Bolsonaro parabeniza decisão de Toffoli; petistas vão de euforia a lamento

Vaivém sobre a liminar do ministro Marco Aurélio gerou celebração e revolta ao longo do dia

São Paulo

As diferentes decisões vindas do STF (Supremo Tribunal Federal) ao longo do dia sobre a soltura de condenados em segunda instância geraram celebrações e revolta entre políticos apoiadores e opositores do ex-presidente Lula, que poderia ser beneficiado pela liminar do ministro Marco Aurélio.

O presidente eleito, Jair Bolsonaro, usou o Twitter para elogiar Dias Toffoli, que suspendeu a liminar expedida pelo colega de STF. "Parabéns ao presidente do Supremo Tribunal Federal por derrubar a liminar que poderia beneficiar dezenas de milhares de presos em segunda instância no Brasil e colocar em risco o bem estar de nossa sociedade, que já sofre diariamente com o caos da violência generalizada."

O clima inicialmente era de revolta entre aliados do capitão reformado e de euforia entre os petistas com a possibilidade de a medida permitir a soltura de Lula. Com a decisão posterior de Toffoli, foi a vez das reações de lamento vindas do PT seus aliados e de comemorações do campo antipetista.

Militantes ao lado da sede da PF, em Curitiba, na expectativa de libertação de Lula por conta de liminar do ministro Marco Aurélio que revogava prisões após condenação em segunda instância. Decisão seguinte, de Dias Toffoli, suspendeu a medida
Militantes ao lado da sede da PF, em Curitiba, na expectativa de libertação de Lula por conta de liminar do ministro Marco Aurélio que revogava prisões após condenação em segunda instância. Decisão seguinte, de Dias Toffoli, suspendeu a medida - Theo Marques/ Folhapress

A deputada federal eleita Joice Hasselmann (PSL-SP) chamou a decisão de Marco Aurélio de "um grande golpe" na Operação Lava Jato e na Justiça "ao apagar das luzes" do STF em 2018.

Horas depois, elogiou Toffoli. "O presidente do STF mostrou que o Supremo não pode se dobrar à molecagem de um único ministro subserviente ao PT e seus asseclas criminosos".

Filho do presidente eleito, o também deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) afirmou após a liminar de Marco Aurélio não saber "se o Brasil tem noção real" da gravidade da medida. "Milhares de presos podem ser soltos e ficarem livres pelo menos até fevereiro! Num ambiente com a população desarmada e a polícia desestimulada!", escreveu em seu perfil. Horas depois, a mensagem foi apagada.

Do lado petista, a tarde começou com euforia. Pouco tempo depois que o ato do magistrado veio a público, a presidente nacional do partido, senadora Gleisi Hoffmann (PR), afirmou que a sigla já havia pedido à Justiça a expedição do alvará de soltura.

"Ministro Marco Aurélio tinha poder, convicção e legitimidade para decidir. Assim o fez. Há um ano defende essa posição, baseada no entendimento da maioria do Supremo. Ninguém o questiona. Decisão para ser cumprida", afirmou a senadora no Twitter. 

Depois, na mesma rede, lamentou a suspensão. "Procuradores mentiram à população ao dizer que liminar soltaria homicidas e outros tipos. Já a Constituição.... todos sabem que passou a ser um detalhe".

Ao longo da tarde, lideranças e filiados do PT espalharam a hashtag "Lula livre", na expectativa de sua soltura. Em Curitiba, militantes se concentravam em frente à superintendência da Polícia Federal, onde o petista está preso desde abril.

O vento começou a mudar quando a juíza Carolina Lebbos, responsável pela execução penal do ex-presidente, não cumpriu a decisão de Marco Aurélio.

"Deve ser executada e não cabe a uma juíza de 1ª instância revogar a liminar de um ministro do STF", criticou o também deputado Paulo Pimenta (RS), líder do PT na Câmara.

Pouco depois, a decisão de Toffoli foi alvo de reclamações de petistas e outros apoiadores de Lula.

Pimenta usou um bordão do ex-presidente para ironizar Toffoli. "O caso Lula vai para história do direito brasileiro. Parafraseando o próprio 'nunca antes na história desse país' um cidadão recebeu duas ordens de habeas corpus (um no TRF-4, outro no Supremo Tribunal Federal) e continua preso!"

O presidente nacional do PSOL, Juliano Medeiros, criticou no Twitter a decisão do presidente do STF. "Além de traidor, Toffoli é covarde. Dia 10 de abril teremos um novo capítulo em defesa da Constituição Federal", disse, em referência ao julgamento marcado pelo próprio presidente do STF para essa data, sobre prisões em segunda instância.

O ex-presidenciável João Amoêdo (Novo) também usou o Twitter para fazer um chamado a acompanhar o julgamento de 10 de abril no Supremo, mas com outro tom. "Por um Brasil sem impunidade, continuaremos pedindo a prisão em segunda instância até a decisão em plenário no STF."

Mais cedo, criticou a liminar de Marco Aurélio, dizendo que "criminosos, como Lula, não podem ser colocados em liberdade por uma decisão monocrática, tomada no último dia do Judiciário, para que não possa ir a plenário".

Fundador do MBL (Movimento Brasil Livre) e deputado federal eleito, Kim Kataguiri (DEM-SP) disse que Marco Aurélio Mello estava "em busca de holofotes".

"É um irresponsável, um militante de toga. Em um país sério, isso terminaria na cadeia. A ADC [ação declaratória de constitucionalidade] já tem data marcada para ir ao pleno, decisão absurda, só para tocar fogo no país", afirmou.

Para a ex-senadora Marina Silva (Rede), que também disputou este ano a Presidência da República, a decisão ia "na contramão do anseio da sociedade brasileira de ver o fim da impunidade praticada por agentes públicos e privados contra as finanças públicas".

Em mensagem no Twitter no início da tarde, sem mencionar diretamente o episódio, o juiz Marcelo Bretas, responsável pelo braço da Lava Jato no Rio, afirmou que o país ainda tem "forças retrógradas".

"O Brasil está mudando, rapidamente e para melhor. Lamentavelmente essa mudança não é instantânea. Assim, ainda por algum tempo, haveremos de conviver com forças retrógradas, comprometidas com o modelo superado", afirmou o magistrado do Rio.

Gabriela Sá Pessoa, Joelmir Tavares e Rodrigo Borges Delfim
Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.