Elogiada por Lula, Manuela abriu mão de liderar chapa para ser vice do PT

Comunista gaúcha é vice de Haddad na eleição

Marco Rodrigo Almeida
São Paulo

Em seu discurso em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), antes de se entregar à Polícia Federal, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva referiu-se cinco vezes a Manuela D’Ávila.

Presença destacada no carro de som em que Lula proferiu sua fala de despedida, a “garota bonita, garota militante do PC do B”, nas palavras do líder petista, foi mais citada que muitas das lideranças históricas do PT. 

“E quero dizer a você Guilherme [Boulos] e a Manuela que, para mim, é motivo de orgulho pertencer a uma geração que está no final dela vendo nascer dois jovens disputando o direito de ser presidente da República desse país”, disse o ex-presidente na manhã do dia 7 de abril.

A troca de afagos —Manuela contestou a prisão de Lula e defendeu a participação do petista na eleição— deixava aberta a possibilidade de união das siglas na corrida eleitoral.

Cinco meses depois, após idas e vindas, o acordo foi confirmado: com Lula barrado pela Justiça Eleitoral, Fernando Haddad passou a encabeçar a chapa petista, tendo Manuela como vice.

Antes, em agosto, o PC do B havia oficializado sua candidatura à Presidência, o que desagradou a muitos petistas. 

Pela primeira vez desde 1989 o PC do B demonstrava intenção de desvincular-se do PT e ter candidato próprio à Presidência. 

Num congresso do PC do B, Lula tratou de apaziguar os ânimos. “É um direito legítimo [ser candidato]. Se não fosse a minha teimosia e a do PT, eu não teria chegado nunca à Presidência”, afirmou.

Manuela, por sua vez, manifestou diversas vezes que não se oporia a uma composição com o PT já no primeiro turno da disputa. “Nós nunca fomos e nunca seremos óbice à unidade de nosso campo político. Nós precisamos estar o mais unido possível para que vençamos a eleição e interrompamos esse ciclo de destruição do Brasil.”

Em 5 de agosto, quatro dias após a convenção que lançou Manuela no pleito para o Planalto, o PC do B firmou aliança com o PT e desistiu de ter um nome próprio na disputa.

Caso a chapa petista vença, será a primeira mulher a ocupar a Vice-Presidência. Em relação a Dilma Rousseff (PT) possui a vantagem de já ter disputado eleições e conhecer mais de perto os meandros do jogo político.

Nascida em Porto Alegre, Manuela iniciou cedo a carreira política. Em 2004, aos 23 anos, elegeu-se vereadora de sua cidade-natal. Em 2006 e 2010 foi eleita deputada federal com recorde de votos no Rio Grande do Sul. 

Na Câmara Federal relatou o Estatuto da Juventude e presidiu a Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Neste último posto, teve em 2011 um embate Jair Bolsonaro, na época deputado pelo PP, hoje candidato à Presidência pelo PSL.

Manuela pediu na ocasião que o PP indicasse outro deputado para a vaga de Bolsonaro. “Não podemos ter nesta comissão um deputado que não defenda os direitos humanos”, disse ela. “Estou sofrendo preconceito heterossexual”, reclamou Bolsonaro. 

Manuela concorreu, sem sucesso, à Prefeitura de Porto Alegre em 2008 e 2012.

Em 2014, trocou Brasília pelo Rio Grande do Sul e elegeu-se deputada estadual com a maior votação no estado naquele ano.

Dois anos depois, uma foto da deputada amamentando a filha na Assembleia Legislativa teve repercussão internacional.

“O que chama atenção na foto em minha opinião?”, indagou-se Manuela numa rede social. “Mulheres em espaço de poder, crianças em espaços de poder, vida em espaços de poder. A política é masculina e machista, a política não tem espaço para as mulheres, a política não tem espaço para o que nos diferencia dos homens, a política não tem espaço para a ingenuidade e para a alegria das crianças, não tem espaço para a naturalidade com que conciliamos nosso trabalho e nossas lutas com nossos bebês. Levar Laura comigo tornou-se, sem que eu percebesse, uma forma de resistir a política que desumaniza.”

Um dos símbolos de sua bandeira contra o preconceito é a frase estampada em suas camisetas: “Lute como uma garota”.

Em junho deste ano, as interrupções a ela por parte dos entrevistadores do programa Roda Viva — ao menos 40, em contatem da Folha - foram classificadas de machistas pelos movimentos feministas.

Sobre o tratamento dado às mulheres no meio político, declarou recentemente à Folha: “Às vezes escuto um elogio que é fundamentado em um conjunto de preconceitos. É comum ouvir: ‘Nossa, você me surpreendeu por saber falar sobre tal assunto’. Sempre respondo: você achava que eu era a parlamentar mais votada do RS há quatro eleições por causa de meus olhos azuis? Eu não tenho os olhos azuis.”


 

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