.

Não importa se fui expulso de casa, ou se faltou comida, ou se eu trabalhei demais a ponto de me esgotar, não houve um dia (e aqui não há eufemismo) que não tive ao meu lado um livro para me dar alento.

Júlio Alves, 25, Rio das Ostras (RJ)

Desde que fui alfabetizada tenho paixão pela leitura e escrita. As professoras me incentivavam a ler os gibis da Turma da Mônica. Me apaixonei pelo "Soldadinho de Chumbo" que minha tia leu inúmeras vezes.

No Ensino Médio, minha professora de Língua Portuguesa, a Sônia, que jamais vou esquecer, me incentivou a ler Camilo Castelo Branco, Machado de Assis, Aluísio Azevedo, José Lins do Rego, Clarice Lispector, entre outros. Nessa época, pedi para que minha tia ficasse sócia do Círculo do Livro para que pudesse ler mais.

Uma das razões pelas quais me tornei professora foi pela paixão que tenho pela leitura e pela escrita. No início da carreira trabalhei em classes de alfabetização, o que foi uma experiência maravilhosa.

Tenho vários livros de papel que guardo com carinho com o objetivo de futuramente montar minha biblioteca. Adquiri um Kindle em que possuo vários títulos de autores consagrados.

Amo ler literatura, filosofia, arte e outros assuntos e por isso sou leitora assídua da Folha.

Evelin Ribeiro da Silva, 48, São Paulo (SP)

Via meu pai lendo e abria os livros fingindo que lia pra ver como era possível ele ficar tanto tempo naquilo. Minha curiosidade aumentou quando meus pais ganharam um monte de livros de um vizinho rico que havia morrido.

Ler é uma coisa maravilhosa que ninguém consegue tirar de ti. Ver que um grupo governamental acredita que é algo pra classes altas me entristece porque é descarada a discriminação de classe.

Já ajudei minha irmã a aprender a ler e tentei fazer minha avó, que lia somente a Bíblia, a ter outras leituras. Não vou parar nunca de fazer esse incentivo. É o único jeito de formarmos nossa criatividade e senso crítico.

Josué Rolin da Rosa, 26, Novo Hamburgo (RS)

A leitura engrandece a alma!

Para mim livros de leitura são como uma viagem 0800. Neste cenário fictício se pode mandar ou desmandar, rir ou chorar, perder ou ganhar. Se quiser pode viver o paraíso ou o inferno, a escolha é sua!

Sou de uma família de muitos irmãos e muita dificuldade para meus pais garantirem o pão na mesa, apesar de nunca o ter faltado. No entanto, para minha mãe, só havia um único álibi para vencer na vida: os estudos – e consequentemente a leitura estava intrínseca nesse processo.

A minha primeira experiência marcante com uma obra literária foi um clássico, de autoria José Mauro de Vasconcelos, O Meu Pé de Laranja Lima. Essa obra autobiográfica narra a história do próprio autor. Ela me tocou profundamente. Eu me sentia como o menino Zezé – protagonista da história – que tinha uma infância ingênua e sofrida e tentava sobreviver em um mundo cheio de dificuldades e enfermidades.

À medida que eu indo lendo mais me emocionava. Ao lado da minha mãe –descendente de imigrantes italianos que ganhava a vida como lavadeira– ela ralhava comigo e me ameaçava a me proibir de ler, caso eu continuasse derramando rios de lágrimas.

O tempo passou, as ameaças da minha mãe soaram para mim somente como cuidados maternos, pois sempre estive profundamente envolvida em diversos mundos literários. Em minha jornada acadêmica dezenas de obras contribuíram para moldar minha leitura de mundo. Outras fizeram parte do sonho da minha prole que, incansavelmente, elas ouviam até que embarcavam em um soninho profundo!

Concluí Letras, fiz diversas especializações, tornei-me professora, orientadora e diretora escolar. Hoje como avó continuo me deslumbrando e me emocionando da mesma forma em que li meu primeiro clássico.

