Descrição de chapéu Eleições 2018

Eleito governador do RJ é ex-magistrado e articulou candidatura por três anos

Wilson Witzel (PSC) derrota Eduardo Paes (DEM) em disputa acirrada no estado

Italo Nogueira
Rio de Janeiro

Eleito governador do Rio de Janeiro como um “outsider”, o ex-juiz Wilson Witzel (PSC) não rejeitou o mundo político. Articulou por ao menos três anos sua candidatura vitoriosa ao Palácio Guanabara.
Ligado desde o fim da década de 1990 ao PSDB, Witzel foi colaborador do Instituto Teotônio Vilela.

Wilson Witzel, ex-juiz eleito governador do Rio de Janeiro - Divulgação

Contudo, ele já demonstrava aproximação com a bancada evangélica do Congresso quando iniciou seus primeiros passos rumo ao Executivo fluminense.

Em 2015, procurou o senador Eduardo Lopes (PRB-RJ) a fim de lhe apresentar uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) autorizando que magistrados e membros do Ministério Público pudessem manter os cargos mesmo disputando cargos eletivos. A mesma discussão teve em 2017 com o deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL) —agora senador eleito.

Sem avanço na proposta, o governador eleito teve de deixar definitivamente a magistratura em março. Tentou ainda manter o “ex-juiz” em seu nome na urna, mas foi orientado a retirar a referência ao antigo cargo pelo Tribunal Regional Eleitoral —foi autorizado, contudo, a usá-lo na campanha.

Witzel também não se furtou a dialogar na pré-campanha com o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM), o senador Romário (Podemos) e o ex-governador Anthony Garotinho (PRP), os favoritos no início da campanha.

Todos buscaram o ex-juiz a fim de lhe oferecer uma vaga de vice na chapa. Ouviam como resposta a proposta invertida. O tom era visto como irônico, considerando partir de um candidato à época com 1% nas pesquisas de intenção de voto.

O governador eleito foi classificado por muitos da política fluminense como um louco autoconfiante. Um dos que assim o chamaram foi o governador Luiz Fernando Pezão (MDB) que o encontrou por duas vezes.

A primeira reunião foi no Palácio Guanabara, sede do governo, para falar sobre a situação do estado. A segunda, no Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador, que o ex-juiz pediu para visitar. Queria conhecer o local onde acreditava ir morar a partir de janeiro.

A autoconfiança teve de dar lugar à moderação durante a campanha. Ele chegou a declarar que, se eleito, continuaria morando em sua casa, no Grajaú (zona norte da capital), iria cancelar o plano de saúde e que os três dos quatro filhos estudariam em escolas públicas.

A guinada se deu com o objetivo de demonstrar desapego a privilégios, o que Witzel não apresentou enquanto magistrado. Como a Folha revelou, o governador eleito recebeu auxílio moradia mesmo tendo imóvel próprio. O jornal O Globo divulgou um vídeo em que ele ensinava uma “engenharia” para garantir outros R$ 4.000 de outro penduricalho da Justiça.

Witzel também apresentou relações que indicam potencial conflito de interesse. Em plena campanha eleitoral, se tornou sócio de dois escritórios de advocacia. Um deles passou a defender, em agosto, um grande fornecedor do estado citado em delações da Operação Lava Jato.

Ele mesmo reconheceu que parte dos R$ 215 mil que transferiu para a própria campanha tiveram como origem as luvas que recebeu ao entrar nessas firmas. O ex-juiz afirma que os novos negócios tinham como objetivo dar alguma garantia de atividade profissional em caso de derrota na eleição —o que ele nunca demonstrou acreditar. Declarou que deixará as sociedades assim antes de tomar posse.

Ele chegou ao segundo turno graças à associação que fez com o senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL) nos últimos dias da campanha do primeiro turno. Teve 41,28% dos votos válidos em 7 de outubro. Apesar de Jair Bolsonaro (PSL) ter declarado neutralidade no estado no segundo turno, conseguiu atrair a maior parte dos eleitores do capitão reformado, segundo as pesquisas.

Eleito pelo PSC, um partido conservador, Witzel tem um filho transexual. O chef Erick Witzel chegou a criticá-lo por considerar ter sido usado durante a campanha do pai para tentar suavizar sua imagem. O ex-juiz, contudo, se referiu ao filho em raras oportunidades, geralmente quando questionado sobre o tema.

Paulista de Jundiaí, ele se mudou ao Rio com 17 anos para seguir carreira militar. Tinha o desejo de ser piloto da Força Aérea, mas não pôde por usar óculos.

Quando morava na zona norte com a ex-mulher, militar da Marinha, era vizinho de prédio de Jair Bolsonaro. Conviveu mais com Rogéria Bolsonaro, primeira ex-mulher do capitão reformado.

Witzel também foi servidor do Previ-Rio (Instituto da Previdência de Servidores da Prefeitura do Rio de Janeiro), onde organizou cartas de crédito para funcionários de baixa renda do município. Foi defensor público entre 1998 e 2001, período em que almejou uma candidatura a deputado pelo PSDB. Contudo, passou para o concurso da Justiça Federal, quando se tornou juiz.

Em 2011, ele atuava numa vara criminal no Espírito Santo quando passou a ser ameaçado por uma quadrilha de traficantes. Passou a usar colete à prova de balas, mas teve a rotina da família fotografada.

Após viver sob regime de segurança, decidiu pedir transferência para o Rio de Janeiro, onde passou a atuar na execução fiscal. A decisão foi alvo de ataques na campanha deste ano, tendo sido chamado de frouxo pelo senador Romário —ataque repetido por Paes no segundo turno.

Witzel se dedicou também a comissões da Associação de Juízes Federais, tendo presidido a entidade no Rio de Janeiro e Espírito Santo. Participou de comissões para elaboração de projetos de lei, inclusive junto com o juiz Sérgio Moro.

Na Ajufe, também envolveu-se com uma polêmica sobre a cessão de campos na Granja Comary e material esportivo da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) para um torneio de futebol de juízes. Witzel era diretor de esportes da associação de classe e a CBF, à época comandada por Ricardo Teixeira, acumulava réus na Justiça Federal.

Organizou também um evento em Comandatuba, sul da Bahia, patrocinado por estatais como Caixa, Banco do Brasil e Eletrobras, além de empresas privadas como Souza Cruz. O encontro ficou conhecido como a “farra dos juízes”.

Wilson Witzel se tornou neste domingo (28) o primeiro paulista eleito governador do Rio de Janeiro.

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