Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Planalto tenta blindar Bolsonaro de cenário de crise por prisão de Temer

Estratégia é para manter presidente longe de episódio para evitar desgaste com outros Poderes

Brasília e Santiago

A prisão do ex-presidente Michel Temer (MDB) gerou forte repercussão na Câmara dos Deputados e levou o Palácio do Planalto a montar uma estratégia de blindagem do presidente Jair Bolsonaro (PSL) para evitar o seu envolvimento na atual crise política.

Em uma tentativa de se manter longe do episódio, que se tornou mais um capítulo na queda de braço entre Legislativo e Judiciário, o presidente evitou fazer juízo de valor sobre a prisão de seu antecessor e defendeu que "cada um responda pelos seus atos".

Plenário da Câmara dos Deputados durante sessão nesta quinta (21)
Plenário da Câmara dos Deputados durante sessão nesta quinta (21) - Luis Macedo - 21.mar.2019/Câmara dos Deputados

Ao desembarcar no Chile, em visita oficial ao presidente Sebastián Piñera, ele disse que "a Justiça nasceu para todos" e atribuiu a operação da Polícia Federal a "acordos políticos em nome da governabilidade", acrescentando que evitou repetir o mesmo modelo na formação de sua equipe.

"O que levou a essa situação, parece, foram os acordos políticos em nome da governabilidade, mas a governabilidade você não faz com esse tipo de acordo. No meu entender, você faz chamando pessoas sérias e competentes para integrar o seu governo, como eu fiz", afirmou Bolsonaro.

Depois, o presidente fez uma transmissão ao vivo em redes sociais (a terceira como presidente), falou em "prisões de autoridades", mas sem citar o nome de Temer.

Com o acirramento do desgaste entre Legislativo e Judiciário, o Executivo atuou nesta quinta-feira (21) para se manter afastado do cenário de instabilidade, evitando que ele afete também a relação do presidente com a Câmara dos Deputados e o STF (Supremo Tribunal Federal).

A equipe ministerial foi recomendada a manter silêncio sobre a prisão e a trabalhar na tentativa de reconstruir as pontes entre Legislativo e Judiciário, evitando que a pauta de votações de interesse do governo seja afetada.

No Planalto, assessores presidenciais defendem, inclusive, que Bolsonaro atue no final de semana, em seu retorno do Chile, como uma espécie de "bombeiro", promovendo um encontro entre os presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Supremo, Dias Toffoli.

A avaliação é de que, caso o desgaste perdure, ele pode atrasar a recuperação econômica do país, refletindo na aprovação do governo, que já apresentou queda desde o início do mandato.

Na mesma linha de Bolsonaro, o vice-presidente Hamilton Mourão fez uma análise genérica sobre o episódio e reconheceu que ele cria um ruído no país. Para ele, a prisão "é muito ruim", mas é necessário aguardar a investigação.

"Tem ruído, vai ficar esse ruído, mas vamos aguardar, daqui a pouco pode ser que ele seja solto", disse. Questionado se esperava que Temer fosse liberado, Mourão disse que "daqui a pouco, volta e meia um ministro qualquer dá um habeas corpus para ele".

Em um contraponto ao Executivo, o Legislativo se dividiu em críticas e elogios à decisão do juiz Marcelo Bretas de autorizar a prisão de Temer. Principal adversário do emedebista, o PT afirmou esperar que a prisão dele não seja baseada em "penas por especulações e delações sem provas".

A conta nas redes sociais do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está preso desde abril, criticou a força-tarefa da Operação Lava Jato e afirmou que ela tenta desviar a atenção do seu descrédito. "A força-tarefa não precisa de pirotecnia para sobreviver, precisa de sobriedade", ressaltou.

Em nota, o MDB disse lamentar a "postura açodada" da Justiça. "Vejo aí, sinceramente, uma prática de exibicionismo do Poder Judiciário, que nada contribui neste momento para o país", disse o ex-ministro da Secretaria-Geral Carlos Marun (MDB).

Em vídeo, o líder do PSL no Senado, Major Olímpio (SP) disse que a prisão dá certeza à população que o país está no caminho de cumprimento da lei. "Cadeia para todos que dilapidaram o patrimônio do povo brasileiro, envergonharam a política e têm que pagar, sim, na Justiça", disse.

Para o líder do PT na Câmara, Paulo Pimenta (RS), é preciso que o juiz Marcelo Bretas fundamente a prisão ou vai alimentar a especulação de que se trata de uma retaliação. "Eu espero que existam motivos jurídicos, porque se não existir e for mais uma operação com motivos políticos, vai ter consequências", afirmou.

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