Eleni Gentil Amaral, 64, Fortaleza (CE)


Nasci numa casa sem livros, e, quando criança, todos os que li saíram da biblioteca, com exceção de uma espécie de manual do mundo, comprado por minha mãe na mão de um daqueles camelôs que uma vez por mês passava de porta vendendo de tudo um pouco.

De onde eu vim, uma pequena cidade do sertão baiano, faltavam livrarias, mas não faltava quem tivesse conhecido um tal que de tanto ler acabara ficando doido. Boato corriqueiro, sobretudo entre os mais velhos da região, parcela da sociedade sobre a qual incidia um monstruoso índice de analfabetismo que ainda hoje custa a ceder. Ainda assim, não era da ignorância que derivava a ausência de livros, mas, verdadeiramente, de uma outra ausência, a de recursos.

Entre os meus avós, o receio de que eu enlouquecesse sempre foi obliterado por um profundo respeito. Era-lhes incompreensível que eu, criança, passasse tantas horas sozinho, com a cabeça baixa e os olhos nas letras miúdas, mas não escondiam o orgulho de dizer a quem por mim perguntasse que eu estava no quarto, lendo.

Quando criança li muito, e teria lido muito mais se aquele único livro comprado, exceção em minha casa, não precisasse ser parcelado em três vezes para que nos fosse possível pagar. Os dados do IBGE são inquestionáveis, no Brasil só rico pode comprar livros. E em um país desigual como o nosso, trata-se de uma consequência óbvia. O que não é óbvio, mas, pelo contrário, totalmente inteligível é: onde estão os livros que embasam as decisões disso que chamamos governo?

Murilo Souza, 25, Campinas (SP)

Antes da pandemia eu costumava ir às livrarias para conhecer os novos lançamentos, mas a compra mesmo era sempre feita pela internet, de preferência em sebos virtuais. Isso porque o valor é um fator decisivo na hora de passar o cartão. No entanto, mesmo com os preços mais baixos, antes de realizar a compra, pesquiso nas principais livrarias e sites de compra em busca da melhor oferta.

Se ainda acho que o preço está alto, deixo no carrinho e espero uma ou duas semanas até que abaixe. Essa possibilidade de "barganha" é um atrativo muito grande.

Além disso, a minha necessidade de ler aumentou muito, até pela maior exposição às telas de celular e computador. Ler é, para mim, um prazer e uma ferramenta de conhecimento. Dizer que livro é coisa de gente rica, é dizer que conhecimento e acesso à cultura não são interesses de gente pobre.

Caio Henrique, 20, São Paulo (SP)


Fui criado em uma família simples, suburbana, que não tinha dez livros em casa. Peguei gosto pela leitura na escola pública, quando me foram apresentados os títulos da série Vagalume.

A biblioteca da escola ficava em pavilhão de madeira, telha de zinco, insuportavelmente quente no verão, e fria no inverno gaúcho. Espaço acanhado, com poucos exemplares.

Contudo, todo esse contexto era irrelevante pra mim. O que eu queria era ler, simplesmente. Passei pela universidade particular com muitas dificuldades financeiras. Porém, seguia lendo. Seguia na biblioteca. Com o pouco que conseguia guardar de dinheiro, adquiria livros.

Hoje, adulto, com família formada, tenho condições de comprá-los. Sinto-me realmente rico, mas não financeiramente. Minha riqueza está na estante, na fila de títulos lidos ou que ainda vou ler. É a herança que deixarei para meu guri. Por isso, jamais aceitarei que acesso a livros seja coisa de rico ou qualquer outra afirmação desse tipo. Jamais! Um país que acredita nisso é um país pobre.

Lucas Barroso, 37, jornalista, Porto Alegre (RS)

Eu tinha 13 anos, filha de mãe analfabeta, estudava em escola pública. O professor de português da sétima série, achando que eu era mais interessada que a média, me deu uma sacola de supermercado contendo uma gramática do Rocha Lima e pelo menos uns 15 clássicos da literatura, tudo de segunda mão. Ele já poderia ter mudado minha vida só naquele gesto, com Machado de Assis, Graciliano Ramos e José Lins do Rego, mas foi além: me apresentou a biblioteca pública. Desde então, não passei um único dia da minha vida sem ler. Tudo o que sou e virei a ser devo aos livros.

