Descrição de chapéu Eleições 2018

Com bênção de Lula e esquerda caviar, Boulos faz estreia eleitoral

Por ora sem chances de chegar lá, tem 1% nas pesquisas, é o mais jovem presidenciável aos 36 anos

Anna Virginia Balloussier
São Paulo

“Companheiro Guilherme Boulos, nosso companheiro que está iniciando uma jornada sendo candidato do PSOL a presidente”, adulou Lula no dia 7 de abril, a horas de ir para uma prisão que ainda hoje lhe guarda, para a multidão que cercava o caminhão de som na frente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

“Vocês têm que levar em conta a seriedade desse menino”, o ex-presidente continuou a dar sua bênção àquele que “só tem 35 anos e, quando fiz a greve de 78, eu tinha 33”.

O grão-petista conseguiu “criar um partido e virar presidente”, e Boulos, se for paciente, um dia chega lá, vaticinou. “Você tem futuro, meu irmão.”

O candidato à Presidência Guilherme Boulos (PSOL)
O candidato à Presidência Guilherme Boulos (PSOL) - Bruno Santos/Folhapress - Produção Aline Prado

Por ora sem chances de “chegar lá”, com 1% nas pesquisas, o mais jovem presidenciável do país fez 36 anos em junho. Três meses depois, rubricou sua estreia eleitoral com o programa de governo intitulado “50 Receitas de Boulos para Mudar o Brasil”.

Nele intercala tópicos como “fazer os super-ricos pagarem impostos” e "democratização das Forças Armadas" com fotos que fariam bonito em quadros de culinária, nas quais assa bolos salpicados de confete colorido ao lado de personalidades como Laerte e sua vice, a indígena Sonia Guajajara.

Em seis meses de campanha, Boulos acumulou frases de efeito (chamar os adversários de “50 tons de Temer” está entre as favoritas), 8 kg a mais e a simpatia de setores progressistas que já chegaram a se perguntar:  quem tem medo de Guilherme Boulos?

Medo não é a melhor palavra, mas a empresária e articuladora política Paula Lavigne  admite que ela e o marido, Caetano Veloso, eram “cheios de preconceito” com o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. Não sabiam se era radical ou não. 

Até o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) aparecer com Boulos no apartamento do casal, na zona sul carioca, para um dos encontros com artistas que Paula promove. Todos queriam saber do convidado principal que papo é esse de ocupação. 

“Eu mesma, assumo, não sabia direito do que se tratava. Mas reunião com Boulos é sempre uma maravilha. As pessoas foram ficando loucas no bom sentido, excitadas”, conta Paula, que se juntaria à trupe de famosos (de Sonia Braga a Mônica Iozzi) que apoiou o lançamento da candidatura do coordenador do MTST, recém-filiado ao PSOL, em março.

Aos poucos, Boulos, um filho da classe média alta paulistana que ainda jovem doou as roupas de grife para se dedicar à luta por moradia, foi caindo nas graças de um grupo de artistas e intelectuais que detratores gostam de chamar de “esquerda caviar”.

O candidato do PSOL é a exceção desgravatada, entre os homens, em debates e protagoniza atos como o Litrão com Boulos (num bar com cerveja de litro a R$ 7,50), um território seguro para ele, com boa aceitação entre universitários.

 Mas simpatia é quase voto numa eleição polarizada como a de 2018, e com dois candidatos de esquerda competitivos —Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT). 

Agora, na reta final da campanha, Boulos faz um apelo àqueles que se rendem ao “clima de medo” e “cogitam fazer voto útil” num esquerdista com mais chances que ele. 

"Urna é lugar de depositar sonhos", afirma. A leitura pragmática: uma boa votação fortalecerá quadros da esquerda na hora de cobrar a defesa de pautas progressistas daquele entre eles que passar para o segundo turno. Ao que tudo indica, o petista Haddad.

Boulos diz à Folha, enquanto almoça um bauru perto do aeroporto, que a candidatura já valeu a pena por ter lhe dado a chance de falar em rede nacional sobre temas em geral escanteados por outros candidatos.

