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Brasil não admite mais tratamentos diferenciados, diz Manuela D'Ávila sobre Roda Viva

Interrupções a respostas da pré-candidata no programa geraram debate sobre machismo

Marco Rodrigo Almeida
São Paulo

A sociedade brasileira não admite mais tratamentos diferenciados para homens e mulheres, comentou Manuela D'Ávila nesta sexta (29) a respeito de sua participação no programa Roda Viva.

Na entrevista exibida pela TV Cultura na última segunda (25), a pré-candidata do PC do B à Presidência da República queixou-se de ser interrompida constantemente pelos entrevistadores. O caso gerou debate nas redes sociais sobre machismo.

Os comentários em defesa de Manuela se valeram do termo em inglês “manterrupting”, flexão de “man” (homem) e “interrupting” (interrompendo), usado para apontar situações em que a fala de uma mulher é bruscamente atravessada por declarações de um homem. Um abaixo-assinado online com mais de 63 mil assinaturas na noite desta sexta (26) pedia que a TV Cultura se retratasse com a pré-candidata e marcasse uma nova entrevista com ela.

“Eu vi uma reação grande da sociedade brasileira toda. O que houve de novo foi essa reação. Não foi reduzida a grupos organizados de mulheres, foi algo absolutamente massivo. Isso é o novo. O novo é a sociedade brasileira dizer que não admite mais tratamento diferenciado para mulheres e homens”, declarou Manuela à Folha após debate com estudantes na Casa do Saber, em São Paulo.

Na internet, Manuela reproduziu memes e textos que diziam que foi vítima de machismo no programa. Ao ser questionada pela Folha se o comportamento dos entrevistadores revelou preconceito de gênero, ela evitou usar o termo machismo.

“A ciência explica algumas coisas. A comunicação também tem sua teoria. Basta tabular e ver. O bom é que as pessoas puderam chegar a suas próprias conclusões vendo o programa. Não é uma questão de uma pergunta ser boa ou ruim. Não está no campo da subjetividade. Está no campo da objetividade, daquilo que pode ser contabilizado. Aí fica mais fácil.” 

Segundo levantamento da Folha, a deputada estadual pelo Rio Grande do Sul foi interrompida ao menos 40 vezes durante a entrevista. O jornal considerou como interrupção as ocasiões em que a entrevistada teve dificuldades de concluir sua fala devido a intervenção de alguém.

Embora o formato do Roda Viva, em que vários entrevistadores fazem perguntas a uma mesma pessoa, favoreça esse tipo de interrupção, o caso de Manuela foi atípico, se comparado ao de outros pré-candidatos, homens ou mulheres, sabatinados pelo programa recentemente.

Marina Silva (Rede) foi interrompida apenas 3 vezes. Guilherme Boulos (PSOL) e Ciro Gomes (PDT), 9 e 8 vezes, respectivamente. Com Ciro, por sinal, deu-se com maior frequência o oposto: interrompeu seus entrevistadores em 16 ocasiões.

A banca de entrevistadores era composta pelos jornalistas Vera Magalhães (O Estado de S. Paulo), Letícia Casado (Folha), João Gabriel de Lima (revista Exame), o bacharel em filosofia Joel Pinheiro da Fonseca (colunista da Folha) e o diretor da Sociedade Rural Brasileira, Frederico D’Ávila

Sobretudo a participação deste último, coordenador do programa rural do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), foi contestada nas redes sociais, por sua ligação com um nome no polo oposto da pré-candidata do PC do B.

“Não estabeleci nenhum veto a ele porque imaginei que, se o escalaram, ele estava dentro de um sistema de programa de perguntas e respostas. Eu sabia quem ele era, e achei que ele estava ali para fazer perguntas e me deixar respondê-las. Não foi o que aconteceu”, disse Manuela.  

Manuela e Frederico travaram os principais embates, especialmente quando a pré-candidata foi questionada por ele a respeito de estupro e agricultura. “Eu não consigo terminar um raciocínio”, queixou-se ela.

Frederico D’Ávila disse à Folha que eventuais interrupções tiveram como objeto fazer com que a “candidata pudesse melhor explicar seus posicionamentos em relação a temas praticamente indefensáveis, inclusive no tocante à ideologia assassina que consta no nome do seu partido e que matou milhares de inocentes durante o último século”.

Mas Manuela não respondeu a nenhuma das perguntas, diz ele. Citou como exemplo: “Ela, como defensora das mulheres, defende a castração química para estupradores?”

Sobre esse tema, Manuela afirmou à Folha: “Basta ver o vídeo para ver o que penso”.

No Roda Viva, D’Ávila perguntou quatro vezes se ela defenderia essa punição para estupradores. Manuela disse defender “que tenha menos estupro no Brasil”. “A gente faz isso não votando em candidato que defende que mulher possa ser estuprada”, completou, fazendo referência a Bolsonaro, réu no STF (Supremo Tribunal Federal) sob acusação de incitação ao crime de estupro. Em 2014, Bolsonaro disse à deputada Maria do Rosário (PT-RS), no plenário da Câmara, que não a estupraria porque “ela não merece”.

No Roda Viva, D’Ávila defendeu que a castração química resolveria esse problema no país. Manuela rebateu: “Não, para isso a gente tem que acabar com a cultura do estupro no Brasil”.

ENTREVISTADORES REBATEM ACUSAÇÕES DE MACHISMO

O apresentador do Roda Viva, Ricardo Lessa, rechaçou qualquer acusação de preconceito. “Ela teve mais de 50% de cada bloco de fala sem interrupção. Ao todo, isso deve dar mais de 40 minutos de falas limpas [de total de 80 minutos]. É normal que um debate fique mais acalorado. Não é questão de gênero, mas de jornalismo. Ela não saiu se sentido vítima de ninguém, ela não se queixou disso. Isso foi algo que surgiu depois do programa." 

Vera Magalhães também negou, em rede social, qualquer atitude machista. “Fiz entrevistas com Ciro, Boulos, Bolsonaro e Alckmin. Todos se queixaram de ser interrompidos. Com Ciro virou um debate. Mas diante de uma mulher, Manuela, a interrupção vira ‘manterruption’.”

"Sou mulher e atuo em ambientes predominantemente masculinos (Congresso, STF, redações, minha casa). Ouvir e ser ouvida, interromper e ser interrompida, debater, divergir são da comunicação humana desde sempre. Mimimi é outra coisa. E não tem gênero", escreveu a jornalista.

Em vídeo divulgado em suas redes sociais, Joel Pinheiro da Fonseca também defendeu a postura dos entrevistadores.

"De fato, todos os entrevistadores em algum momento fizeram uma intervenção no meio da fala, complementaram uma pergunta ali no meio. Notícia para quem caiu no mundo ontem: é assim que uma entrevista de verdade funciona. Discurso de político é uma coisa difícil, é um sabonete. Político vê uma entrevista como ocasião de palanque. É isso que a gente quer? Ficar vendo propaganda eleitoral no que deveria ser uma entrevista dura, que gere algum tipo de luz, descoberta sobre o candidato? Quem reclama tanto de interrupção não pode estar sério."

"Machismo é achar que você deve tratar uma mulher candidata como se fosse uma bonequinha de louça. Isso sim é machismo, é tratar mulher como café com leite", completou. 

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