Edileuza Pimenta de Lima, 36, São Paulo (SP)


Tive uma infância típica de subúrbio na Vila Carrão, zona leste de São Paulo. Até meus doze ou treze anos, as atividades de lazer se resumiam a brincadeiras com os amigos da rua. Dessa forma, especialmente nas férias, o habitual era sair de casa logo pela manhã, retornando apenas ao anoitecer, depois de um dia intenso de atividades não supervisionadas. Até então, nenhum problema, já que há também pontos positivos na socialização e na prática de atividades físicas, ainda mais no período de formação infantil.

No entanto, ao iniciar a adolescência, as coisas começaram a se complicar. Aquelas crianças, majoritariamente de classe média-baixa, começaram a se envolver em atividades ilícitas, como pixação ou pequenos furtos na mercearia do bairro. Neste mesmo período, meu pai, que nunca foi um homem de posses, adquiriu com muito esforço uma coleção completa da enciclopédia Larousse Cultural, pela qual me encantei de imediato. Passava horas do meu dia lendo principalmente conteúdo relacionado aos países, suas bandeiras, moedas, populações, capitais, etc. O interesse pela leitura foi se desenvolvendo aos poucos, de modo que por volta dos quinze anos, já estava habituado com leituras mais sofisticadas, especialmente clássicos da literatura brasileira, que eram os títulos mais abundantes no sebo do bairro.

É evidente que as atividades não são exatamente complementares; não podia ficar na rua o dia todo se quisesse ler. E fui cada vez mais dando prioridade à leitura, de modo que, enquanto meus antigos amigos de infância foram sendo presos ou morrendo muito jovens, aquele simples, mas árduo ato do meu pai de adquirir uma enciclopédia, certamente me salvou de ter um destino similar. Hoje sou graduado em Letras pela Universidade de São Paulo, sendo evidentemente o único daquele círculo de amigos a me formar em uma universidade pública. Se os livros fossem ainda mais caros durante a minha formação intelectual, certamente não teria a possibilidade de me envolver tanto com literatura e o resultado seria outro.

Sendo assim, rechaço a opinião de que apenas ricos consomem livros, pelo contrário, sou um exemplo vivo da possibilidade de emancipação das classes baixas brasileiras através da atividade de leitura. Só a intelectualidade pode salvar o povo brasileiro, portanto prego resistência a qualquer atitude que vise dificultar ainda mais o acesso a livros em um país já tão dominado pela cultura da desinformação.

Daniel Salerno, 32, São Paulo (SP)

Nasci no subúrbio do Rio de Janeiro e o lugar mais mágico da minha infância era a biblioteca da administração regional. Os livros de literatura sempre me ajudaram a superar a dureza da realidade e os livros científicos me ajudaram a ter conhecimento e profissão. Tenho quase 50 anos e hoje posso comprar livros. E cada vez me lembro que essa conquista não foi fácil. Pobres lêem. Pobres querem ler. Pobres precisam ler para entender.

Luciana Cabral, 46, jornalista e professora, Rio de Janeiro (RJ)

Na terceira série, a professora propôs um trabalho baseado no livro O Menino Maluquinho, do Ziraldo. Todos tínhamos que comprar nosso exemplar. Estudava numa escola pública e cheguei em casa com a novidade, com o pé atrás, porque sabia que era uma despesa a mais.

Nos dias seguintes, os colegas foram chegando, cada um com o seu livro. E eu ia pedindo emprestado, copiando uma ou outra passagem. Todos os dias, eu esperava meu pai chegar com o meu. Até que no final do mês - e hoje eu entendo, era o dia do pagamento - meu pai apareceu com um embrulho pardo. Lembro até da roupa que ele usava, uma jaqueta jeans. E lembro do olhar, entre culpado e aliviado, por finalmente poder dar ao filho algo que ele tanto esperava.

