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Favoritismo de Bolsonaro é reforçado por pior desempenho do PT

Sobrevida de Haddad apoia-se na prática do voto útil

Mauro Paulino Alessandro Janoni
São Paulo

Jair Bolsonaro (PSL) mantém o favoritismo na véspera do pleito presidencial, mesmo com queda significativa de sua vantagem para Fernando Haddad (PT) na última semana. A diferença que durante o segundo turno chegou a 18 pontos percentuais, passou para 10 pontos a um dia da eleição.

Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT)
Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) - Miguel Schincariol/Daniel Ramalho/AFP

No total de votos, quando se consideram as taxas dos que pretendem votar em branco, nulo ou que ainda estão indecisos, Bolsonaro tem 47% contra 39% de Haddad. O índice de eleitores sem candidato ainda é recorde –13%, sendo que entre estes, 5% ainda não sabem em quem vão votar.

Em análise na véspera do primeiro turno, o Datafolha afirmou que a probabilidade de vitória antecipada de Bolsonaro na ocasião seria improvável. O instituto repete a afirmação agora, porém em relação à possibilidade de uma virada de Haddad.

Contra o petista, além do ineditismo da empreitada, há uma diferença grande, em pontos percentuais, a ser superada em espaço de tempo exíguo. Nas eleições presidenciais, o vencedor da primeira fase sempre saiu eleito na segunda.

Além disso, os dados divulgados hoje revelam o pior desempenho do PT em um levantamento de véspera em disputas de segundo turno pós-redemocratização. O diagnóstico, combinado à evolução dos resultados oficiais do partido nessas ocasiões projeta queda da sigla este ano.

Desde a eleição de Dilma em 2010, o PT vem perdendo espaço para os adversários junto aos brasileiros. Lula foi eleito com 61% dos votos válidos tanto em 2002 quanto em 2006, taxa que caiu para 56% com a ex-presidente em 2010 e para 52% na reeleição da petista, em 2014.

Pelos números divulgados hoje, se a tendência de crescimento de Haddad não se intensificar no dia da votação, o partido deve voltar a percentual próximo de 47% dos votos válidos, observado na primeira eleição pós-redemocratização em 1989, quando Fernando Collor (PRTB) venceu a disputa com 53%.

A esperança do petista sobrevive  na curva ascendente da última semana, na queda contínua de Bolsonaro e num aspecto que torna singular este pleito em relação aos demais –a taxa de entrevistados sem candidato na véspera é maior do que nas outras eleições.

Nesse segmento, cerca de um quarto não descarta a possibilidade de voto útil e de optar por um candidato, o que colocaria em jogo alguns pontos, com maior probabilidade de migração para o petista – a rejeição ao candidato do PSL é maior tanto entre os indecisos quanto entre os que pretendem votar em branco ou anular o voto.

O máximo que Haddad poderia alcançar, caso todos os entrevistados que cogitam elegê-lo, o fizessem de fato, seria 47% do total de votos. Só venceria com esse percentual se Bolsonaro caísse a seu piso de 46%. Com isso, teria pouco mais de 50% dos votos válidos.

Já, se o candidato do PSL conseguir reverter a tendência verificada nos últimos dias, poderia até abrir diferença elástica, equivalente à vantagem que tinha logo após a vitória no primeiro turno.

A pesquisa de véspera não capta, no entanto, os últimos movimentos das campanhas, como o material que pode ser distribuído em redes sociais de mensagens instantâneas, com repercussão em tempo real, ou eventuais declarações de apoio ao longo das próximas horas.

Mas, independentemente do resultado, o presidente eleito herdará um país dividido. Há chance, inclusive, de não obter a maioria absoluta do total de votos, algo que no segundo turno aconteceu apenas em duas ocasiões –com Collor em 1989 e com Dilma em 2014, ambos eleitos por 47% dos brasileiros. Nesses casos, a maioria dos eleitores dividiu-se entre o outro candidato, o voto nulo e o voto em branco

Nesse contexto, vale ilustrar o perfil majoritário daqueles que o próximo presidente do país representará —a maioria da população é composta de mulheres, não tem pele branca, é economicamente ativa, possui baixa renda familiar (até três salários mínimos), condena ações antidemocráticas, diz que a homossexualidade deve ser aceita por toda a sociedade e se posiciona contrariamente à posse de armas.

A democracia é o melhor sistema de governo, sob qualquer circunstância, para a grande maioria dos brasileiros.

Mauro Paulino é diretor-geral do Datafolha e Alessandro Janoni, diretor de Pesquisas

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