Banco do Vaticano alertou sobre dinheiro desviado no Rio

Instituição ligada à igreja comunicou Ministério Público Federal sobre depósito feito por ex-conselheiro do TCE

Vista do banco do Vaticano, no Vaticano
Vista do banco do Vaticano, no Vaticano - Domenico Stinellis - 28.jan.2014/Associated Press
Italo Nogueira
Rio de Janeiro

Um alerta do Vaticano foi a informação inicial para que o Ministério Público Federal identificasse uma conta secreta que tinha como favorecido José Gomes Graciosa, conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ).

Ele e outros cinco membros afastados da corte foram denunciados no fim de março pela Procuradoria-Geral da República sob acusação de corrupção e lavagem de dinheiro. O grupo é acusado de ter recebido ao menos R$ 35 milhões em propina de empreiteiras, fornecedoras de alimentação e empresários de ônibus.

Ex-deputado e membro do TCE-RJ desde 1997, Graciosa fez em outubro de 2016 uma doação de US$ 988,3 mil –R$ 3,2 milhões segundo câmbio da época– para o banco da Santa Sé. As autoridades financeiras do Vaticano informaram dois meses depois ao Coaf (Conselho de Controle das Atividades Financeiras) sobre a movimentação considerada suspeita.

O dinheiro saiu de uma conta nas Bahamas em nome da empresa La Camus Corp com a autorização de Graciosa. A companhia não era de conhecimento das autoridades brasileiras.

Informações enviadas por Bahamas indicaram que o conselheiro era o responsável pelo empreendimento, que também tinha como beneficiários a esposa e filhos do conselheiro afastado.

Além disso, as autoridades do país caribenho informaram sobre a possibilidade de existência de outra conta em nome da mesma empresa na Suíça –a PGR ainda tenta cooperação jurídica com a nação europeia.

O Ministério Público Federal (MPF) afirma que o esquema de corrupção perdurou por ao menos 20 anos no TCE-RJ, tendo como coordenador o conselheiro ocupante da presidência do órgão.

Graciosa comandou a corte por seis anos (2001-2006), período em que repassava R$ 50 mil mensais aos integrantes do órgão em caixas de sapato entregues em seu gabinete, segundo depoimentos.

O conselheiro afastado também demonstrou preocupação com o avanço das investigações sobre o TCE em dezembro de 2016, duas semanas após a prisão do ex-governador Sérgio Cabral, preso no Paraná.

A Polícia Federal encontrou no telefone de Jonas Lopes, ex-conselheiro e delator do esquema, um diálogo em que eles comentam reportagem sobre Aloysio Neves, outro membro do tribunal acusado.

"Pois é, amigo. Todos sabíamos dessas fragilidades. Rezemos para que pare por aí!", escreveu Graciosa, quando as operações ainda não haviam atingido o TCE.

Assim como Cabral, Graciosa também foi citado na delação premiada da diretora comercial da H. Stern, Maria Luiza Trotta. 

Ele adquiriu, entre 2013 e 2018, R$ 94,6 mil em joias com dinheiro em espécie.

De acordo com as investigações, o conselheiro lavava dinheiro por meio de um salão de beleza em nome de sua mulher.

As investigações dos desdobramentos da Lava Jato no TCE do Rio afastaram seis conselheiros da corte, sendo que um, o ex-presidente Jonas Lopes, se tornou delator. Restou apenas a conselheira Marianna Montebello, não envolvida no caso.

Procurada pela reportagem, a defesa de Graciosa não comentou o caso até a conclusão desta edição.

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