Depois de lermos, a classe fez um quadro com bolinhas de papel crepom. Era o projeto final pós leitura. Foi exposto no Sesc, e levou o nome de todos os alunos. Não pude ir ver nosso trabalho, mas deixei um pedacinho meu lá. E ele, o livro, deixou um pedaço enorme em mim.

Hoje, sou jornalista. Tenho absoluta certeza de que sem a literatura minha trajetória seria infinitamente diferente.

Jonas Guedes Henrique, 33, Maracanaú (CE)

A leitura mudou a minha vida.

Sou professora do Instituto de Economia da UFRJ, a 4ª filha de um casal de agricultores semianalfabetos que migraram quando eu tinha três anos de Domingos Martins, uma cidade do interior do Espírito Santo, para Cariacica, na grande Vitória, no mesmo estado.

Sempre fui apaixonada por livros e usava meu dinheiro da merenda para comprar livros de um colega que me vendia. Um tempo depois a escola descobriu que ele furtava os livros da biblioteca e eu (sem saber) era receptora. Meus pais devolveram todos os livros para escola, óbvio.

Isso não me impediu de continuar minha saga pela leitura. Lia os livros de meus irmãos mais velhos. Quando eu tinha 12 anos tive a sorte de conhecer um amigo do meu irmão que era assinante de um clube de leitores chamado “círculo do livro”. Foi a minha salvação como leitora, uma vez que meus pais não podiam gastar com livros que eram um bem de “luxo”. Nesse momento passei a ler muito mais.

Os autores selecionados pelo círculo do livro eram grandes best sellers pelos quais já não tenho tanto interesse (Danielle Steel, Sidney Sheldon, Agatha Christie etc...), mas foram fundamentais para minha formação. Em 1992 fiz vestibular para o curso de Economia em Viçosa (MG) e atingi nota acima de 93% em língua portuguesa, mesmo tendo estudado toda a minha vida em escolas públicas e tendo trabalhado durante todo meu ensino médio.

Muito grata pelo Féricles que compartilhou comigo a maravilhosa experiência daquelas leituras.

Sou uma entusiasta da democratização da leitura para todxs.

Maria Isabel Busato, 46, Petrópolis (RJ)

Minha história com a leitura começou na escola aos seis anos. Minha mãe por não ter condições financeiras sempre me levava para a biblioteca que tinha na minha cidade para ler. Meu primeiro livro lido foi o Sítio do Pica-Pau amarelo. Conforme a nossa situação ia melhorando ela sempre comprava um livrinho para minha irmã e eu dividirmos e isso só fez com que eu amasse mais e mais a leitura.

Depois que cresci e comecei a trabalhar sempre que posso compro um livro e hoje sou orgulhosa por ter mais de 100 títulos nacionais e internacionais.

O incentivo à leitura é a única coisa que tem para aumentar em nosso cenário. Se políticos realmente se importassem com a população iriam abrir mais bibliotecas e ou incentivar as classes C, D e E a ler mais. A leitura te leva onde o bolso jamais levaria.

Mikaela França Marinho Ferreira, 25, Rio de Janeiro (RJ)

Quando eu paro para pensar na minha primeira memória relacionada à leitura me vem a imagem da pequena estante na casa da minha avó, onde tinham vários livros antigos e surrados de conto de fadas. Bela Adormecida, João e Maria, Rapunzel. Mas era muito difícil consumir essas histórias, afinal, meus avós haviam completado apenas a quarta série e liam e escreviam de maneira precária.

Eu não via a hora de aprender a ler para poder matar minha vontade a hora que eu quisesse, sozinha. Meu pai sempre leu jornal. Independente da hora que ele chegasse em casa, ler o jornal (começando pela caderno de esportes) era um ritual que se repetia todo dia.

Eu cresci em Itaquera, na zona leste, e a gente sempre andava muito de metrô para resolver coisas no centro. E sempre me chamava a atenção que meu pai tirava ou o jornal ou o livro da bolsa e começava a ler. Parecia tão legal. Eu não via a hora de poder fazer o mesmo.

