Não é verdade que João Amoêdo, do Novo, criticou direitos de professores

Texto viral é de filiado ao partido; presidenciável diz que as críticas não representam sua opinião

Sarah Mota Resende
São Paulo

O material que circula no WhatsApp e nas redes sociais com críticas aos professores da rede pública atribuídas ao candidato à Presidência João Amoêdo, do partido Novo, é enganoso. O autor do artigo é, na verdade, André Capella, filiado ao partido. A informação sobre o verdadeiro autor é omitida no viral.

No texto intitulado “Como ter um ensino básico de qualidade no Brasil?”, Capella diz que “a educação pública básica brasileira encontra-se em situação de falência em decorrência de um sistema de ensino que oferece muitos direitos aos professores em detrimento do direito de aprender do aluno”. Ele também critica o fato de os professores da rede pública gozarem de estabilidade no emprego.

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O candidato à Presidência pelo Partido Novo, João Amoêdo, em seu escritório no Itaim, em São Paulo - Rafael Roncato/Folhapress

No artigo, Capella usa esta argumentação para propor a transferência gradativa dos alunos para as escolas privadas. “Neste caso, as Secretarias de Educação ofereceriam aos pais desses alunos um voucher (vale) educacional que lhes daria a opção de escolher uma escola particular para matricular seu filho”, diz.

Procuradas pelo projeto Comprova, coalizão de 24 organizações de mídia brasileiras, dentre elas a Folha, que visa identificar, checar e combater rumores, manipulações e notícias falsas sobre as eleições de 2018, as assessorias de Amoêdo e do Novo enviaram uma nota em que afirmam que as críticas aos professores não representavam a opinião do candidato e do partido.

"Este foi um texto escrito por um voluntário do Novo e publicado no blog do partido, tal como diversos outros textos de opiniões pessoais, com um aviso que deixava claro que esta era a opinião pessoal e não representava as ideias do Novo. Para evitar novos desentendimentos já foi retirado do ar."

O projeto Comprova localizou a publicação original do artigo usando programas que buscam conteúdos removidos da internet, como Wayback Machine e Google.

A assessoria de Amoêdo afirma que ele repudia os comentários feitos por Capella. A assessoria do Novo confirma que o artigo foi escrito por Capella e publicado em 2017. Também informa que ele é filiado ao partido, mas não tem cargo na legenda nem participação no programa de governo e na campanha do candidato.

O programa de governo de Amoêdo contém a proposta de dar bolsas em escolas particulares para alunos do ensino público, mas o Novo alega que as críticas feitas por Capella aos professores não serviram de base para que o partido viesse a adotá-la. “Esta é uma teoria amplamente discutida entre os especialistas e já aplicada em países como Chile e alguns estados americanos”, diz a assessoria do Novo.

O material enganoso foi encaminhado ao WhatsApp do Comprova. O projeto também localizou a publicação em páginas abertas no Facebook. 

Em uma delas, Verdade sem manipulação, capturas de tela de trechos da publicação removida do site do Novo estão acompanhadas de uma foto de Amoêdo. A postagem, que até a publicação deste texto somava mais de 15 mil compartilhamentos, ainda tinha o seguinte texto: “Todos os professores do Brasil precisam saber o que o plano de governo do Amoedo diz sobre eles!”. A publicação da rede social não menciona o nome de Capella, o real autor do texto. 

A página Jovens reacionários defensores da liberdade combatendo o mal também divulga capturas de telas do texto de Capella quando estava no ar no site do Novo, apesar de não aparecer o nome do autor. O texto que acompanha as imagens inclui um link para um tuíte de Amoêdo em que o candidato defende a ideia de vouchers, e para uma página com a íntegra do texto com a assinatura de Capella e a data de publicação, 16 de março de 2017. A publicação tem mais de 10 mil compartilhamentos.


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Participaram também da apuração deste texto os veículos UOL e O Povo, que integram o Comprova, projeto que visa identificar, checar e combater rumores, manipulações e notícias falsas sobre as eleições de 2018. É possível sugerir checagens pelo WhatsApp da iniciativa, no número (11) 97795-0022.

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