Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

TV pública para surdos exclui vídeos sobre esquerda e filósofos

Sindicância vai avaliar retirada de peças do site; MEC nega que tenha dado ordem

Lista de vídeos no site da TV Ines, que funciona com verba pública
Lista de vídeos no site da TV Ines, que funciona com verba pública - Reprodução
Mariana Carneiro Paulo Saldaña
Brasília

Há pouco mais de duas semanas, uma lista de “programas proibidos” começou a circular entre os funcionários da TV Ines. Mantido com dinheiro do governo federal, o canal na internet exibe programas para a população surda.

A lista apontava programas que deveriam ser retirados do site por abordarem autores “de esquerda”, “socialistas”, de conteúdo “relacionado à ditadura militar” e que de alguma maneira mostravam um olhar crítico, segundo o censor, à religião.

Na limpa ocorrida dos dias seguintes, foram retirados do ar 16 biografias de filósofos e acadêmicos, como Antônio Gramsci, Walter Benjamin e Karl Marx. Nem Emile Durkheim e Stuart Hall foram poupados e foram tachados “de esquerda”.

Friederich Nieztsche foi banido por não ser “muito ligado a valores religiosos”, assim como Jean Jacques Rousseau, “que entendia religião fora da teologia”. Especialista em formação de professores e ex-reitor da Universidade de Lisboa, António Nóvoa também foi vetado por ser de esquerda.

Sobrou ainda para o cineasta Cacá Diegues e o clássico “Bye Bye Brasil”, que assim como o documentário “Uma longa viagem”, de Lúcia Murat, é vinculado à ditadura militar, conforme a lista censora.

Os atores José Wilker e Betty Faria em cena do filme "Bye Bye Brasil" (1979), de Cacá Diegues
Os atores José Wilker e Betty Faria em cena do filme "Bye Bye Brasil" (1979), de Cacá Diegues - Divulgação

Outros programas com conteúdo sobre a população indígena, negra, sobre feminismo e sobre a luta contra a Aids foram retirados do ar.

A limpeza ficou restrita às instalações da TV Ines, no Rio de Janeiro, até a semana passada, quando usuários descobriram que uma entrevista concedida pelo deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) também havia sido limada.

Uma das campeãs de audiência da TV na internet, a entrevista voltou a ser acessada com a notícia de que Wyllys está deixando o Brasil e desistirá do mandato após sofrer ameaças. Os que tentaram acessá-la não a encontraram no site da TV pública. A informação foi antecipada pelo jornal O Globo.

A TV Ines é mantida com um orçamento de cerca de R$ 10 milhões por ano do Ministério da Educação. Neste mês, a pasta passou ao comando de Ricardo Vélez Rodríguez, auto-declarado adversário do que classifica de “marxismo cultural”.

A TV é vinculada ao Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) e a produção de conteúdo do canal é feita pela Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto, a mesma que produz a TV Escola.

Segundo uma pessoa ligada às instituições, a lista de censura teria sido apenas uma das que foram produzidas pelo diretor-geral da Roquette Pinto, Fernando Veloso, em associação com o diretor de programação, Cláudio Jardim. Ambos negam que tenham confeccionado a lista, mas Veloso admite que a decisão de retirar o conteúdo do ar partiu dos dois.

"Na nossa opinião [o conteúdo] já veiculou demais e não tem porque continuar", afirmou.

Ele não soube citar, no entanto, algum conteúdo excluído que tratava de autores que não os considerados de esquerda.

O ministro Vélez chegou ao MEC por uma indicação do escritor Olavo de Carvalho, considerado ideólogo do governo Bolsonaro e crítico de um suposto predomínio do pensamento de esquerda na academia.

Apesar da nova cabeça no ministério, tanto a equipe do MEC quanto a direção da Associação Roquette Pinto negam que houve pedido do ministro para as exclusões.

Fernando Veloso disse à Folha que o conteúdo foi retirado do ar antes da virada do ano porque haveria mudança na grade de programação. Essa foi a mesma resposta que a Roquette Pinto encaminhou ao Ines em ofício na terça-feira (29), ante o pedido de explicações do novo diretor do Ines, Paulo André Martins de Bulhões.

"Não tem nada a ver com o MEC nem do governo", disse Veloso. 

Após a repercussão, Cláudio Jardim afirma que os programas produzidos pela TV Ines voltarão ao ar em cerca de dois a três dias e que a retirada ocorreu em razão de mudanças no site para acelerar a velocidade de navegação pelos usuários.

“Quando aumenta o número de ‘views’, precisa de um sistema mais robusto. Por isso, está mexendo na qualidade do site, para ficar mais rápido, para [o usuário] achar o programa com mais rapidez”, disse. “Não se retirou nada por censura”.

Veloso e Jardim sustentam que é prática comum tirar do ar materiais do acervo quando há mudança na grade de programação. Mas isso não é confirmado por pessoas ouvidas pela reportagem. 

A programação muda, mas o acervo é mantido disponível para consulta.

A educadora Monica Gardelli Franco, ex-diretora-geral da Associação Roquette Pinto, diz que isso jamais ocorria no passado.

"A não ser que houvesse problema técnico ou materiais com alguma licença específica", diz. A série de perfis de pensadores e filósofos que saíram do ar são produções da TV Ines. 

Franco explica que toda a programação da TV Ines é pensada em cima de um currículo.

"Embora não seja uma TV educativa, tem uma proposta de produção que possibilite a ampliação do repertório da população surda", diz ela, atual superintendente do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisa em Educação, Cultura e Ação Comunitária). 

"Uma das queixas dessa população é que há dificuldade de compreenderem o que está acontecendo no campo da informação jornalística porque falta repertório para entender. O desafio sempre foi levar o máximo de conteúdo de toda ordem."

A queixa da população surda está ancorada na baixa oferta de conteúdo traduzido para Libras (Língua Brasileira de Sinais). Também há deficiências no sistema educacional para acesso e permanência de estudantes surdos. 

Em nota, o Ministério da Educação informou que o Ines abriu sindicância para obter informações relacionadas à retirada, sem autorização, de alguns vídeos. Os materiais, segundo a nota, seriam reinseridos no site. Reforçou, ainda, que a decisão não teve participação do ministro da Educação.

O ministério diz, no entanto, que apuração preliminar aponta que os vídeos foram retirados em abril e em novembro do ano passado, ainda no governo anterior.

A nota do ministério critica o jornalista de O Globo Ancelmo Gois, que noticiou o caso primeiramente. Afirma que o ministro Vélez se recusa a "adotar métodos de manipulação da informação, desaparecimento de pessoas e de objetos que eram próprios de organizações como a KGB", o serviço secreto da antiga União Soviética. Diz ainda que Góis "foi treinado em marxismo e leninismo" pelo Partido Comunista Soviético.

A TV Ines encaminhou nota afirmando que "faz parte do dia a dia do canal a saída de conteúdo e entrada de novos". "Esses ajustes são necessários, para o rodízio da programação." 

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