E assim o fiz. Finalmente entrei na escola e aprendi a ler. E queria ler tudo. Desde placas na rua até rótulos de shampoo na hora do banho. Meu pai, leitor voraz, percebendo minhas atitudes, resolveu me dar de presente uma assinatura de gibi da Turma da Mônica. Não sei se eu gostava mais de ler as histórias, ou de receber uma carta com meu nome.

Nunca fui de ter livros novos, com aquele cheiro gostoso. Livro ainda é caro por aqui. Mas sempre tinha alguém que emprestava: uma amiga pegava um livro na estante de casa para emprestar, um livro interessante que aparecia na biblioteca da escola. Quando eu fiquei mocinha conseguia ler os livros de "adulto" que tinha em casa. Comprar um livro que eu queria mesmo era quando eu pegava metrô com meu pai e ia para os sebos na Praça João Mendes. Livros usados, com dedicatórias para outras pessoas que viraram novos na minha imaginação.

Pra mim, começar a ler teve um misto de exemplo em casa, com uma personalidade curiosa e com pais que incentivavam isso, mesmo no extremo da zl.

Tamiris Amaral, 33, São Paulo (SP)

Quando eu comecei a ler, os únicos livros que eu tinha acesso eram os da biblioteca da escola. Naquela época, ninguém falava de comprar nada pela internet e, como moro em uma cidade pequena do interior, aqui não tem livraria e nenhum lugar onde se possa comprar livros.

Quando eu queria ter algum, eu tinha que escolher bem qual eu queria mais, porque minha mãe não podia comprar mais de um, pois eles são caros. Eu falava pra ela o livro e esperava ela ter algo para resolver na capital e trazer o livro pra mim, isso acontecia umas três ou quatro vezes no ano.

Eu não era rica e continuo não sendo, apesar de hoje eu poder ter o privilégio de comprar mais livros do que antigamente. Os livros continuam não sendo tão acessíveis e dói saber que essa distância, entre os livros e as pessoas, pode aumentar. Livros curam pessoas, eles me salvaram quando ninguém mais tentou.

Lanay Katalyne de Souza Silva, 20, São José da Coroa Grande (PE)

Como assim só ricos compram livros? Foi essa minha reação quando a notícia saiu nas redes sociais e jornais. Sempre fui pobre e li. Fui incentivada pela minha mãe que com sua simplicidade adorava ler. Com o troco que sobrava do pão ou da mistura ela juntava e comprava livros para nós, escondido do meu pai que nunca achou que livro era algo benéfico.

Quando não podia comprar me levava a bibliotecas, e assim me apaixonei pela leitura. Houve uma fase de grana curta e muitas dificuldades que a biblioteca e os livros me salvaram. Nessa época eu li 60 livros em um ano dos mais diversos gêneros.

Amo Machado de Assis e já li obras de Nelson Rodrigues, Shakespeare, Gil Vicente e tantos outros que o texto ficaria imenso.

Sempre que posso compro livros, já tenho uma lista de novos livros que vou adquirir aos poucos —ainda sou pobre.

Então, essa frase da Receita foi muito equivocada e mostra o quanto há desprezo e preconceito com as classes mais baixas julgando-as inferiores em vários aspectos.

Carla Vitor, 49, São Paulo (SP)


Tenho 18 anos. Quando eu era pequena, meus pais incentivaram muito a leitura. Na época acabei não dando valor. Quando entrei na adolescência, decidi olhar para esse mundo da leitura. Creio que se não tivesse tido aquele incentivo quando criança, não seria apaixonada como sou hoje.

Para mim, a visão de que somente os mais ricos se interessam por livros que não sejam didáticos é totalmente estereotipada. Ler não acontece apenas na escola, a leitura para muitos é prazer, é válvula de escape. Para mim, ler é viajar sem sair do lugar, ir para outro mundo e continuar no planeta Terra. Lendo eu me transformo, é uma metamorfose.