Pautas como LGBTQ e o "combate a privilégios de banqueiros”. “Não vou chamar o Meirelles, vou taxar o Meirelles”, uma troça com o rival do MDB, virou uma coqueluche em seus discursos.

Presidente do PSOL, Juliano Medeiros segue a toada: “A candidatura consolidou um campo à esquerda mais amplo que o PSOL, o que em si é uma grande vitória política”. 

Marcelo Freixo gosta de contar que a proposta de lançar Boulos lhe veio num café com a namorada e escritora feminista Antonia Pellegrino. “Os olhos dela são meio que termômetro. Falei do Boulos, e arregalaram”, disse à Folha em 2017. O presidenciável diz que a ideia não teve um pai , e sim foi coletiva.

Já ex-aliados da vida militante —com quem a reportagem conversou sob a condição de não revelar nomes— o definem como um “capo” (apelido para chefes de máfia) de movimentos sociais. Seria alguém “ambicioso que instrumentalizou a causa para sua ascensão”. 

Um crítico aberto é Plinio de Arruda Sampaio Jr., o Plininho. Filho do presidenciável do PSOL em 2010, ele acusou a sigla de impor o novato na marra. Boulos foi ungido candidato sem prévias com a base partidária, numa conferência em São Paulo. 

Para Plininho, havia um “desafio posto para toda a esquerda socialista: oferecer alternativa  à mesmice da política tradicional [Haddad] e à proposta de ‘intervenção militar’, liderada pelos capitães de mato que cercam Bolsonaro”. E o escolhido do PSOL “não empolgou”. Boulos retruca: o desafeto “está um pouco ressentido por não ter sido candidato”.

O filho não cogitava ser um político de carteirinha, ao menos não na mocidade, diz Marcos Boulos, que chefia a Coordenadoria de Controle de Doenças na Secretária de Saúde paulista.

O Boulos “meninão” era um corintiano roxo, que chegou a vislumbrar uma dissidência da Gaviões da Fiel que se chamaria Corações Alvinegros.

A militância chegou com a adolescência, quando pediu aos pais, ambos médicos, para trocar de escola: da particular Equipe à estadual Fernão Dias Paes.

“Comprava tudo o que achava bonito” mas, certo dia, “deu todas as roupas de grife que tinha” e disse em casa que queria “dedicar a vida à justiça social”, lembra o pai. Que seja feita a vossa vontade.

No início, o pai o ajudou a pagar o aluguel de um apartamento no centro de São Paulo, antes de ele ir morar em ocupações, e também advogados para o filho ativista. Rememora o dia que o filho foi detido por vociferar “fora FMI” e “fora FHC”. 

Na família, conta Marcos, professor aposentado da USP, o pêndulo sempre foi para a esquerda. Ele chegou a ter um consultório "bem badalado" de imunologia nos Jardins, região nobre da cidade, tendo como sócios outros doutores de grife, David Uip e Vicente Amato Neto.

Deixou a medicina particular para trabalhar no sistema público porque, diz, achou mais coerente com sua história —dedicou toda uma vida a pesquisar doenças tropicais, que acometem sobretudo os mais pobres.

Marcos ri de algo que, logo depois, diz achar pouca graça: a campanha do filho foi alvo de uma fake news que associa a ele um imóvel de 400 m² na Vila Mariana, avaliado em R$ 2,8 milhões. Seria “parte do espólio de um rico médico”, um “legítimo membro da burguesia": ele, Marcos Boulos. 

O apartamento, claro, nunca existiu, mas a hipótese se espalhou por grupos de WhatsApp até chegar ao seu celular. Pronto. Virou pai de um "socialista nascido em berço de jacarandá", como diz o texto que propaga a falsa notícia.

Pai de duas meninas, de 7 e 8 anos, e casado com uma "companheira de luta", a ativista Natalia Szermeta, Boulos teve uma única incursão partidária antes do PSOL.

Assinaram em 31 de julho de 2000, ele e amigos como André Conti, sócio da editora Todavia, uma carta aberta anunciando a desfiliação do “Partido Comunista (Sic!) Brasileiro”. O PCB, reclamavam, “não é hoje um partido revolucionário e tampouco trabalha para sê-lo”. 

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