Hoje o meu acesso aos livros vem da minha avó, que se ofereceu para me ajudar a comprá-los com uma certa quantia por mês. Até pouco tempo atrás era com o dinheiro que recebo de uma bolsa de estudos.

Eduarda Oliveira Azevedo, 18, Rio de Janeiro (RJ)


Trabalho há 15 anos na biblioteca pública municipal central da minha cidade atendendo ao público. Faço cadastros, empresto e recebo livros e também faço serviços internos. Atualmente estamos fechados e de férias coletivas por causa da pandemia. Normalmente muitas pessoas, de todas as classes sociais, pegam livros não didáticos emprestados. Os livros no Brasil já são muito caros, deveriam diminuir os impostos sobre eles. Até moradores de rua frequentam nossa biblioteca.

Rodrigo Luis Tutini, 47, São José do Rio Preto (SP)


Quando criança eu vivia numa pequena cidade do sul de Minas Gerais cuja população era majoritariamente católica. Para meu azar, minha família fazia parte da minoria presbiteriana local. Para minha sorte, minha família dava extrema importância à habilidade de ler porque isso permitia que participássemos ativamente das práticas religiosas —leitura da Bíblia, aprender as letras dos hinos, etc.

Assim, o hábito da leitura me salvou do bullying que sofria pela intolerância religiosa pois me permitia refugiar na biblioteca do colégio na hora do recreio.

Na época, a estória do rouxinol e a rosa, o episódio bíblico da baleia que engolia Jonas, as estórias dos espiões da CIA e outras mais se fundiam na minha mente, fazendo parte do mesmo imaginário e me transportavam para bem longe daquele ambiente hostil.

O que me impulsionou a ler avidamente com o tempo deixou de ser uma arma de autodefesa e se transformou numa importante ferramenta de empoderamento. De fato, minha habilidade com as letras fascinavam os adultos ao derredor e me abriram as portas de bibliotecas particulares de professores e de membros mais abastados da comunidade religiosa. Com isso, eu passei a ter acesso a tesouros literários nunca de outro modo ao meu alcance.

Mesmo fora do âmbito escolar e/ou religioso, causava admiração minha desenvoltura com as letras. Lembro vividamente da presença de vizinhos e amigos da família sentados sob a paineira que tínhamos em nosso quintal para ouvir deslumbrados as estórias que eu lhes contava. Eu me sentia a própria Sherazade - um dia contava a estória de Esmeralda e a Cabrita Djali, depois as peripécias dos três mosqueteiros, as desventuras dos retirantes da seca - o sofrimento da cadela baleia os levavam às lágrimas.

Cresci e me mudei para São Paulo. Rapidamente descobri o lugar mais acolhedor da cidade, a biblioteca Mário de Andrade. Nela pude encontrar guarida para meus sonhos de me tornar universitária.

Sonho universitário realizado, ganhei o mundo e pude conhecer muitos dos lugares que ambientaram as estórias de minha leituras infantis.

Minha formação acadêmica me levou a especializar em tributos. Justo aqui reside meu assombro com a avaliação das autoridades tributárias sobre o consumo de livros, melhor dizendo —investimento em livros— vis-à-vis ao benefício fiscal para aquisição de armas de fogo. Se não se justifica socialmente a renúncia fiscal na venda de livros, na de armas muito menos porque o uso de armas se destina a proteger prioritariamente patrimônio. Portanto, sob a lógica fiscal, as transações com armas deveriam ser sobretaxadas para permitir que livros ficassem desonerados dos tributos e mais barato para sua aquisição.

Fica evidente a contradição no discurso da distribuição de privilégios tributários na aquisição de livros versus a de armas.

Luiza Nunes, 57, São Paulo (SP)

Minha relação com os livros começou bem cedo. Sempre gostei de ler. Na tenra infância ia à biblioteca pública da cidade onde moro e lia HQs enquanto minha irmã, três anos mais velha, fazia seus trabalhos escolares. Venho de família pobre sem acesso a livros. Mas eu tentava de várias formas ler o que chegava às minhas mãos. Livros de outras pessoas que eu devorava rapidamente, pois tinha que devolver logo.

Na falta de dinheiro para as compras, frequentava as bibliotecas para conseguir ler. Quando sobrava um dinheirinho, visitava o antigo Sebo Lido, hoje fechado, onde conseguia comprar alguns exemplares bem baratos.

Depois veio o Sebo Capricho e até hoje faço compras nele, pois muitas vezes os livros têm histórias do antigo leitor ou apenas o seu nome. O que me faz imaginar como seria essa pessoa.

Não creio que a falta de dinheiro seja um empecilho para a leitura. Vejo muitas pessoas com fácil acesso a livrarias, que não lêem um livro sequer no ano.

O que falta talvez seja um incentivo maior àqueles que não têm gosto pela leitura. Claro que o valor de um livro novo às vezes é desanimador. Ao mesmo tempo, conheço pessoas que pagam preços altíssimos por um celular, mas acham que R$ 20 é um valor caro demais para um livro.

Enfim, ler é viajar nas páginas dos livros, é imaginar os personagens e torcer ou não por cada um. Não consigo imaginar a minha vida sem um livro por perto. O mais triste é saber que não conseguirei ler todos os livros que gostaria, mas sigo tentando e jamais desistirei.
E gosto de boa literatura, os grandes clássicos. Hoje finalizei o 21° livro do ano de 2021.

Rosimeire Furlanetto, 54, Londrina (PR)

Eu sou um apaixonado pela leitura e sei que o livro é capaz de mudar a vida de uma pessoa. Não tenho uma história dos meus pais, mas tenho uma doce lembrança da infância, quando brincando num lixão que tinha próximo de minha casa encontrei um gibi do Zé Carioca e ali começou meu amor pelas histórias em quadrinhos.

Sempre digo que o gibi mudou minha vida, me fez sonhar e tenho lutado para conquistar meus sonhos. Me formei em psicologia, virei palestrante e hoje sou vereador por Campo Grande. Tenho um trabalho voltado para educação e cultura. Quero fazer de Campo Grande uma cidade de leitores. O livro não muda o mundo, mas muda as pessoas. Quem muda o mundo são as pessoas e gosto de provocar nelas o sonho adormecido.

Eu sou um cara esquecido. Um dia essa minha mania me rendeu uma história. Deixei um livro no vidro de um carro —todos os livros têm meu telefone. Para minha surpresa, algumas horas depois, recebi uma mensagem que dizia: “Você salvou a minha vida. Estou cheia de problemas, entrei no mercado para comprar uma bebida bem forte, pensava seriamente em tirar a minha vida, mas quando voltei e encontrei o livro que você me deixou, senti no fundo do coração que a vida é feita para ser vivida e quero te agradecer. O livro que deixei foi do Augusto Cury, “Nunca Desista dos Seus Sonhos”, e esse livro salvou uma vida”.

Livros salvam vidas, e por isso quero seguir provocando nas pessoas o amor pela leitura. Não é que as pessoas não gostam de ler, é que muitas vezes os livros não chegam até elas.

Ronilço Guerreiro, 52, Campo Grande (MS)

Ganhei um livro

Brasileiro não tem o hábito de ler.
É o que dizem as pesquisas.

Bibliotecas são sisudas. Quem chega lá, ou é para estudar ou para fazer pesquisas. Tudo por obrigação.
É o que dizem as pesquisas.

Esmolas financiam o uso de drogas das crianças em situação de rua.
É o que dizem as pesquisas.

Crianças e adolescentes arriscam suas vidas com trabalho infantil e mendicância nas ruas. A ONU Brasil falou que são cinco milhões nessa condição. O IBGE não contou. Mistério.

Fogem de casa por conta de violência doméstica e o escambau.
Pequenos refugiados urbanos na cidade de São Paulo.
É o que dizem as pesquisas.

A mais cosmopolita de todas?
Cultural? Maior centro financeiro?
É o que dizem as pesquisas?

Daí que ele chegou e pediu um dinheiro.

Eu só tinha um livro.
Ofereci.
Ele pegou, olhou e sorriu.

Saiu saltitante e gritando pros amigos debaixo do viaduto:
“Ganhei um livro, ganhei um livro, ganhei um livro!”

Do desterro pra glória, da agonia para o êxtase.

O que é mesmo que dizem as pesquisas?

Suely Aparecida Schraner, 70, São Paulo (SP)

Sou natural do Rio de Janeiro (RJ) e da favela da Rocinha. Tenho 32 anos e moro há três em Aracaju (SE). Meu contato com a leitura começou na infância, através da brinquedoteca da escola pública Pedro Ernesto no Humaitá.

Meus pais são analfabetos funcionais, tiveram acesso apenas à alfabetização e, quando eu era criança, comprar livros não era uma prioridade —comida, sim. Entretanto, através desse primeiro contato com a leitura —livros como "Menina Bonita do Laço de Fita" (de Ana Maria Machado) e a coleção "Quem Tem Medo?"—, pude carregar uma paixão pela leitura, apesar de não ter dinheiro para comprá-los.

Eu sempre lia e alugava livros na biblioteca da escola —no Fundamental 2, estudei no Christiano Hamann na Gávea, e li quase toda a coleção de “Harry Potter” (que era febre na minha quase adolescência). Minha mãe percebeu meu gosto pela leitura, e lembro dela comprar livros para mim quando a situação de vida começou a melhorar —eu já tinha meus 13, 15 anos. E eu amava ler Stephen King.

Meu gosto por ler me levou a uma graduação e um mestrado em História. Hoje sou professora de escolas particulares e sempre busco incentivar meus alunos à leitura. E parabenizar aqueles que leem.
Ler aguça a imaginação, nos leva a lugares e sentimentos difíceis de traduzir.

Resolvi escrever esse texto após terminar “Hibisco Roxo” da Chimamanda Ngozi Adichie, e iniciar “As Origens do Totalitarismo”, de Hannah Arendt.

Débora Meira, 32, Aracaju (SE)

Moro no interior da Zona da Mata Mineira (Carangola), lugar que não há livraria. Sou de família muito humilde, que mora em uma comunidade rural e não teve acesso aos estudos e leituras didáticas e não didáticas. Porém, sempre me incentivaram a adquirir conhecimento e nunca mediram esforços para meus acessos educacionais.

O meu contato com a literatura não didática surgiu através de minha professora na educação básica. Fazíamos riquíssimos trabalhos apoiados em grandes nomes da Literatura brasileira como Machado de Assis, José de Alencar, Cecília Meireles, Carlos Drummond, Graciliano Ramos, dentre outros.

Com o passar dos anos, me distanciei da leitura. Às vezes, lia esporadicamente. Até que em 2018, com novas companhias, surgiu um grande incentivo e de lá pra cá, não parei mais.

Era um refúgio para os dias difíceis e percebi uma grande facilidade na fala, escrita, compreensão, interpretação, etc. A literatura me trouxe maturidade e aguçou o senso crítico em todas as escalas.

Ao longo da repercussão após o posicionamento da Receita, vi várias livrarias com frases do tipo " Se rico lesse a gente não estaria nessa merda", e como é real. Estou longe de ser considerada rica. Pagar aluguel, fazer as despesas de casa e bancar meu "luxo" ao comprar livros não é fácil. Santo Cartão de Crédito.

Então, Receita, respondo não. Afirmo com toda certeza que ricos não acessam livros. Lido com uma parcela da classe média da minha cidade, e que tristeza. Um verdadeiro "ensaio sobre a imbecilidade".

Sobre o meu futuro e o da minha cidade, sonho em fundar uma livraria por aqui. Trabalhar para transmitir a riqueza que a literatura proporciona a nossa psique.

Ricos, vamos ler?

Renata Ferreira Costa, universitária e secretária, Carangola (MG)

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